segunda-feira, 28 de abril de 2008

Uma grande piada


Não há comoção social ou desgraça alheia que não se transforme numa grande gozação.
O ser humano – e não apenas o brasileiro – tem a inalienável capacidade de transformar tudo em lorota. Não importa o quão politicamente incorreto seja, ou em quantos constrangimentos seja preciso pisar. Perde-se o amigo, a namorada, a civilidade... mas não se perde a piada.
Nem o holocausto escapou. Chegaria a passar pela cabeça de uma pessoa séria que uma das maiores ignomínias da história da humanidade pudesse terminar em piadinha envolvendo fornos crematórios e cinzeiros de Fusca? E chegaria a passar pela cabeça dessa mesma pessoa séria que, em vez de indignação, essa piadinha provocasse riso?
A bola da vez é o Padre Voador Dois – sim, “Dois”, porque não me consta que Bartolomeu de Gusmão tenha transmitido o título – que ia voar para um lado, voou para o outro, e acabou desaparecendo no litoral de Santa Catarina. Fez que foi, mas não foi, e acabou fondo. Ou fundo. Para o povo, deixou de ter importância a intenção da aventura e a provável dor da perda a partir do momento em que a desastrada viagem do padre Adelir transformou-se em motivo de chacota.
Só eu já recebi três mensagens diferentes sobre onde foram parar as centenas de balões coloridos, recheados de gás hélio, que deveriam levar o padre desde Paranaguá até a divisa do Paraná com o Mato Grosso do Sul: na primeira, ele aparece sobrevoando o grupo de náufragos do seriado “Lost”; na segunda, um vídeo mostra Adelir de Carli pairando sobre referências geográficas diversas, como a Muralha da China, a Estátua da Liberdade e as Pirâmides do Egito; na terceira, uma série de cartazes de filmes – como “E.T.”, “Pearl Harbour”, “Titanic” – e fotos de eventos contam com a participação especial dos balões errantes. Muita criatividade na veia.
Ora, e a provável morte do bem intencionado pároco não chega a provocar vislumbres de pesar? A psicóloga clínica Lílian Schulze acha que é justamente para compensar o impacto da perda que as pessoas fazem graça com a tragédia alheia. Algo como brincar com a própria morte para entender que, embora inevitável, não é preciso encará-la seriamente todos os dias, sob pena de deixar de viver por estar preocupado em morrer. Ou seja, não é propriamente um desrespeito às dores dos outros, mas um simples mecanismo de absorção e compensação...
De qualquer forma, essa morbidez atávica acabou sendo incorporada aos nossos diversos graus de tolerância e é difícil ficar imune à criatividade que contorna os dramas humanos. Quem consegue não rir diante do chiste feito com assunto que, embora sério, não deixa de conter traços de caricatura?
A gente pode até se indignar, e com razão. Mas ninguém deixa de dar pelo menos um leve sorriso.

9 comentários:

betinhohirtz disse...

Concordo plenamente com a opinião do colega.
Ele, o "voador" não concluiu o curso e ainda foi expulso.
Queres mais.......

fábio mello disse...

Acho que o caso do padre trapalhão e teimoso ajuda muito. Tem muitos elementos cômicos nessa tragédia. Até o momento não vi ninguém fazer gracinhas com o que aconteceu com a menina Isabella.

Anônimo disse...

A banalização da violência,as constantes manchetes sobre tragédias humanas e os absurdos que diariamente assistimos através da mídia,podem nos tornar insensíveis aos verdadeiros sentimentos que fazem dos indivíduos verdadeiros "seres humanos", diferentes de fazermos parte de mais uma espécie do reino animal.
Acredito que usar uma tragédia e através dela fazer "gozação" ou piadinhas de mau gosto,só reforça a teoria de que a vida, para alguns, é uma brincadeira.
Enquanto valores como a solidariedade e a união não voltarem a fazer parte do cotidiano das pessoas,infelizmente teremos que conviver com estes "infelizes" que fazem tudo parecer piada.
Rosângela Bittencourt

Fabiano Marques disse...

Francamente, pena tem o galo da galinha. Os parentes do padre estão tristes, etc, etc.
Agora, eles mesmos, os parentes, fizeram parte de um staff imbecíl que só pode ser relacionado a piada.
Deviam sim ser processados juntamente com a parte operacional (bombeiros ou polícia militar) que deram apoio a essa irresponsabilidade.
Uma coisa é um louco dizer que vai pular de um prédio. Outra coisa é esse mesmo louco ser apoiado por pessoas e instituições.
A gente faz piada para criticar a burrice.

Fabiano Marques disse...

Esqueci de dizer. Vou pro meu blog fazer piada do Ronaldo com os travecos cariocas.
abrassss

José Luiz disse...

Zanfra, estou com a psicóloga Lílian: a piada, no fim das contas, é uma defesa nossa contra a morte. Você acreditaria que eu e um amigo tivemos uma crise de riso numa p izzaria após cobrirmos o IML no incêndio do Joelma?

Anônimo disse...

Meu amigo Zanfra,
como sempre conseguindo fazer do limão uma limonada. É totalmente pertinente suas colocações sobre a "comédia da vida". As situações improvisadas que vive o brasileiro é um prato cheio para comentários revestidos de humor. Não bastasse o espaço que o padre conseguiu na mídia, um novo fato que suscita os mais diversos comentários: o do governador do Ceará que alugou um jatinho com dinheiro público e levou a sogra prá passear. Também não dá prá deixar de lado a dança do créu do jogador do Avai, que dançou o créu, mas faltou demonstrar habilidade (morreu na praia).
Um forte braço,
Jacinto.

Anônimo disse...

Zanfra...

Gostamos de fazer piada quando a tragédia acontece com pessoas que não fazem parte da nossa afetividade. A tragédia dos outros vira comédia para nós... Principalmente quando o autor do fato (o Padre)trata sua prórpia vida com tanto desmazelo.
Um bju!

Eliz.

Anônimo disse...

Isso me faz lembrar quando nossas maes e comadres iam a velorios e achavam graca em tudo (principalmente com os comentarios da Tia :) Mas a tragedia tem um que de comicidade; estao tao proximos que ate um termo para liga-los existe: o tragicomico.
Mas o que o Padre queira com essa aventura mesmo?