segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

No velho Oeste ele nasceu...

Fiz um rápido passeio à infância ao ler, na quarta-feira da semana passada, sobre a morte do ator Gene Barry. A mente tem essa capacidade de se situar em ambientes remotos – com todas as cores, sons, cheiros – quando, para usar um termo adequado aos novos tempos, há um link para isso. A morte de Barry, que encarnou o personagem Bat Masterson no seriado apresentado pela TV Tupi no início dos anos 60, foi o necessário link para minha volta ao passado.
Essa minha evocação, curiosamente, não foi do seriado em si, mas da música tema, em sua versão nacional cantada por Carlos Gonzaga. Eu ouvi claramente por alguns instantes a voz anasalada de Gonzaga entoando os versos No velho Oeste ele nasceu/E entre bravos se criou/Seu nome lenda se tornou/Bat Masterson, Bat Masterson... num enorme aparelho de alta-fidelidade que pertencia a meu tio Tony e estava alojado na sala da casa de meus avós maternos. Eu tinha sete anos, se muito.
O móvel que abrigava a vitrola era de madeira clara, o piso era de cerâmica e havia um recorrente cheiro de sonho pela casa. Não, não estou viajando: o sonho a que me refiro são aquelas bolotas de massa, fritas e recheadas com creme de baunilha ou doce de leite, preferencialmente polvilhados com açúcar, que a gente encontra em qualquer padaria. Minha avó materna era pródiga na produção de sonhos. Não me recordo de outro doce que ela soubesse fazer, ou que se interessasse em fazer.
Nasci naquela casa, incentivado por uma parteira a deixar o aconchego do ventre materno. E é de lá que trago, paradoxalmente, meus primeiros e ainda insubstanciais relacionamentos com a morte: os santinhos que minha avó trazia para casa após as incontáveis missas de sétimo dia a que comparecia, aliados ao ambiente dos quartos, sempre puxado à penumbra, traziam-me uma leve e constante sensação de medo. “Vou para junto de Deus, mas não esquecerei aqueles a quem amei na Terra” – texto atribuído a Santo Agostinho e comum nesses santinhos – soava a meus ouvidos de criança como um chamado para o Além.
Quando meu tio Tony morreu, eu ainda um garotinho, ele não morava mais na casa da rua Luiz Cunha. Mas não me lembro de ter ouvido sua alta-fidelidade e a voz chinfrim de Carlos Gonzaga em outro lugar que não fosse lá.

Voltando ao link: Gene Barry, ou Eugene Klass, morreu aos 90 anos. Embora tenha participado de algumas várias produções, só me lembro dele como Bat Masterson, um almofadinha bom de briga que manuseava sua bengala como ninguém e jamais deixava que seu chapéu coco fosse desalojado do alto de sua cabeça.
Descobri agora que William Barclay Masterson – apelidado Bat porque um morcego cruzou sibilante a igreja durante a cerimônia de seu batismo – existiu de fato. Nascido em 1853, foi caçador de búfalos, batedor do exército, jogador, delegado de fronteira, delegado federal e, pasmem!, jornalista. Foi ajudante do xerife Wyatt Earp e chegou a deputado, nomeado pelo presidente Theodore Roosevelt. Morreu em 1921, dois anos depois de Gene Barry nascer.

36 comentários:

Eliz disse...

Oi Zanfra,

A primeira vez que leio algo sobre este seriado "Bat Masterson". Interessante como estas coisas de infância mexem com a gente, ainda mais agora na época do natal... Um seriado que adorava neste estilo pancadaria era a Dama de Ouro "Kate Mahoney"... Rsss

Marco Antonio Zanfra disse...

Kate Mahoney tem idade para ser neta do Bat Masterson.

Blog do Morani disse...

Eta, meu caro amigo Zanfra, você é um cara "porreta", como dizem os nordestinos. Sua crônica de hoje está que é uma festa só de maravilhosas recordações dos anos de sua infância e dos anos 60! Só faltam as barracas das festas nordestinas, bandeirinhas, sino de igrejinha pobre como a de São Sebastião, no Alecrim, Natal, RN, e o foguetório. O passado nada constrói, mas como é boa essa estrada que nos leva ao pretérito, onde vivenciamos a melhor fase de nossas vidas. But Masterson foi um seriado semanal da extinta TV Tupi que eu não perdia. Gostava de admirar, à época, o jeito "gentleman" do personagem com seu chepéu côco e bengala, impondo a ordem nas velhas e sempre iguais cidades do "far-west" americano. Já havia lido sobre esse versátil dandy do oeste. Existiu realmente o lendário xerife, jogador, caçador de búfalos e jornalista, entre outras ocupações. Vida rica de aventuras como só aqueles tempos da conquista do oeste, dos Wichitas, Mescaleros, Dakotas, Pows, entre as demais nações indígenas poderosas, poderiam resultar filmes de bang-bang e flechadas. Crônica tão deliciosa como deviam ser os sonhos de sua avó materna. Ótima crônica.

Marco Antonio Zanfra disse...

Eu sabia que ia mexer com as recordações de alguns de meus poucos mas reminiscentes leitores. Mas sabia que ia mexer especialmente com as memórias latentes de nosso amigo Morani, cuja vida é um rosário de boas e saborosas lembranças.

Blog do Morani disse...

Tem razão, meu caro Zanfra, e que eu junto às suas. Quase que sinto aquele cheirinho bom de limpeza que a cera Parketina (ou Parquetina?)deixava sobre os chãos de taco de nossas casas, para fazê-los espelhos, perfumando-as, e que se sentia da rua, misturado aos cheiros dos sonhos cheios de açúcar e das rosquinhas com canela e alfenin. Tempos em que as avós residiam nas mesmas casas adornadas de paninhos de crochê feitos por elas. "...A saudade mata a gente, morena, a saudade é dor pugente, morena..." Recordações são as grinaldas em nossas frontes de um tempo que se perdeu para sempre. Ai dos homens que as não têm.

Assis Ângelo: disse...

Bela lembrança, Marco.
Conheço a gravação do Gonzaga a que vc se refere.
Tenho também outras, como as argentinas de The Silver Stars - muito boa - e de Jolly Land, lançadas respectivamente pelos selos Orfeo e Vik.
Acompanhei o seriado, que era da NBC-TV. Muito bom.
Abs,

Marco Antonio Zanfra disse...

E eu vejo pela primeira vez Assis Ângelo falar de uma Gonzaga que não seja o Luiz...

Vico disse...

Tu falas em anos 60 como se fosse ontem! Devias ser historiador, já que tens essa intimidade com os primórdios da Civilização!

Gleydson disse...

Interessante você mencionar a música porque na verdade me lembrou de um senhor que conheci tem quase uns 20 anos que vive cantarolando "No velho oeste ele nasceu..." Rerererere...

Agora sim sei de onde saiu a modinha. Acho que nem ele sabia mais como aquilo tinha grudado.

Abraços!

Cintia disse...

Ia falar que a casa da "Votas" (a avo do Marco), alem de penumbra era envolta pelo cheiro de cera do assoalho de madeira ! Cheiro marcante - O mesmo cheiro a que o Morani se refere! Penumbra e cheiro de cera.. e cha para tomar com os sonhos ..

Marco Antonio Zanfra disse...

E em homenagem à prima distante, um trecho da música original do seriado: Back when the west was very young/There lived a man named Masterson/He wore a cane and derby hat/They called him Bat, Bat Masterson

Cintia disse...

haha.. em portugues rima malhor :))

obrigada!
Morani: A cera parketina tinha como personagem um rapaz vestido como que lanterninha de cinema? Alias, ainda existem os lanterninhas?

Marco Antonio Zanfra disse...

Lamento decepcioná-la, mas o bonequinho não representava um "lanterninha", mas um daqueles estafetas de hotel, encarregados de levar mensagens, carregar malas etc.
Quanto aos lanterninhas, a última vez que entrei num cinema foi em 1994, e já então tive de encontrar a poltrona aos tropeções.

Carlos Martí disse...

Acho que o boneco, símbolo da parketina representava um mensageiro de hotel (não me lembro como se chama no Brasil, aqui é "botones"). Gene Barry já tinha aparecido no filme "A guerra dos mundos", a versão de 1953, claro. Depois fez uma série em que era um chefe de polícia de LA, multimilionário, a "Ley de Burke". Que curiosa a memória afetiva, carregada de sabores e aromas: tem uma moça aqui em casa que, enquanto morou no Brasil, nunca deu demasiada atenção aos "sonhos", disponíveis em qualquer padaria daí. Chegando aqui, como numa porção de coisas, demoramos também a localizar o similar local, até descobrirmos o "suso", principalmente pela diferença na forma. Agora, sempre que passamos por uma determinada confeitaria que têm "susos", ela não resiste a degustá-lo, muito mais, suponho, pelas sabor das lembranças do que pelo paladar.

cilmar machado disse...

Como diz o poeta Sérgio Antunes: ¨não tenho saudades do que passou, sinto muito mais saudades de MIM... ¨
Não seria o caso de todos nós ao rememorarmos fatos, filmes, seriados, sonhos (susos), cera Parquetina e o carinho da vovó?...

Cintia disse...

Hmmm.. aqui tem os donuts, mas que nao sao a mesma coisa nem em sabor, nem em forma.

Parketina - Isso mesmo, um estafeta de hotal, que patinava com escova nos pes em ves de patins sobre um chao quadriculado.
Como eu era mais nova que voces e nao sabia das coisas ainda, minha memoria "resolveu" o problema da significacao do boneco :)

Zélia Pinheiro disse...

Olá Zanfra
Vixi!!! Que seção nostalgia boa demais da conta! Essas lembranças nos transportam e eu pensei que fosse meia doida (ou historiadora que sou) pois quando lembro do café de minha avó sinto o cheiro (nunca mais consegui sentir cheiro igual) servido num conjunto de xícara & pires de vidro transparente com umas depressões com se dedos no vidro ainda mole, lembra? a lembrança da música é legal, da mesma época de: Oh Oh Oh Carol...Não era mesmo a época da inocência? Pelo menos não tínhamos: bonde do tigrão, eguinha pokotó,cachorras, etc, etc, etc! kkkkkkkkkkkkkkkk

Marco Antonio Zanfra disse...

Vixi digo eu, Zélia! Há quanto tempo não temos neste espaço suas bem-humoradas intervenções!? Se desaparecer assim de novo, vai acabar virando lembrança!

Anônimo disse...

Zanfra, eu lembro da paródia: "Lá no Nordeste ele nasceu/ e entre bravos se criou/ seu nome lenda se tornou/ Waldemar Bastião/ Waldemar Bastiao"...

abs
José Luiz Teixeira

Marco Antonio Zanfra disse...

Pois eu me lembro de outra paródia: o Tersão estava castigando o Tersinho, um verdadeiro capetinha, e o povo, em vez de defender o pequeno, cantava em apoio ao "corretivo" - Bate mais, Tersão/Bate mais, Tersão

Kafka disse...

Vi um anúncio antigo dessa tal Cera Parquetina, com o boneco de escovas nos pés saltando e dizendo: "Tenho 50 anos... e brilho mais que qualquer jovem!"
Como se vê, texto bem adequado a muitos dos participantes do blog...

Marco Antonio Zanfra disse...

Nós, os brilhantes participantes deste blog, tomaremos sua comparação como um elogio.

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
Realmente, esse personagem Cowboy, Bat Masterson, traz à lume boas recordações de minha infância. Lembro-me da TV preta-branca da General Electril - GE que o meu pai trouxe do Sul em uma de suas viagens, e foi novidade para o nosso bairro.Só existiam duas em nossa rua e os telespectadores, nos finais da tarde,lotavam a janela da nossa casa de taipa para assistirem aos filmes de ban-bang da época. O Bat Masterson, além de sempre levar vantagem nas brigas com bandidos, também papava toda a mulherada aonde ele estivesse, e isso,irritava minha tia que sempre em conversa com minha mãe, criticava o protagonista do seriado que a cada aventura, fica com uma mulher.Era o tempo que as brincadeiras da garotada, influenciada pelos filmes americanos,brincavam de "mãos aos alto!"- e ficava só nisso- o perdedor era quem não sacasse rápido o seu revólver de plástico do coldre. Ao Bat Masterseon,eternas saudades de um Velho Oeste inesquecível na memória de uma geração que atiravam apenas balas onomatopéicas as quais não se perdiam em direção, tampouco atingiam ninguém.Belos tempo, belos dias.

Marco Antonio Zanfra disse...

Engraçado: o Oeste americano foi desbravado a tiros e nunca houve notícias a respeito de balas perdidas!

cilmar machado disse...

Isso é para o Rio de Janeiro, Zanfra! Os caras eram bons de tiro, sô!... rs rs rs

Zélia Pinheiro disse...

É que lá não se pedia nada, nem tiro. Acabaram ficando ricos!!!
Hoje é um mau exemplo de disperdício Ô RAÇA!!!

Zélia Pinheiro disse...

correção lá não se perdia nada

Direitos autorais disse...

O Assis Ângelo,não se referia ao Luiz Gonzaga,mas jura de pé junto,que os versinhos que compõe a música tema do seriado,são de Patativa do Assaré.

Domínio Popular disse...

"Meu rádio velho encrencou.E ao conserto papai levou.Quando então o técnico disparou.NÃO VAI MAIS TERSOM.NÃO VAI MAIS TERSOM".
Esses versos,dizem,foram recolhidos,assim como,o Tersinho batendo no tersão,por Paulo Vanzoline)

Marco Antonio Zanfra disse...

Não conhecia esta versão do rádio... É de sua lavra?

Registrando disse...

Não.Ouvi em "algum lugar do passado".Mas,se ninguém pronunciar-se....

fábio mello disse...

Outra paródia:

"O meu rádio à pilha enguiçou
Eu o levei ao consertador
E ele me respondeu:
Não vai mais ter som
Não vai mais ter som"

fábio mello disse...

Nota de esclarecimento:

Publiquei minha paródia sem ler a do Domínio Popular.

dr.correia disse...

Ainda não lembro desta paródia toda, mas ouvi perto de 1966. Tenho amigos que devem lembrar de algo. Assim que possível volto a postar. O que lento é assim;

Lá na Bahia ele nasceu,
E entre cocos se criou,
( Está parte eu não lembro),
....... Segunda parte .....
Chegando em São Paulo ele comprou,
Um Radinho de pilha que se quebrou,
Levou no conserto e homem falou,
Não vai mais ter som
Não vai mais ter som

dr.correia disse...

Ainda não lembro desta paródia toda, mas ouvi perto de 1966. Tenho amigos que devem lembrar de algo. Assim que possível volto a postar. O que lento é assim;

Lá na Bahia ele nasceu,
E entre cocos se criou,
( Está parte eu não lembro),
....... Segunda parte .....
Chegando em São Paulo ele comprou,
Um Radinho de pilha que se quebrou,
Levou no conserto e homem falou,
Não vai mais ter som
Não vai mais ter som

Carlos Munhoz disse...

Cantei várias vezes esta música em comemorações cívicas na minha escola nos anos 1973 a 1976. Agradava à todos. Época vibrante!!! Não consigo lembrar a letra toda. Será que nenhum colega se lembra? Quem se lembrar, poste por gentileza. Abraços