segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Evoé, Momo!


Sei que, com um índice de massa corporal variando em torno de 19 quilos por metro quadrado, sou suspeito para defender a causa. Mas quero deixar aqui registrado meu protesto contra a decisão da Justiça baiana de, por respeito a uma certa tradição, anular o concurso que elegeu um Rei Momo de 58 quilos para o Carnaval de Salvador. Minha solidariedade ao comerciante Clarindo Silva não se sustenta apenas no fato de pertencermos ambos à invejável categoria dos magros – vá lá, esqueléticos! – mas na premissa de que está justamente em romper com as tradições uma das tradições do Carnaval.
Aliás, é apenas em inexplicável tradição que se baseia a adiposidade momesca. Nos anais da mitologia grega, Momo – filho do Sono e da Noite – era citado apenas como o rei da zombaria, do sarcasmo, da galhofa, do delírio, da irreverência e do achincalhe. Em nenhuma passagem é dito que ficava reservada a indivíduos com mais de 150 quilos essa capacidade zombeteira, esse viés brincalhão.
É certo que o primeiro Rei Momo de carne e osso do Carnaval carioca tinha muito mais carne – e banha – do que osso, mas é certo também que o próprio Rio de Janeiro elegeu um Momo magro em 2004, depois que o critério da arrobação foi eclipsado.
Creio que um candidato a Rei Momo deva ter simpatia, elegância, alegria, desenvoltura e samba no pé. Não basta o perfil montanhesco. Já cobri eleição de Momo em que o vencedor pesava uma tonelada, mas perdia para uma salada de rabanetes se fosse avaliada sua capacidade de cativar a platéia. E uma boneca Lu Patinadora sambava melhor.
Se é para aferrar-se ao testemunho histórico, vejamos o outro lado: na Roma Antiga, o eleito para reinar no Carnaval era sacrificado no altar de Saturno ao final dos três dias em que comia, bebia e se divertia sem restrições. Nada mais justo, portanto, que a tradição aí também seja respeitada. Alguém se habilita?

8 comentários:

Bonassoli disse...

Em tempos de tanta preocupação com a saúde das pessoas é complicada esta decisão da Justiça.

E tu? vais te candidatar ao posto no próximo Carnaval?

:)

Fabiano Marques disse...

Acho que o momo magro deveria fazer greve de fome para protestar. Eu chamaria também os lutadores de sumô que forem magrinhos para a empreitada.
hehehehe

Keila disse...

Segundo a decisão da juíza, publicada no site do Tribunal de Justiça da Bahia, "a tradição popular deve ser mantida e a escolha de um Rei Momo magro só fortalece o estereótipo estético da magreza predominante na sociedade".
Vale lembrar que a liminar expedida pela Justiça da Bahia destituindo o comerciante Clarindo da Silva do cargo de Rei Momo de Salvador foi cassada ontem. A decisão foi do desembargador Paulo Furtado, do Tribunal de Justiça da Bahia, atendendo recurso da Federação das Entidades Carnavalescas da cidade.
E pior, parece que a Associação dos gordos e obesos de Salvador (Asgobs)promete recorrer da decisão, afirmando que essa escolha quebra uma tradição e foi discriminatória.

Anônimo disse...

André Campos

Bom, acho que no próximo carnaval, vou me candidatar...
Tenho alguns requisitos para concorrer conforme você citou no texto:
sou montanhesco(hehehe..mas não peso uma tonelada não!),sou simpático, alegre, elegante, agora, so noa sei se tenho samba no pé, mas qualquer coisa, peço uma ajuda...
Afinal, quem não vai querer ajudar um candidato a Momo? Heeheh

Ass..
Andrezinho...

Anônimo disse...

Zanfra,

Digamos que o Carnaval não seja dos eventos mais admiráveis para mim... Mas, em que pese meu pouco caso com essa festividade, acho detestável qualquer tipo de discriminação... Então, que sejam gordos os Momos que assim queiram e se candidatem ao posto; mas que não se proíbam os magros de personificarem o célebre Rei do mundo carnavalesco ... Agora, decisão judicial para anular um concurso desses por causa do peso do vencedor?? Fala sério!!
Maria Augusta Probst

Fabiano Marques disse...

Fala sério! Fala Zanfra! hahahaah

Anônimo disse...

Entao, vai me dizer que essa seria a primeira "tradicao" quebrada desde os primordios do evento no Brasil... Estou meio macunaimistica hoje, com preguica de pesquisar, mas sei que o que originou a celebracao do Carnaval era um tal de Entrudo, de raizes portuguesas, e que aqui era caracterizado pela guerrinha de limoes de cheiro ou qualquer meio de se atirar liquidos uns aos outros. E por ai vai - ou foi - se modificando ate o ponto em que estamos. E sendo uma manifestacao popular (com toda uma estrutura economica por tras) e natural que mude, se ajuste, se adapte etc, etc..
Dona Juiza: nao se pode barrar evolucao por ordem judicial..!!

Beijao, primo!

Marco Antonio Zanfra disse...

Notinha de esclarecimento - Este "anônimo" que assina "beijão, primo!" é na verdade uma "anônonima", que no final das contas não é anônima coisa nenhuma, se me entendem: trata-se de minha prima, Cíntia, que mora em Chicago.