Medo de avião?
Quando alguém confessa medo de voar, de morrer num acidente aéreo, vem logo alguém acenando com estatísticas que garantem que é muito mais fácil morrer num acidente terrestre do que na queda de um airbus. É muito mais fácil ser atropelado na esquina de casa do que figurar na lista dos desaparecidos de um jumbo que despencou no mar ou de um fokker que sumiu na amazônia.
Verdade! Os números são incontestáveis!
Para garantir, eu ainda apliquei alguns exageros em cima deles – não por medo de avião, quero deixar claro – quando fiz a longa viagem ao Japão, em 1996: se as estatísticas provam que é raro morrer num acidente aéreo, mais difícil ainda é isso acontecer com um pobre, como eu (isso antes da época em que os aeroportos passaram a competir em igualdade de condições com as rodoviárias). E mais: para um pobre, como eu, seria praticamente impossível morrer num voo intercontinental, como aquele Brasil-Japão!
Estatisticamente, pois, eu estava garantido!
Agora, para minha tranquilidade, as estatísticas voltaram a me sorrir: segundo cientistas da Universidade de Melbourne, na Austrália, o risco de morrer de câncer de próstata é quase duas vezes maior em homens com sobrepeso de mais de vinte quilos!
Como meu problema crônico é de subpeso, tenho cinquenta por cento mais de chances de sobreviver a esse tipo de letalidade. E trato de garantir mais uns trinta por cento fazendo exames regularmente.
Portanto, eu, que já escapei de morrer por acidente aéreo, agora estou mais distante de ser derrubado por um câncer de próstata.
Só preciso, então, tomar cuidado para não ser atropelado na esquina de casa!
Ao descobrir e mapear os grupos sanguíneos no início do século passado, o cientista austríaco Karl Landsteiner não imaginaria que, 110 anos depois, fosse colocar em enrascada uma certa senhora taiwanesa que, alguns anos atrás, tinha ensaiado uns, digamos, passos em falso.
Explicando: numa aula de biologia, um estudante taiwanês, filho da senhora citada há pouco, descobriu – confrontando os parâmetros do prêmio Nobel Landstein, com suas proteínas, glóbulos e antígenos – que não poderia ser filho do pai que até então se apresentava como tal, já que o cruzamento dos grupos sanguíneos paterno e materno não resultaria no seu próprio (do estudante) grupo sanguíneo. Sendo mais específico: o pai era A, a mãe era A, e ele, pela normas hereditárias, não poderia ser B. Simples assim.
Sei que meus sete ou oito leitores são cultos, diplomados e pós-diplomados, cabedais de conhecimentos e tal, mas não poderia exigir deles que se lembrassem disso: para gerar uma criança de sangue tipo B, é necessário o cruzamento de pais O+B, B+B, A+B, O+AB, A+AB, B+AB ou AB+AB. Nos cruzamentos de O+O, O+A e A+A, é impossível gerar um descendente B. E isso antes mesmo de o cientista austríaco ter mapeado a tipagem sanguínea
Pois bem. O estudante levou a dúvida para casa, inoculou-a no “pai” e este resolveu colocá-la em cromossomos limpos: fez exame de DNA e comprovou que o garoto, apesar de ter os olhinhos puxados iguaizinhos aos dele, era filho de um amante que a mulher arrumara logo aos dois anos de casada, aquela pérfida!
Diz a sabedoria popular que pai é quem cria, mas o marido pediu – e obteve – o divórcio. Talvez o primeiro divórcio gerado por incompatibilidade sanguínea.
Não sei se a taiwanesa aprendeu alguma coisa com isso, mas eu aprendi que as mulheres devem ficar espertas, ainda mais agora que foi aberto o precedente: se querem arrumar um amante seguro e evitar sarnas futuras para se coçar, verifiquem antes de qualquer coisa o tipo sanguíneo dele!
Li dia desses nos jornais que o Harry’s Bar, “lugar preferido de Ernest Hemingway” em Paris, completou cem anos e fiquei imaginando se, nos vinte anos em que marquei ponto nos vários bares da vida, teria conseguido emprestar a algum deles qualquer espécie de referência turístico-cultural. “Está vendo aquele boteco pé-sujo ali? Pois é, Marco Zanfra tomava de dez a doze cervejas naquele balcão, todos os dias...”, diria um orgulhoso íncola a um embevecido turista. Por que não?
Certamente esse bar não seria em Paris e certamente não sou Hemingway, mas será que nenhuma lembrança deixarei, depois de vinte anos de frequência diária? Ainda que seja um autor com apenas um livro publicado, não haveria nada que diferenciasse minha presença das centenas de milhares de bêbados que babaram nesses balcões durante esses anos todos?
Pensando bem, acho que não. E começo meu pensamento negativo por um exemplo que morreu como ponto de referência: o bar que mais frequentei na vida, na alameda Barão de Limeira, foi transformado em estacionamento. E seus balcões, o tilintar de copos e o cheiro de gordura das porções de calabresa ficaram apenas na memória – ainda que às vezes numa memória obliterada pelos excessos alcoólicos. O bar que poderia ser apontado como o “Harry’s do Zanfra” não existe mais.
Frequentei esse bar, o Miranda – ou Bar do Mané, Bar do Luiz, Bar do Juvenal ou ainda, oficialmente, Bar e Lanches Para Você – durante os nove anos em que trabalhei na Folha de S. Paulo. Batia o ponto na entrada e na saída, não raras vezes no meio do expediente, e também não raras vezes nos fins de semanas, ou mesmo depois de ter saído do jornal. Era uma referência para mim – e eu lamento não poder ter sido uma referência para eles, como Hemingway o foi para o Harry’s – além de um ponto de encontro. Se havia, pois, um botequim que podia ser associado a mim, era sem dúvida aquele.
Hoje, no entanto, dois ingredientes básicos dessa mistura – o Miranda e meu convívio com a bebida – deixaram de existir. Por isso, não vai ser nada fácil - se isso ainda não feito - associar atualmente minha imagem a bares.
Quem quiser apontar o “lugar preferido de Marco Zanfra”, hoje, vai ter de se contentar em mostrar minha própria cama.
Em tempo: Como não trabalhei apenas na Folha, guardo lembranças boas de outros botecos que frequentei na vida profissional, e seria injusto deixar de referir-me a eles. No tempo do Jornal dos Concursos, frequentava a Toca do Coelho; no Diário Popular, o ponto era no Mutamba; no Cidades, de Ribeirão Pires, o bar do Toninho era nosso esconderijo (embora desse para enxergar o bar da janela da redação); e, na revista Agora!, o bar do Celestino. Em todos eles, vale lembrar, com crédito ilimitado.
O bar do Celestino, aliás, merece um verbete à parte: as reuniões de pauta da revista eram feitas às terças-feiras, às duas da tarde; depois da reunião, o reportariado todo debandava para o bar, e ninguém trabalhava. Tentando conter esse êxodo improdutivo, o diretor de redação, Mário Chimanovitch, mudou a reunião para às segundas-feiras, às 9 da manhã. Mas só conseguiu mesmo, como era de se esperar, antecipar nossa ida ao bar do Celestino...
Foi só ler a notícia de que a população do planeta atingiu sete bilhões de pessoas para notar que o trânsito em Florianópolis piorou.
Nesta sexta-feira, saí de casa às 6h30 para levar a patroa à rodoviária e só chegamos ao destino às 7h25, dez minutos depois de o ônibus ter saído. Em que cidade do país, não sendo São Paulo, você leva 55 minutos para percorrer vinte quilômetros?
É certo que algumas obras – justamente para “melhorar o fluxo” de veículos – acabaram atravancando ainda mais o trânsito, mas é óbvio que o fator “sete bilhões de habitantes” contribuiu psicologicamente para o caos. Funciona mais ou menos como o fator chuva: basta ameaçar cair alguns pingos que o número de veículos em circulação aumenta. Existe até a comparação dos carros de Florianópolis com os Gremlins: bastou molhar que eles se multiplicam.
O engraçado é que apenas no trânsito se sente o efeito dos sete bilhões de habitantes. Nesta mesma sexta-feira de manhã, percorri o centro da cidade durante cerca de duas horas e não percebi maiores consequências da superpopulação: os corredores das lojas estavam transitáveis, as filas nos pontos de ônibus não chegavam a dobrar a esquina, não faltou pão nas padarias, o atendimento nas emergências médicas continuava demorando no máximo três semanas...
Ou seja: ou somente o trânsito reflete as sequelas do aumento populacional, ou eu senti os efeitos com mais intensidade porque estava ali dentro, parado, engrenando e desengrenando a marcha, de meio metro em meio metro, durante longos 55 minutos. É muito mais provável que esta segunda opção seja a verdadeira, mas, enfim, eu preciso de algo a que me apegar, e é mais fácil culpar os outros 6.999.999.999.999 habitantes do que a nós mesmos.
Florianópolis deve ganhar em breve sua quarta ponte – que na prática deve ser a terceira, já que a Hercílio Luz não se dá ao desfrute – e eu não consigo entender como isso pode resolver os problemas do trânsito.
De que adianta aumentar a vazão para dentro e para fora da ilha se, na ilha propriamente dita, vamos continuar com a mesma capacidade de tráfego? Não há como criar mais vias de trânsito. Nem todas as tubulações do mundo vão evitar a enchente se o escoadouro é um só.
Pode parecer meio utópico – quem quer abrir mão, a curto prazo, do conforto de seu carro? – mas só vamos encontrar uma saída com o incremento do transporte coletivo. E não me refiro apenas à rede de ônibus hoje em operação, mas a opções várias, que incluem até o transporte marítimo.
Afinal, isto aqui é ou não é uma ilha?