segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Tem sede de cultura? Beba!

No final da década de 70, tínhamos sede de cultura. Por isso, bebíamos.
Quantas revoluções culturais não começamos em mesas de bares, para confrontar a onda das discotecas e a invasão da música estrangeira? Quantas peças de resistência da MPB não entoamos no meio da madrugada, bêbados e desafinados, para a fúria ruidosa de uma platéia alienada e vendida aos embalos dançantes?
Éramos jovens e idealistas. Chegamos a montar barricadas para defender nossas raízes. A primeira foi o Núcleo de Resistência Cultural Paulo Pontes. Em seguida, veio o Grupo Libertando a Terra, que, a despeito do nome, não andou pegando em armas. Éramos unidos em torno do ideal de libertar a juventude de Pirituba dos grilhões da música alienígena. A bandeira brasileira estava hasteada no centro da mesa.
Hoje, reconheço que, mais do que resgatar a cultura popular brasileira, o que me movia era a vontade de estar bebendo no bar. Minha grande motivação era a bebida. Organizaria um grupo de apoio ao binômio de Newton se as reuniões fossem regadas a cerveja.
Devo admitir que a defesa da música brasileira era uma excelente desculpa para encher a cara, porque, mesmo falando engrolado e arrastando as sílabas a partir de certa hora, a gente tinha um estandarte a manter tremulando. O objetivo era digno, e não importava se chegássemos a ele de quatro. Os intelectuais não iam à praia; bebiam. Mas bebiam por uma causa justa.
Mas nossas ações não se limitavam a erguer brindes a Geraldo Vandré: o Grupo Libertando a Terra chegou a semear a idéia de um festival de música popular brasileira em Pirituba, tendo como palco o anfiteatro do Parque do Jaraguá, mas esbarrou numa constatação tão dolorida quanto óbvia: como financiar? Se os pobres intelectuais mal tinham dinheiro para custear o combustível das reuniões, como bancar um evento da amplitude de um festival de música?
Por uma questão meramente logística, portanto, o 1º MPB de Pirituba foi abortado. E, com ele, foi tremulando menos nosso estandarte. Enquanto durou, pichamos paredes, alguns romances rolaram, fizemos muito barulho. Mas as trincheiras de defesa cultural foram esvaziando enquanto percebíamos que era possível beber por qualquer outro motivo, mesmo que não fosse pela defesa de um ideal. Afinal, a bebida era um incentivo que bastava por si só.

Demorei quase 20 anos para me livrar desse incentivo. Principalmente por esse motivo, não me sentaria novamente na mesa de um bar para redigir libelos contra a massificação da cultura importada. Falta-me motivação, se me entendem.
Além disso, só mesmo estando bêbado para remar contra a maré da globalização.

2 comentários:

Ana disse...

Oi Zanfra, passando por aqui para conhecer seu blog e deixar meu alo.
Gostei muito e voltarei mais vezes.
Um abraço

Marco Antonio Zanfra disse...

A revolução ia começar por Pirituba, e eu não sabia, hein, Zanfra? Achei que começaria com os punks da Fereguesia do Ó...

as. José Luiz Teixeira, blog EscutaZé