Seria cômico se não fosse trágico... e necessário.
A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro anunciou que está preparando planos de emergência para colocar em prática durante as cada vez mais comuns trocas de tiros entre bandidos de facções rivais e/ou policiais, de modo a preservar a segurança dos alunos que frequentam suas mais de mil unidades. Há pelo menos duzentas escolas municipais em áreas de risco, segundo levantamento da secretaria.
O treinamento pretende aproveitar o gancho da hora – os tiroteios e as balas perdidas – para formar grupos de funcionários e professores treinados para atuar também em outras situações de emergência, como acidentes e incêndios. A função desses grupos seria controlar psicologicamente as crianças durante as situações críticas, para evitar pânico e exposição maior ao perigo. É, creio eu, apenas uma questão de adaptação às cicunstâncias e necessidades.
Mais ou menos como acontece nos países em guerra ou submetidos a instabilidades naturais. No Japão, por exemplo, fazem parte do currículo escolar os ensinamentos de como comportar-se durante a ocorrência de um terremoto. Além disso, kits de sobrevivência, em caso de tremores mais graves, são vendidos em supermercados: capacete, porções de comida desidratada, lanterna e um apito, entre outras coisas, compõem o nécessaire para as situações de emergência. Os sismos, no Japão, ocorrem com mais frequência do que pode supor a vã filosofia de meus seletos – e diletos – leitores. E, é claro, não há previsão de que terminem.
Como no Rio acredito que também não haja previsão de término para as escaramuças, acho que o pessoal da educação poderia ampliar seu treinamento: não apenas preparar professores e funcionários, mas ensinar os próprios alunos a se comportar durante os às vezes intermináveis entreveros. Mesmo porque, com o projeto original, as crianças estariam protegidas apenas em ambiente escolar, onde passam no máximo um terço do dia. E fora da escola, como salvaguardar-se?
Minha sugestão é que as noções de conduta segura em situação de guerra devam ser passadas aos próprios alunos, separando-as em procedimentos a serem empregados no período escolar, no recesso do lar ou – o que talvez seja mais comum e portanto mais carente de preparo – na rua. Paralelamente, seria vendido no comércio popular, a preço logicamente subsidiado, um kit de sobrevivência, composto de capacete, colete à prova de balas, óculos de segurança (para proteger-se dos estilhaços) e estojinho de primeiros socorros, para ferimentos superficiais. Já que estamos em estado de guerra, temos de nos comportar como em estado de guerra. E, já que é para fazer, melhor fazer bem feito.
Para evitar balas perdidas, há a sugestão do colunista José Simão de se utilizar o sistema GPS, mas não creio que isso dê certo a curto prazo.
Creio que desde as assembléias metalúrgicas realizadas no estádio de Vila Euclides no final dos anos 70 São Bernardo do Campo não testemunhava uma concentração tão grande de pessoas num acontecimento em que houvesse uma motivação central. É claro que os trabalhadores, naquela época, lidavam com um assunto muito mais transcendental e histórico – o ressurgimento do sindicalismo de resultados e a inoculação do novo trabalhismo – mas naquele e neste evento que estou relatando agora não deixou de existir um foco central e um interesse coletivo. E é claro também que o carisma do então líder sindical Luís Inácio da Silva era incomparavelmente maior e com mais poder de aglutinação do que o de um simples microvestido cor-de-rosa, mas ambos foram inegavelmente capazes de arrastar multidões.
Para os que ainda não estão entendendo absolutamente nada do que estou dizendo – embora o assunto tenha sido destaque em várias abordagens – um pequeno resumo: na sexta-feira da semana passada, uma estudante do curso de Turismo do campus de São Bernardo da Universidade Bandeirante (Uniban) cometeu a ousadia de ir à aula vestindo uma roupitcha que deixava mais de um palmo de suas exuberantes e roliças coxas expostas à visitação pública e, por isso, provocou quase uma versão tupiniquim das jihad islâmicas.
A moça, de 20 anos, foi perseguida por quase 700 estudantes, confinada numa sala para evitar que se concretizassem ameaças de estupro e de outras violências menores, fotografada em vários e invasivos ângulos, execrada e obrigada a cercar-se da escolta de cinco policiais militares para – com o jaleco de um professor minimizando a exposição de seu corpo – deixar o recinto escolar aos gritos, uníssonos e articulados, de pu-ta!, pu-ta!, pu-ta!
Mais do que discutir a adequação de se usar em ambiente acadêmico um palmo a menos de tecido ou um palmo a mais de coxa à mostra, é imprescindível destacar a inadequação da histeria, da selvageria e da fúria coletivas provocadas por um acontecimento que, teoricamente, deveria passar despercebido em ambientes onde, de novo teoricamente, deveriam prevalecer as mentes ditas iluminadas.
A estudante disse ter viajado incólume de ônibus para chegar à universidade. Ou seja: as pessoas “comuns”, os trabalhadores, as donas de casa, o “povão”, não se incomodaram com a visão de suas carnudas pernas; por que as mentes teoricamente “iluminadas” comportaram-se como torcidas organizadas e partiram para o confronto contra uma adversária que até podia torcer para o mesmo time, mas vestia uma odiosa saia curta?
Recalques, frustrações, desemprego, baixa autoestima... Ouvi de uma psicóloga que o microvestido da estudante foi apenas a válvula de escape da multidão histérica para descarregar sabe-se lá o quê. Válvula de escape ou não, porém, isso tudo – esse precedente – é muito perigoso: justiçamentos, apedrejamentos ou linchamentos (físicos ou morais) não podem ser aceitos como resposta, nem mesmo sob condições de fanatismo religioso, para questões que de uma forma ou de outra fujam de nossos padrões.Pior ainda se isso acontece numa universidade.
Sexta-feira à noite fui levar minha assistente social predileta para medir a pressão na policlínica municipal, aqui em Florianópolis, e, enquanto esperava a patroa ser atendida, fiquei observando o movimento e as vicissitudes humanas do lado de fora.
Uma de minhas primeiras observações foi que o estacionamento estava concorrido, mas não lotado. Portanto, havia lugar para todos. E, portanto, era inexplicável que alguém dispensasse uma vaga e fosse estacionar na frente de um portão onde havia uma placa com uma letra "E" preta, cruzada por uma faixa vermelha, cujo significado até crianças da pré-escola sabem.
Pois alguém o fez.
Depois de parar, trancar o carro e acionar o alarma, com ar de quem tinha cumprido seu dever, o motorista foi interpelado por uma funcionária da faxina: “Moço, naquela garagem ficam as ambulâncias. O senhor não pode parar o carro ali, porque atrapalha a saída das ambulâncias.” Enquanto o indigitado cidadão voltava, cheio de dedos e salamaleques, para corrigir seu erro, a mulher comentava com suas vassouras: “Tem gente que não tem noção, mesmo!”
Pois eu acho que ela acertou no esfregão: o que poderia ser além de falta de noção? É claro que o indivíduo não parou na frente do portão pelo simples prazer de transgredir, ou pelo ignóbil poder de impedir que uma ambulância pudesse sair e socorrer algum necessitado. Mas porque faz parte da natureza humana. Sem qualquer dolo, sem má-fé, faz parte da natureza humana atrapalhar os outros. Não ganham nada com isso, desculpam-se sinceramente depois de constatado o embaraço, mas não deixam de fazer. Porque, como naquela anedota do escorpião que aferroa o sapo que o ajudava a atravessar o rio, faz parte de sua natureza.
Quando eu ainda era vítima do transporte coletivo, sofria praticamente todos os dias com esse desvio de comportamento: corria para pegar melhor lugar na fila dentro do terminal de ônibus, mas quase sempre esbarrava em alguém que parava na minha frente, bem na boca da catraca, para abrir a bolsa e procurar o cartão magnético que lhe garantiria o acesso. Podia fazer duas horas antes, ou dois minutos antes, mas bloqueava a passagem de todo mundo e deixava para procurar o cartão na frente de umas quinze ou vinte pessoas que vinham atrás, cheias de pressa como eu.
É claro que não fazia isso de sacanagem. É claro que também não age com intenção escusa uma pessoa que entra ou sai de uma repartição pública movimentadíssima e para na porta – ou para olhar o movimento lá dentro, ou para ver se está chovendo lá fora – e bloqueia por largos instantes o tráfego de outros cinco ou seis que vêm atrás dela. Ou que vai preencher um formulário num balcão e escolhe justamente aquele segmento basculante, por onde entram ou saem os funcionários, para esparramar a papelada.
É só prestar atenção: sempre vai ter alguém, na nossa frente e na maior das inocências, fazendo alguma coisa que vai quebrar o ritmo do que nós estivermos fazendo, e nos atrapalhar, ainda que por alguns poucos instantes.Confesso que criei essa teoria de que atrapalhar os outros faz parte da natureza humana não faz muito tempo. Confesso também que, embora pareça coisa de quem não tem muito o que fazer, foi a melhor maneira que encontrei para me irritar menos com esse poder de embaçar os outros que a humanidade em geral tem.
Para vocês verem como são as coisas...
Até não muito tempo atrás, um caso de traição conjugal - principalmente se a perfídia era cometida pela mulher - podia terminar em tragédia. O marido traído, não raras vezes, punha fim à dor de corno de maneira radical: metia dois ou três balaços na esposa infiel, procurando acertar pelo menos um dos tiros no coração da ingrata, de modo a resgatar a dignidade de macho ferido. Não raras vezes, também, acabava inocentado diante do júri, em nome de uma tal de “legítima defesa da honra”, ou por ter cometido o desatino “sob violenta emoção”.
Mas os tempos são outros, felizmente: hoje, com a evolução da espécie, o marido pode descartar a possibilidade de lavar sua honra com sangue e recorrer à justiça para ser indenizado moralmente por terem implantado – sem sua autorização, é claro – um par de guampas em sua testa até então incólume. Alegando calúnia e ofensa à honra, ele pode receber uma compensação daquele que ousou macular sua até então intocada paz matrimonial. E tudo pode terminar bem...
... ou não. É certo que nos livramos das dantescas cenas sangrentas, mas o marido traído corre o risco de ver sua condição de corno, informação até então restrita a um pequeno grupo social, alçar as páginas dos jornais e torná-lo conhecido nacionalmente – ou mundialmente, se levarmos em conta que internet não tem fronteiras. E, o que é pior, ficar conhecido nessas circunstâncias não apenas como corno, mas como “solene corno”.
Acho que vocês já leram isso em algum lugar – afinal, meus poucos mas ilustrados leitores não perdem nada do que se passa na aldeia global – mas não custa repetir: aconteceu no Rio de Janeiro, e a sentença, emitida por juiz leigo e homologada por juiz togado, manda arquivar processo em que um policial federal traído quer ser ressarcido por um professor de educação física que andou conspurcando seu leito conjugal (ou, numa linguagem mais técnica, "andou colhendo uma couves na sua horta"). Pior que o simples arquivamento, porém, foi a sentença que embasou a decisão, e que ganhou o mundo via internet:
"Um dia o marido relapso descobre que outro teve a sua mulher e quer matá-lo – ou seja, aquele que tirou sua dignidade de marido, de posseiro e o transformou num solene corno quer 'lavar a honra' num duelo de socos e agressões, isso nos séculos passados, porém, hoje acabam buscando o Poder Judiciário para resolver suas falhas e frustrações pessoais", diz trecho da sentença do juiz Luiz Henrique Fonseca Zaidan, do 1º Juizado Especial Cível do Tribunal de Justiça do Rio.
Na sentença, ele destaca que, apesar de no Brasil persistir a cultura de que só o homem pode trair, hoje não existem mais mulheres “submissas” e “santas” e que a insatisfação no casamento pode levá-las à busca de aventuras, uma compensação para a atenção que não lhes é dada em casa:
"As mulheres se apaixonam e, principalmente, sentem o 'doce sabor da vingança' – meu marido não me quer, não me deseja, me acha uma 'baranga' – (azar dele!) mas o meu amante me olha com desejo, me quer – eu sou um bom violino, há que se ter um bom músico para me fazer mostrar toda a música que sou capaz de oferecer!!!!", completa o juiz, legando ao “solene corno”, além de tudo, o rótulo de marido indigno da mulher que tem.
Sei não. Posso estar sofrendo da má influência dos tempos em que era repórter policial – não quero, porém, defender o antigo método de lavagem de honra – mas vocês acham que, depois desse exemplo aí de cima, a opção de curar a dor de corno pela via judicial seria a mais recomendável?