Antes de começar o texto desta semana, quero deixar bem claro aos meus poucos mas solertes leitores que em momento algum passou por meus inocentes neurônios qualquer idéia nebulosa a respeito do uso real do tema central desta postagem. O assunto tocou-me apenas pelo inusitado, e portanto não pressupõe qualquer intenção futura de utilização como, digamos, um eventual álibi. Feita a necessária ressalva, prossigamos:
Um britânico de 59 anos, acampado com a mulher de 57, sonhou que um ladrão havia invadido a barraca em que ambos dormiam e ele – o marido – no afã de defender-se, atracou-se com o invasor. Com histórico de sonambulismo, é explicável que ele tenha traduzido em gestos o calor de seu combate onírico. Como, é claro, não havia invasor algum – pois, não custa nada repetir, tratava-se de um sonho – com quem diabos ter-se-ia atracado o zeloso britânico?
Uma xerox autenticada de algumas páginas do sonífero livro "Norte das Águas", do imortal José Sarney, para quem respondeu “a mulher dele”. Pois o paladino do camping juntou-a pelo pescoço, reuniu as forças recuperadas que algumas horas de sono haviam proporcionado e só parou quando a pobre coitada – ou melhor, o assaltante invasor – rendeu-se à própria inferioridade e sucumbiu.
Ao acordar – a nota da BBC não esclarece se foi em seguida ao embate, ou se ele teve tempo de recompor as energias dispendidas na defesa de seus domínios – o britânico percebeu a mulher jogada como um trapo velho sobre o colchonete, teve um atino do que poderia ter acontecido e pediu ajuda:"Acho que matei minha mulher. Meu Deus... Achei que um ladrão tinha entrado. Eu estava brigando com ele, mas era ela... Eu devia estar sonhando. O que eu fiz? O que eu fiz? Vocês podem mandar alguém aqui?", disse ele à atendente do serviço de socorro.
Se a expressão “um trapo velho sobre o colchonete” não foi suficiente para definir a extensão do dano causado à pobre britânica, esclareço que ela já estava morta quando marido acordou. Quando os socorristas chegaram, ele tremia e chorava enquanto repetia que a mulher, com quem estava casado havia 39 anos, era tudo para ele.
A promotoria entende que, na hora em que matou a mulher, o réu – que sofria de distúrbios do sono desde a infância – estava dormindo e sua mente não tinha controle sobre o que o corpo fazia. Pode ser considerado um caso de “automatismo insano”, segundo prevê a lei britânica, e, por isso, ele poderá ficar preso indefinidamente, enquanto se submete a tratamento psiquiátrico.
Sem querer parecer cético em excesso, eu só acho estranho que, em 39 anos de casado, ele nunca tenha somatizado seus pesadelos, antes, agarrado ao pescoço da mulher.
O presidente Lula tem razão: ler os jornais pode provocar azia. Ou insônia.
A imprensa tem uma indisfarçável predileção por assuntos desagradáveis, pelo pessimismo e pelo lado negativo das coisas, ainda que este seja apenas um entre outros noventa e nove aspectos animadores. Claro que jornalismo é oposição, como ensina mestre Millôr Fernandes – mas, pô, já que estão descobrindo água na Lua, que tal enaltecer algumas partículas de oxigênio que porventura possam rolar no vácuo?
Vi na “Folha de S. Paulo” da semana passada um exemplo típico do alarmismo derrotista da imprensa, na manchete da página de Saúde: Dormir mal pode levar à impotência.
O texto indica que uma pesquisa feita em São Paulo com 449 espécimes masculinos entre 20 e 80 anos comprovou que “homens que dormem mal têm mais risco de ter disfunção erétil” e que 7% dessa, digamos, falta de convicção, ocorrem na faixa dos 20 aos 29 anos.
Mas, vem cá, e quem é que não dorme mal? Nesse corre-corre diário para quitar as dívidas, nessa loucura agitada da vida moderna, nesse estresse do trânsito, quem é que consegue conciliar o sono de uma forma satisfatória, ininterrupta, sem sobressaltos? Ainda mais depois de uma notícia dessas?
Tenho certeza de que noventa e nove entre cem de meus leitores do sexo masculino – se os tivesse tantos – perderiam no mínimo uns 15 minutos de seu sono reparador para avaliar as consequências que esses 15 minutos de sono reparador perdidos poderiam trazer à missão de, digamos, manter vigilante o atalaia de sua virilidade. A julgar pela manchete, a conclusão seria batata: 15 minutos aqui, 15 minutos ali, e logo vamos estar lendo com redobrada atenção anúncios de próteses, chás miraculosos, emplastros e aditivos químicos que nos garantam pelo menos 15 minutos de fugaz notoriedade.
Mas não é bem assim, como depreendemos da leitura atenta: o estudo concluiu que a principal causa do sono segmentado é a apneia – suspensão momentânea da respiração – e que essa interrupção respiratória pode causar danos ao sistema vascular, tornando mais difícil manter a ereção. Ou seja, não é o dormir mal, mas a apneia que pode levar à impotência.
Mas à imprensa interessa esse ínfimo detalhe?
Os leitores - ora, os leitores - que se entendam com suas azias e insônias!
Mudando de assunto: meus poucos mas fiéis leitores devem lembrar-se de uma postagem antiga deste blog, sobre um bebê que foi geneticamente programado na Espanha para servir de doador a seu irmão e salvá-lo de uma doença congênita (Admirável Mundo Novo, em 20 de outubro de 2008).
Pois bem: assisti neste final de semana a um filme que aborda o “outro lado” da questão: a menina de 11 anos que foi gerada para salvar a irmã e luta na Justiça para ter direitos sobre o próprio corpo, desobrigando-se de ser doadora de um rim à irmã mais velha, leucêmica e prestes a morrer.
My sister’s keeper (Uma prova de amor, em português, com Cameron Diaz e Joan Cusak, entre outros) é um daqueles filmes que faz chorar – mesmo aos menos sensíveis – mas creio que o atrativo maior é abrir essa discussão: para salvar uma vida, você tem direito de acabar, ainda que em termos, com outra?
Recomendo, se me permitem.
Seria cômico se não fosse trágico... e necessário.
A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro anunciou que está preparando planos de emergência para colocar em prática durante as cada vez mais comuns trocas de tiros entre bandidos de facções rivais e/ou policiais, de modo a preservar a segurança dos alunos que frequentam suas mais de mil unidades. Há pelo menos duzentas escolas municipais em áreas de risco, segundo levantamento da secretaria.
O treinamento pretende aproveitar o gancho da hora – os tiroteios e as balas perdidas – para formar grupos de funcionários e professores treinados para atuar também em outras situações de emergência, como acidentes e incêndios. A função desses grupos seria controlar psicologicamente as crianças durante as situações críticas, para evitar pânico e exposição maior ao perigo. É, creio eu, apenas uma questão de adaptação às cicunstâncias e necessidades.
Mais ou menos como acontece nos países em guerra ou submetidos a instabilidades naturais. No Japão, por exemplo, fazem parte do currículo escolar os ensinamentos de como comportar-se durante a ocorrência de um terremoto. Além disso, kits de sobrevivência, em caso de tremores mais graves, são vendidos em supermercados: capacete, porções de comida desidratada, lanterna e um apito, entre outras coisas, compõem o nécessaire para as situações de emergência. Os sismos, no Japão, ocorrem com mais frequência do que pode supor a vã filosofia de meus seletos – e diletos – leitores. E, é claro, não há previsão de que terminem.
Como no Rio acredito que também não haja previsão de término para as escaramuças, acho que o pessoal da educação poderia ampliar seu treinamento: não apenas preparar professores e funcionários, mas ensinar os próprios alunos a se comportar durante os às vezes intermináveis entreveros. Mesmo porque, com o projeto original, as crianças estariam protegidas apenas em ambiente escolar, onde passam no máximo um terço do dia. E fora da escola, como salvaguardar-se?
Minha sugestão é que as noções de conduta segura em situação de guerra devam ser passadas aos próprios alunos, separando-as em procedimentos a serem empregados no período escolar, no recesso do lar ou – o que talvez seja mais comum e portanto mais carente de preparo – na rua. Paralelamente, seria vendido no comércio popular, a preço logicamente subsidiado, um kit de sobrevivência, composto de capacete, colete à prova de balas, óculos de segurança (para proteger-se dos estilhaços) e estojinho de primeiros socorros, para ferimentos superficiais. Já que estamos em estado de guerra, temos de nos comportar como em estado de guerra. E, já que é para fazer, melhor fazer bem feito.
Para evitar balas perdidas, há a sugestão do colunista José Simão de se utilizar o sistema GPS, mas não creio que isso dê certo a curto prazo.
Creio que desde as assembléias metalúrgicas realizadas no estádio de Vila Euclides no final dos anos 70 São Bernardo do Campo não testemunhava uma concentração tão grande de pessoas num acontecimento em que houvesse uma motivação central. É claro que os trabalhadores, naquela época, lidavam com um assunto muito mais transcendental e histórico – o ressurgimento do sindicalismo de resultados e a inoculação do novo trabalhismo – mas naquele e neste evento que estou relatando agora não deixou de existir um foco central e um interesse coletivo. E é claro também que o carisma do então líder sindical Luís Inácio da Silva era incomparavelmente maior e com mais poder de aglutinação do que o de um simples microvestido cor-de-rosa, mas ambos foram inegavelmente capazes de arrastar multidões.
Para os que ainda não estão entendendo absolutamente nada do que estou dizendo – embora o assunto tenha sido destaque em várias abordagens – um pequeno resumo: na sexta-feira da semana passada, uma estudante do curso de Turismo do campus de São Bernardo da Universidade Bandeirante (Uniban) cometeu a ousadia de ir à aula vestindo uma roupitcha que deixava mais de um palmo de suas exuberantes e roliças coxas expostas à visitação pública e, por isso, provocou quase uma versão tupiniquim das jihad islâmicas.
A moça, de 20 anos, foi perseguida por quase 700 estudantes, confinada numa sala para evitar que se concretizassem ameaças de estupro e de outras violências menores, fotografada em vários e invasivos ângulos, execrada e obrigada a cercar-se da escolta de cinco policiais militares para – com o jaleco de um professor minimizando a exposição de seu corpo – deixar o recinto escolar aos gritos, uníssonos e articulados, de pu-ta!, pu-ta!, pu-ta!
Mais do que discutir a adequação de se usar em ambiente acadêmico um palmo a menos de tecido ou um palmo a mais de coxa à mostra, é imprescindível destacar a inadequação da histeria, da selvageria e da fúria coletivas provocadas por um acontecimento que, teoricamente, deveria passar despercebido em ambientes onde, de novo teoricamente, deveriam prevalecer as mentes ditas iluminadas.
A estudante disse ter viajado incólume de ônibus para chegar à universidade. Ou seja: as pessoas “comuns”, os trabalhadores, as donas de casa, o “povão”, não se incomodaram com a visão de suas carnudas pernas; por que as mentes teoricamente “iluminadas” comportaram-se como torcidas organizadas e partiram para o confronto contra uma adversária que até podia torcer para o mesmo time, mas vestia uma odiosa saia curta?
Recalques, frustrações, desemprego, baixa autoestima... Ouvi de uma psicóloga que o microvestido da estudante foi apenas a válvula de escape da multidão histérica para descarregar sabe-se lá o quê. Válvula de escape ou não, porém, isso tudo – esse precedente – é muito perigoso: justiçamentos, apedrejamentos ou linchamentos (físicos ou morais) não podem ser aceitos como resposta, nem mesmo sob condições de fanatismo religioso, para questões que de uma forma ou de outra fujam de nossos padrões.Pior ainda se isso acontece numa universidade.