segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Quem quer ser jornalista?


Salários baixos, atividade estressante, mercado de trabalho cada vez mais esquálido. Com todos esses “atrativos”, não consigo entender por que o curso de Jornalismo continua atraindo tantos candidatos nos vestibulares. A Fuvest deste ano já confirmou o riscado: Jornalismo, o primeiríssimo no ranking, tem 41,63 candidatos por vaga – 7,64 a mais do que o antigamente queridinho curso de Medicina, que hoje amarga o quinto lugar em grau de preferência e é seguido nos calcanhares por nada menos que bacharelado em Artes Cênicas (32,27 por vaga).
Foi-se o tempo em que era sinal de status ter um doutor na família, fosse médico ou advogado. Aliás, quem quer ser advogado hoje em dia? Pouca gente: menos da metade dos que querem ser jornalistas – o ranking da Fuvest aponta 19,83 candidatos por vaga, pouco mais do que o índice de procura pelo curso de Educação Física. O must de hoje e de um passado não tão recente assim é ter na família um comunicólogo.
A preferência pelos cursos de Comunicação não é um fenômeno novo. O espantoso e inexplicável é que o calor pela procura por Jornalismo e Publicidade não arrefeceu rapidamente, como esperavam os que achavam – assim como eu – que a febre era passageira, um modismo curável à base de novas tendências. Jornalismo e Publicidade vêm há muito dividindo os primeiros lugares, numa saudável disputa que se renova a cada ano (na Fuvest deste ano, Publicidade e Propaganda têm a segunda maior procura, com 41,02 candidatos por vaga).
Mas, apesar de representar quase uma hegemonia, ainda não consigo entender: por quê? Se o mercado de trabalho se ressente da falta de mão-de-obra qualificada para muitas e muitas vagas que estão aí, disponíveis, por que é que mais e mais jovens procuram uma carreira com cada vez menos disponibilidade de vagas e cada vez mais mão-de-obra qualificada? Glamour? O charme de ser jornalista? A chance de trabalhar na Globo e ser colega da Glória Maria e do Bial?
Confesso que já achei dizer “sou jornalista” mais glamouroso do que acho hoje. Não que, depois de 30 anos de carreira, eu tenha perdido minha identidade ou descoberto que minha vocação era outra. É que, justamente por essa procura toda, a profissão está perdendo aquele diferencial da vocação, do sacerdócio. Os vocacionados estão ficando velhos, e, com o aumento deslavado da oferta, fica cada vez mais difícil descobrir quem os substitua – mesmo porque quem poderia descobrir os novos talentos também está ficando velho.
Não quero parecer saudosista ou tentar desenhar um futuro sombrio, mas parece que o destino do Jornalismo é esse mesmo: rostos bonitos e comportamento pasteurizado, bem do jeito que essas novas gerações estão emplacando os vestibulares. Vocação? Aparecer bem no vídeo, não gaguejar e, se possível, sorrir com todos os dentes.

4 comentários:

Betinho Hirtz disse...

Concordo plenamento com o pensamento do colega. Nós, das antigas, somos espécie em extinção.

Anônimo disse...

O jornalista não é eterno. Vão-se os "das antigas", vêm os novos. Chama-se a isso ciclo da vida. E outra coisa: se a profissão é assim tão maldita, por que vocês estão nela há tanto tempo?

João Pedro

Betinho Hirtz disse...

Ciclo da vida, caro João Pedro, tem de ser renovado e é isto que não está acontecendo.
Hoje temos copiadores de notícias, quando os da antigas investigavam os fatos e não se abstiam de transmitir a população somente uma versão.
A profissão de médico, carpinteiro e outras, também são desgastantes, porém jornalismo como tantas profissões que poderia citar, está no sangue. Isto se chama vocação, o que não impede de nos pronunciar.
Abraço e saiba que "Jamais concordarei com o que dizes, mas lutarei até a morte para tenhas o direito de dizê-las".

Bonassoli disse...

Ser médico talvez tenha perdido o glamour. E outra, com tanta reportagem de televisão - pois a maior parte dos vestibulandos NÃO lê jornal - mostrando o caos no sistema de saúde, dá medo querer ser médico.

Sobre a publicidade, por outro lado, mais e mais as TVs mostram matérias sobre como este mercado "dá" grana. Agora, jornalismo, realmente é questionável. Talvez, para o povão, a crise do "mercado" de jornalismo não esteja bem clara.

E, respondendo ao João Pedro, a gente não larga porquê esta profissão, por pior do que seja, e ela é malvada mesmo, é uma cachaça. Viciou fica complicado de abandonar.