segunda-feira, 15 de março de 2010

Tia Júlia e sua sobrinha

Tia Júlia e o Escrevinhador foi o segundo livro do escritor peruano Mario Vargas Llosa que li. O primeiro foi Pantaleão e as Visitadoras, que inoculou em mim uma ligeira febre pela obra do autor. Devorei Pantaleão..., devorei Tia Júlia..., mas minha voracidade foi aplacada já no terceiro livro, A Casa Verde, mais complexo, menos original e com texto um pouco mais rebuscado e cansativo que os dois primeiros.
Escrito em 1973, Pantaleão e as Visitadoras era para mim um libelo contra a burocracia castrista, presente até em assuntos menos militares, como a contratação de prostitutas. Pantaleão era um sargento do Exército com a incumbência de arregimentar moças alegres para enfeitar o ócio tenso dos soldados que serviam num batalhão avançado, metido no meio da amazônia peruana. A dignidade fardada com que o personagem desincumbiu-se de sua missão foi o ponto alto da trama. E a originalidade de Llosa mostrou-me o suficiente para que eu buscasse uma segunda obra.
O segundo livro, Tia Júlia e o Escrevinhador, não me decepcionou. Ao contrário, aumentou minha admiração nascente por sua obra. Foi escrito em 1977 e é um romance semibiográfico. Tia Júlia era mesmo quase uma tia do autor e transformou-se em sua primeira mulher. Eles se casaram em 1955, quando Llosa tinha 19 anos. Júlia Urquidi era boliviana, divorciada e, além de ser irmã da mulher de um tio materno do escritor, era dez anos mais velha que ele. Só o fato de ter dez anos a mais provocaria uma revolução – apaixonadamente enfrentada – na família de Mario Vargas Llosa.
Toda essa oposição familiar está retratada no livro. Para dosar os trechos às vezes melosos de sua saga romântica, Llosa lança mão de uma história paralela, a do Escrevinhador do título: Pedro Camacho era um autor de radionovelas – grande sucesso na época – que trabalhava na mesma emissora que Varguitas, o alterego do escritor, que também tinha pretensões literárias, embora menos popularescas que as do novelista.
O original dessa vertente da história é que Camacho escrevia tanto, tão seguidamente, que começou a misturar histórias e personagens, embaralhando até mesmo características físicas. Não me lembro exatamente do texto, mas todos os herois masculinos de Pedro Camacho tinham “olhar aquilino e nariz adunco”; com os surtos de confusão, algumas mulheres passaram a ter o olhar aquilino e o nariz adunco e alguns homens ficaram com o olhar adunco e o nariz aquilino.

Mario Vargas Llosa enfrentou a batalha familiar para viver o sonho de amor com sua tia Júlia, mas a história encantada não durou para sempre. Num techo do livro, a antevisão da própria personagem para o desfecho de seu caso:
“Sei como vai ser no futuro com todos os detalhes, vi numa bola de cristal – me disse tia Julia, sem a menor amargura. – No melhor dos casos, a nossa história duraria três, talvez uns quatro anos, quer dizer, até que você encontre a menininha que será mãe de seus filhos. Então você me dará um chute e eu terei de seduzir outro cavalheiro. E aparece a palavra fim.”
Mal sabia ela que “a menininha” que seria mãe dos filhos de Varguitas seria sua (de Júlia) sobrinha, Patrícia, com quem Llosa está casado até hoje.
Quanto a Júlia Urquidi, ela morreu semana passada, aos 84 anos, e é por isso que estou lembrando dessas histórias. Porque, de alguma forma, eu também vivi um pouco do amor de Llosa por sua Tia Júlia.

28 comentários:

Cintia disse...

Conta!!

Mas que coisa.. ele nao achava mulher interessante fora do circulo familiar?

Marco Antonio Zanfra disse...

Ora, Cíntia, e se ele gosta de comidinha caseira?...

Blog do Morani disse...

Olhem só como se fazem "estórias" interessantes... Foi preciso Vargas Llosa vivenciar um amor "estranho" ao meio ambiente familiar da época para nascer de sua pena brilhante um romance (ou novela? Não lí nem um só de seus trabalhos. Um foi por mim encomendado à Livraria Peteleco, aqui de Friburgo: "Pantaleão e o Escrevinhador". Até hoje, nada!) O meu xará Mario Vargas Llosa (sei de sua fama como escritor) é o tipo do romancista que eu faço questão de ter em minha humilde biblioteca já enriquecida por obras de autores nacionais como Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Raul Pompéia e outros bons autores do ciclo da cana e de outros ciclos. Alguém desses muitos amigos já puderam ler a "Crônica da Casa Assassinada" de Lucio Cardoso? Excelente cirurgia psicológica em um enredo pra lá de diferente e mais ainda: abordagem
totalmente diferenciada de tudo o que já li de nossa excelente literatura. Por incúria de minha parte, deixei de mencionar o imperdível Mario Palmério e o seu "Chapadão do Bugre". Leiam, por favor. Falar em ler... Esperamos ainda o auspcioso lançamento da obra do nosso blogueiro Zanfra: "Duas Covas".

Marco Antonio Zanfra disse...

Duas coisinhas, Morani:
1 - Encomendando Pantaleão e o Escrevinhador você teria dois livros pelo preço de um?
2 - Recebi semana passada o cronograma de lançamentos da Editora Brasiliense e vi, com alegria, que As covas gêmeas, de minha humilde lavra, deve ser lançado em maio. Esperemos que nada dê errado e que seja mantida a programação.

Blog do Morani disse...

Não, não teria dois livros pelo preço de um, mas desejo ter ambos para iniciar a coleção das obras desse escritor, pois sou um leitor viciado, e tão viciado que leio a mesma obra duas ou três vezes em espaços de alguns pouco meses. Desta forma, assimilo melhor cada acontecimento narrado, e me encanto mais ainda ao estilo do escritor, além de ler dois livros de um mesmo autor para "viajar" em duas situações diferentes. Sou um "rato" de biblioteca. Com isso dou duas tacadas de uma só vez: aumento a minha humilde cultura e ponho o meu cérebro a se exercitar nos momentos de criação de meus livros e suas personagens. Acabei, hoje, "Ribeirão" abandonado pela morte de minha amada filha Aninha em junho de 2009. Retomei o fio da meada e o encerrei hoje pela manhã.
Só que me esperam outros dois, e me acho tão cansado... O "Pousada dos Ventos, já com 188 páginas espera novo impulso, e "Tingly" anda pela metade. Tudo largado para
lá, pelo desânimo. "Confraria dos Miseráveis" é outro, que aguarda a minha boa vontade para reescrevê-lo. Haja ânimo e força de vontade. Vamos ver... Bem, espero ansioso o seu "As covas gêmeas" e não as "Duas covas" como mencionei. Desculpe-me, às vezes o cérebro, mesmo sob execício constante, deixa-me à mão.Maio está batendo à nossa porta. Ótimo. Quem esperou todo esse tempo, pode esperar dois meses. Sucesso.

Blog do Morani disse...

Amigo Zanfra:

Você não se candidatou ao BBB literário que a Seleções Readers Digest lançou em fevereiro?
Eu estou esperando o julgamento às minhas primeiras oito linhas do primeiro parágrafo de "Tingly", escolhido para concorrer. Você passa pela eliminação, e com um pouco de sorte e capacidade em se comunicar através de sua "estória" permanecerá ou não.

Anônimo disse...

Tive um primo que tb viveu essa historia. Namorou com a tia e casou-se com a sobrinha dela. Esse livro, não li. Li Pantaleão...e adorei. Veio na época certa, quando os militares mandavam em tudo.


abs
josé luiz teixeira

Carlos Martí disse...

Engraçado que Mário Vargas Llosa é dos poucos autores contemporâneos ocidentais defensores de uma linha ideológica conservadora, inclusive tendo-se engajando à vida política para combater uma ameaça de privatização dos bancos peruanos e acabou perdendo as eleições para o meteórico populismo de Fujimori e que, mesmo, assim conta com o reconhecimento não só do público, mas também da crítica. As duas obras citadas fazem parte do gênero, digamos, "contador de histórias", tão característico da literatura latino-americana e que consagraram nomes como "Gabo" Garcia Marques ou Jorge Amado. Inclusive tiveram suas versões cinematográficas. Costumo ouvir todas as semanas a Álvaro Vargas Llosa, primogênito de Mário (e da sua prima Patrícia, de Mário quero dizer), escritor e radialista especializado na América Latina e, apesar dele tentar demonstrar seu pensamento mais vanguardista, ironizando muitas vezes o pensamento do pai (sempre com carinho, que fique claro), acaba por demonstrar seu entusiasmo pela vida burguesa de Washington D.C. e que escolheu para a sua família. Para se ter uma idéia, foi elegido Jovem Líder Global pelo Foro Econômico Mundial de Davos.
Eu, prefiro os Vargas Llosa a certa distância já que digamos, representam a direita com argumentos, rara, porém, forte.

Marco Antonio Zanfra disse...

Concordo inteiramente com você, Carles. Prefiro Llosa em forma de livro, porque renego suas posições políticas. Não que Fujimori fosse melhor que ele - aliás, o japa provou que era um bandidinho - mas o recado do povo peruano foi claro e fez com que o escritor escorregasse nos primeiros passos de sua pretensão política. Sorte do Peru, que se livrou de um grande reaça. Mas não podemos negar que Pantaleão e as Visitadoras e Tia Júlia e o Escrevinhador são deliciosos.

Vico disse...

Não conhecia a obra de Mario Vargas Llosa e agora fiquei com vontade de conhecer. É o blog Fala, Zanfra cumprindo sua função social de estreitar nossos laços com a literatura. Parabéns!

Cintia disse...

Nunca li Vargas Llosa. Li Garcia MArques..Talvez ainda esteja em tempo.

Carlos Martí disse...

É ao que me refiro, considero Vargas Llosa um grande escritor e jornalista, pese nossa distância de pensamento. É desses autores que dá gosto ler. Sua candidatura à presidência peruana representava a direita ideológica, e por isso mesmo, legítima. E ainda, por isso, perdeu para o oportunismo dos "fujimori", que aproveitou a senda que o próprio Vargas Llosa provocou com uma campanha baseada no discurso de fomento ao medo, na demonização da esquerda, o que costuma provocar o terror em sociedades parcialemente educadas (e, que diabos! nas educadas também). Resumindo foi a candidatura Vargas Llosa que abriu caminho para Fujimori. Sem querer.

bob disse...

Pantaleão e as Visitadores!!! só voce Zanfra para avivar na minha memória essa obra do Vargas Lhosa. Gostei muito e "devorei" o livro em poucos dias.
Agora "Amor Familiar", só o amor de Pai/Mãe e irmãos, apesar de ter dado uma "pegadas" em algumas primas porem, sem compromissos.
Abraços

cilmar machado disse...

No seu As Covas Gêmeas o que seus leitores terão? Do que trata seu livro a ser lançado? Também tem algo de Llosa ou de Marques?...

Marco Antonio Zanfra disse...

As covas gêmeas é um policial, Cilmar. Aliás, é o primeiro policial da Brasiliense, nos 65 anos de vida da editora. Resumidamente: ao enterrar um de seus filhos gêmeos (encontrado boiando nas águas do mar, estrangulado) a mãe pede que seja aberta uma segunda cova no cemitério, para sepultar o outro gêmeo, que ela tem certeza de que também será encontrado morto. O 'heroi' de nossa história promete encontrá-lo vivo, porém, e é a saga dessa busca pelo garoto - com os bastidores crueis e amplos que envolvem a morte do primeiro menino - que o livro narra.

Carlos Martí disse...

Interessante... estarei atento ao lançamento. Para quando a versão em castellano?

Marco Antonio Zanfra disse...

Não depende de mim, Carles. Quando assinei o contrato com a editora, deixei-lhes a opção de negociar a edição do livro no Exterior. Mas seria ótima a intercionalização da obra. Se Paulo Coelho conseguiu, por que eu não conseguiria?

Kafka disse...

Mas e aí: o heroi localiza vivo o filho da mulher?

cilmar machado disse...

Eram gêmeos univitelinos e paranormais? Aguardem!... rs rs rs

Serafim disse...

CARO ZANFRA

Como naquela velha história de que a do(a)(vizinho(a) é melhor,no meu tempo de namorico o "pensamento" eram as cunhadas.Ainda bem que hoje só tenho cunhados.

Abraços

Cintia disse...

Esse sera um dos livros que comecarei pelo fim.. Minha ansiedade nao me permite saborear pagina por pagina para chegar ao fim.. TENHO que saber antes, me preparar.. Ai sim posso saborear pagina por pagina.. Cada um com a sua loucura..

Marco Antonio Zanfra disse...

Acho que não vai dar certo, prima: As covas gêmeas não é do tipo que guarda a solução para o útimo capítulo. Há todo um arcabouço de revelações durante a história e uma estrutura de encadeamento da narrativa que guarda os melhores momentos para um pouco antes, seguindo-se quase um anticlímax, embora em forma de reviravolta conceitual, no penúltimo capítulo. O vigésimo-sexto e último capítulo é apenas uma espécie de epílogo.

Cintia disse...

Entao voce vai ter que contar - em off..
Ou entao vou ter que comecar pelos antepenultipo capitulo..

Anônimo disse...

Prezado Zanfra
Será que ele não era mineiro,não? será que a estória não omitiu fatos da história?Comida caseira sempre foi coisa de um bom mineiro.
Bem....hoje preferi amenidades mei loucas...mas tem um sentido...só pra não me perder....esquecer e nem desaparecer...valeu?
Afinal a chuva anda caíndo..rsrsrsrsrsrs
bjusssssssss

Anônimo disse...

Prezado Zanfra
Esqueci de me identificar.....esse anonimo das 18.04,sou eu...sonia carotta....
bjussssssssss

Marco Antonio Zanfra disse...

Eu já sabia: os seus "bjussssssssss" são uma espécie de assinatura.

Ricardo Câmara disse...

Há certo tipo de leituras que retratam uma quase realidade. O escritor Mario Vargas Llosa, em sua obra Tia Júlia,coincide com um romance na vida de Zanfra. Já na minha família,"contam-se"um caso semelhante, não entre tia e sobrinha, mas de mãe e filha. Tratava-se de minha avó, viúva à época, com seis filhos, conheceu meu pai,namoram e quase se casaram, se não fosse despertado por uma paixão inusitada do papai pela filha da viúva, uma mocinha aos dezessete anos (só três anos mais jovem que papai) e se tornaram marido e mulher, deixando uma prole de dez filhos bem criados que só ficamos sabendo do tal romance após longos anos, todos já adultos. Eles já partiram para a plenitude e nos legou esse acontecimento narrado por familiares mais antigos que conheciam essa história (ou estória).

Marco Antonio Zanfra disse...

Pois é, Ricardo, a vida às vezes é mais inusitada do que a ficção.