segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Solene corno

Para vocês verem como são as coisas...
Até não muito tempo atrás, um caso de traição conjugal - principalmente se a perfídia era cometida pela mulher - podia terminar em tragédia. O marido traído, não raras vezes, punha fim à dor de corno de maneira radical: metia dois ou três balaços na esposa infiel, procurando acertar pelo menos um dos tiros no coração da ingrata, de modo a resgatar a dignidade de macho ferido. Não raras vezes, também, acabava inocentado diante do júri, em nome de uma tal de “legítima defesa da honra”, ou por ter cometido o desatino “sob violenta emoção”.
Mas os tempos são outros, felizmente: hoje, com a evolução da espécie, o marido pode descartar a possibilidade de lavar sua honra com sangue e recorrer à justiça para ser indenizado moralmente por terem implantado – sem sua autorização, é claro – um par de guampas em sua testa até então incólume. Alegando calúnia e ofensa à honra, ele pode receber uma compensação daquele que ousou macular sua até então intocada paz matrimonial. E tudo pode terminar bem...
... ou não. É certo que nos livramos das dantescas cenas sangrentas, mas o marido traído corre o risco de ver sua condição de corno, informação até então restrita a um pequeno grupo social, alçar as páginas dos jornais e torná-lo conhecido nacionalmente – ou mundialmente, se levarmos em conta que internet não tem fronteiras. E, o que é pior, ficar conhecido nessas circunstâncias não apenas como corno, mas como “solene corno”.
Acho que vocês já leram isso em algum lugar – afinal, meus poucos mas ilustrados leitores não perdem nada do que se passa na aldeia global – mas não custa repetir: aconteceu no Rio de Janeiro, e a sentença, emitida por juiz leigo e homologada por juiz togado, manda arquivar processo em que um policial federal traído quer ser ressarcido por um professor de educação física que andou conspurcando seu leito conjugal (ou, numa linguagem mais técnica, "andou colhendo uma couves na sua horta"). Pior que o simples arquivamento, porém, foi a sentença que embasou a decisão, e que ganhou o mundo via internet:
"Um dia o marido relapso descobre que outro teve a sua mulher e quer matá-lo – ou seja, aquele que tirou sua dignidade de marido, de posseiro e o transformou num solene corno quer 'lavar a honra' num duelo de socos e agressões, isso nos séculos passados, porém, hoje acabam buscando o Poder Judiciário para resolver suas falhas e frustrações pessoais", diz trecho da sentença do juiz Luiz Henrique Fonseca Zaidan, do 1º Juizado Especial Cível do Tribunal de Justiça do Rio.
Na sentença, ele destaca que, apesar de no Brasil persistir a cultura de que só o homem pode trair, hoje não existem mais mulheres “submissas” e “santas” e que a insatisfação no casamento pode levá-las à busca de aventuras, uma compensação para a atenção que não lhes é dada em casa:
"As mulheres se apaixonam e, principalmente, sentem o 'doce sabor da vingança' – meu marido não me quer, não me deseja, me acha uma 'baranga' – (azar dele!) mas o meu amante me olha com desejo, me quer – eu sou um bom violino, há que se ter um bom músico para me fazer mostrar toda a música que sou capaz de oferecer!!!!", completa o juiz, legando ao “solene corno”, além de tudo, o rótulo de marido indigno da mulher que tem.

Sei não. Posso estar sofrendo da má influência dos tempos em que era repórter policial – não quero, porém, defender o antigo método de lavagem de honra – mas vocês acham que, depois desse exemplo aí de cima, a opção de curar a dor de corno pela via judicial seria a mais recomendável?

31 comentários:

Cintia disse...

"Te perdoo por te trair.."
Ele devia ter incluido a musica do Chico como um reforco literario a sentenca..

Eliz disse...

Oi Zanfra,

Respondendo a sua pergunto em plena era de "Maria da Penha", ainda acho que é melhor tentar uma indenização, o pior que pode ocorrer é ser chamado de "corno solene" enquanto que lavar a honra, o corno poderá ser chamado de "Maria" na prisão.... Rsss

Marco Antonio Zanfra disse...

No meu tempo, Elizângela, quem tinha tendência a se transformar em "maria" na prisão eram os estupradores. Não me consta nenhum caso de alguém que "lavou a honra" na rua e a perdeu lá dentro. A não ser que, mais cedo ou mais tarde, a misoginia acabe descambando para a liberação geral da franga.

José Luiz Teixeira disse...

Não há indenização que pague a famosa dor de corno. Mas pode amenizar o sofrimento, né?

Vico disse...

Não que eu não concorde com as razões alegadas pelo juiz para dequalificar o pedido, mas gostaria de saber o que sua excelência tem contra o sigilo processual. Precisava expor a público o tamanho das guampas do rapaz?

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
Uma vez corneado, fica para sempre o estigma na testa do infeliz deixado pelo RICARDÃO ao celebrar no altar de vênus da amada. Não há indenização nenhuma que cubra tal amargura de uma traição. Os tempos são outro, é claro, porém ainda persiste o método antigo naqueles que não souberam suportar os galhos como troféu, ou melhor,partem para a violenta emoção! é só escutar os noticiários nas rádios ou televisão que estão sempre trazendo à lume fatos conjugais de perfídias, principalmente nas periferias de classe baixa porque além de esquartejar a mulher, ainda matam filhos,entiados, diferentemente das celebridades que quando acontece fato de tal nautereza, envolvendo a classe alta,o assunto vira manchete o mês inteiro na mídia e as as "recompensas pecuniárias" correm frouxamente mais para as parceiras no tocante à pensão alimentícia que não deixa por menos...

Blog do Morani disse...

Salve Zanfra:

Assuntozinho cheio de perfídia o de hoje. Só há uma solução para quem não desejar ver implantado à testa um par de "ferramentas" tão incômodo:
Ou se permanece solteirão pelo resto da existência, evitando sabiamente os "chifres", ou se dê total atenção à companheira que quase sempre se deixa levar por galanteios "estranhos" (nem sempre estranhos, algumas vezes). Mas, não esquecendo: às mulheres também se coroam os belos pares de cornos, por serem passivas contumazes e nada carinhosas. Ah... O cansaço da vida moderna...

Kafka disse...

Para evitar apêndices indesejados no osso frontal, é necessário carinho a atenção à mulher, para que ela se sinta amada e desejada, mas dosando com algumas pitadas de indiferença, para que ela não se sinta a rainha da cocada preta. A mulher deve ser valorizada, mas o homem não pode se desvalorizar para isso. É preciso deixar uma pequena margem de negociação em todos os lados.

Cintia disse...

Finalmente alguem (o Morani) lembrou que receber galhos na testa nao e um privilegio masculino.. Os homens tambem corneiam, e muito mais que as mulheres, baseados no tao exultado "instinto predador" (nao tenho estatisticas para comprovar).. Acho que a diferenca, generalizando, e que o homem trai por sexo, a mulher por atencao..

Marco Antonio Zanfra disse...

E eu, que já fui um grande galinha na vida, acho que as pessoas traem, antes de qualquer coisa, por falta de respeito ao companheiro.

Cintia disse...

Exatamente! Falta de respeito ao companheiro e excesso egocentrismo..

Gennara Vitti disse...

Essa do Kafka é ótima: receita para não ser corneado. Mas ele se esquece de que até um bolo simples pode abatumar às vezes...

Carlos Martí disse...

Concordo com Kafka até ele receitar a tal pitada de indiferença, um recurso que denota insegurança, algo que podemos evitar se houver absoluta confiança de lado a lado. Prefiro a solução do Marco, que prega o respeito e, se possível, absoluta sinceridade, cumplicidade, até. Difícil por em prática e muito mais complicado quanto mais díspares forem as origens, a formação ou as convicções culturais de cada uma das partes. Mesmo assim, acredito que é ingrediente essencial, principalmente naqueles momentos em que os verdadeiros sustentos de uma relação como o amor, a paixão ou a atração física mostram certa debilidade. É aí quando a presença de uma rede de segurança tecida por elementos mais racionais passam a ser vitais.

Marco Antonio Zanfra disse...

Como sempre, a voz da sensatez. Nem parece aquele garoto meio gordinho que driblava para trás quando a gente jogava futebol.

Cintia disse...

Por que? gordinhos nao podem ser sensatos?? Ou quem dribla pra tras?

Marco Antonio Zanfra disse...

E se eu disser que ele fazia com a boca o barulho da torcida vibrando?

Cintia disse...

haha.. conta mais..

Serafim disse...

Caro Zanfra

O digníssimo Juiz deveria constar em seu parecer que a culpa é do boi que usa a galhada de enxerido.Se fosse pagar indenização,uma boa parcela dos homens estaria falida.

Duas curiosidades,Zanfra.
1- O Carlos Marti era tão ruim como o Toinho (aquele que batia bola com a gente quando eu ia em sua casa?
2- O José Luiz Teixeira era aquele baixinho da Faculdade que trabalhava no Forum e que me sacaneou um dia combinando ir ao casamento do Miguel Dias em Botucatu e me deixando "falar sózinho"?

Abraços

Cintia disse...

Haha.. To gostando de ver a sujeira escondida embaixo dos tapetes aparecendo :))

E o engracado e que a palavra de verificacao para postar e: cournal

coincidencia?

Marco Antonio Zanfra disse...

Duas respostas, Serafim:
1 - O Carles e o Toinho tinham estilos diferentes: o Toinho era ágil e objetivo, embora não soubesse usar essas qualidades com a bola no pé; o Carles tinha bom controle da bola, mas era meio lento, talvez por ser pesado (seu irmão, ao contrário, era leve e rápido).
2 - O baixinho, de quem sou padrinho de casamento, é José Luiz Lima (hoje trabalhando na assessoria do deputado Vitor Sapienza); o Teixeira também estudou na Cásper, mas alguns períodos antes da gente.

Marco Antonio Zanfra disse...

Aliás, Serafim, você soube que o Miguel morreu, né?

Carlos Martí disse...

Na minha defesa, devo de dizer que:
1. O Marco tem razão na análise, quanto à lentidão e quanto o pouca objetividade, mas, devo dizer que o menino gordinho cresceu (tardiamente) e, desde o metro e oitenta e cinco de altura (bem distribuidos) foi bicampeão escolar e em ambas vezes o goleiro menos vazados, com direito a pegar penalti na semi-final batido por Carlos Alberto Rocha, que chegou a ser lateral esquerdo profissional de primeira divisão no Atlético do Paraná e Sport Recife.
2. Vice-campeão do torneio inter-empresas de São Paulo e, como sempre, goleiro menos vazado.
Tenho testemunhas (além dos troféus, claro) e delas dependo, por que se depender da minha forma física atual, é mais provável que esteja voltando a ser aquele menino... e não na altura, que segue sendo a mesma.

Marco Antonio Zanfra disse...

É batata: os mais gordinhos sempre se notabilizaram no gol! Como a gente jogava sem goleiro, você teve de esperar um pouco mais até tornar-se o fenômeno que foi bicampeão escolar e vice inter-empresas!
Cíntia: Por mais uma coincidência, as letras para verificação, agora, são c-i-n-t-i-q.

cilmar machado disse...

A propósito: e quando o marido é o traidor e a mulher busca vingança com as próprias mãos, excetuando o que prevê o Código Penal, quem o defende da fúria feminina? Não seria a hora de os homens criarem a Lei Mário da Mooca, já que as mulheres têm a da Maria da Penha?
Em época de eleições, vamos nos arregimentar e criar a lei Mário da Mooca!
Cornos unidos, jamais serão vencidos!...

Marco Antonio Zanfra disse...

Excelente idéia, Cilmar. "Mário da Mooca" é ótimo, embora, sendo natural de Pirituba, eu preferiria outros focos da colônia italiana na Zona Oeste - como Lapa ou Pompéia, por exemplo. Mas, falando sério, já houve caso aqui em Florianópolis de marido que apresentou queixa na Delegacia de Proteção à Mulher, invocando a Lei Maria da Penha, por ter apanhado da patroa. Na verdade, a lei 11.340 não faz distinção de sexo: apenas discrimina a violência praticada contra "ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade".

Vico disse...

A quantidade de homens subjugados pelas mulheres é tão ínfima, em comparação à situação inversa, que não justificaria a edição de uma lei específica, seja ela Mário da Mooca, da Lapa, de Pirituba ou de Biguaçu. E, aliás, homem que se deixa espicaçar pela mulher devia era pedir ajuda para a senhora mamãezinha dele.

Carles disse...

"Homem que se deixa espicaçar pela mulher evia pedir..." Perdoem-me, mas essa presunção de superiorirade não é uma subjugação conceitual da mulher?

Marco Antonio Zanfra disse...

Ué, então para que não haja nenhuma "subjugação conceitual da mulher" o homem deve apanhar quieto? Não quero defender o Vico por tabela, mas acho que está entranhado em nossa formação que o homem, por ser fisicamente mais forte, só apanha se tiver uma estrutura moral menor do que a física. Não creio que seja correto ou necessário que um sobrepuje o outro, mas não consigo aceitar passivamente - mesmo com os anos de civilização que absorvi a vida toda - que o homem seja a parte mais fraca, a vítima, em caso de confronto. Soa muito estranho para um status quo atavicamente machista.

Vico disse...

Obrigado, Zanfra: você conseguiu traduzir - como sempre com as mais bem escolhidas palavras - a síntese do que eu diria se soubesse escrever. Só para reforçar: quer coisa mais ridícula, digna de escárnio, do que um homem que apanha da mulher, mesmo que essa impressão pareça politicamente incorreta ou uma "subjugação conceitual da mulher"?

Carlos Martí disse...

Exatamente. Acho, no mínimo, politicamente incorreto. Mas, a questão é muito mais ampla e se refere à violência de gênero, uma expressão única e ampla, sem discriminação. E quando se trata de um casal homossexual? Quem tem a teórica supremacia física? Bem. de todos modos, desconfio que essa discussão eu já perdi. Por enquanto.

Cintia disse...

Acho ate bonitinho e muito corajoso o homem apanhar de mulher... Esse, aparentemente nao precisa mostrar quem canta de galo, e nao precisa devolver na mesma moeda ... Agora, sempre feio o forte subjugar o fraco.. por isso que o mundo esta nessa equacao..