segunda-feira, 4 de abril de 2011

Três pasteizinhos numa cestinha

Tem um bar aqui em Florianópolis, dentro do Mercado Público, que adota uma prática simples para incentivar o consumo de seus petiscos: se você pede um pastelzinho de camarão, por exemplo, as garçonetes colocam dois pasteizinhos na cestinha, apostando que, graças à satisfação pela qualidade do produto, você vai comer o segundo automaticamente. A maioria da clientela efetivamente devora também o segundo pastel – e até pede mais. Mas é claro que o consumo não é obrigatório, e o pastelzinho pode ser deixado na cestinha.
Lembrei-me imediatamente do “Box 32” quando soube da história do casal do Paraná que, ao ser surpreendido com o nascimento de três meninas, após tratamento de fertilidade, quis deixar uma delas na cestinha, como um pastel indesejado. Preparados para consumir no máximo dois pastéis, queriam que a garçonete fizesse o que bem entendesse com o pastel que colocou a mais.
Sintomaticamente, a criança condenada a permanecer na cestinha era a que apresentava problemas pulmonares. Um “furyô”, como os japoneses chamam os produtos que apresentam defeito de fabricação. Nada mais lógico: se eles queriam apenas dois produtos e lhes apresentaram indevidamente três, por que não devolver um que, além de ser excedente, estava fora das especificações? Era como se a garçonete do “Box 32” tivesse colocado um pastel de queijo na cestinha do pastel de camarão.
Soube que o casal arrependeu-se de ter pensado nas crianças como simples mercadorias numa prateleira e agora quer que a Justiça lhes devolva a guarda, retirada pelo Conselho Tutelar para garantir a proteção das meninas. A defesa do casal alega que o gesto foi impensado, num momento de confusão mental pela surpresa do nascimento não planejado.
Pode até ser, e a Justiça até talvez lhes conceda o pátrio poder. Mas não dá na gente o medo de que, num futuro próximo, o terceiro pastelzinho possa ficar esquecido na cestinha, esfriando e murchando, porque, afinal, era um pastel de queijo?

10 comentários:

Mario disse...

Quanto temo hein Zanfra?

cilmar machado disse...

Gostei da metáfora envolvendo crianças e pastéis. O fato causa consternação geral por se tratar de recém-nascidos, mas o que se falar quando o ¨pastel ¨ é rejeitado após dois, três ou cinco anos de existência? Infelizmente, é o que acontece especialmente nas camadas mais pobres da população. Como é difícil a vida de um ¨pastel ¨ brasileiro, não é?...

Gleydson disse...

Bizarro, simplesmente bizarro...

t t santos disse...

ÔÔÔ! Parece mesmo coisa de buteco. Achamos que já vivemos, né?
Bjs. Cumadi Ana

Marco Antonio Zanfra disse...

Fala a verdade, Ana: você sentiu mesmo foi saudades dos pasteizinhos do Box 32...

Enéas disse...

Eu soube que o casal já havia escolhido qual criança seria descartada. Muito embora esta parelha tenha se arrependido do gesto e queira ficar com o trio, esta criança, com um trauma indelével, um dia irá pedir satisfação aos pais, querendo saber o porquê do desprezo. Seja qual for o desfecho, o estrago já foi feito.
E que beleza de texto, Zanfra. Abs p.s.- fora o que, êta pastelzinho que deve ser bom, hein.

Carlos Martí disse...

Muito boa a metáfora. E parabéns pelo "cumpleaños". Um abração.

Marco Antonio Zanfra disse...

Agradeço e retribuo os parabéns: afinal, em 16 dias o senhor também chegará aos 55!

Anônimo disse...

Zanfra,

nos vimos uma vez, no máximo. Quando você saiu do Diário Popular, em 1991, entrei na sua vaga.

achei seu blog procurando uma foto para atualizar o meu (www.caotico.com.br)

Voltarei para ler com mais calma e sem sono.

abraço grande.

(ah, lhe citei bem rapidamente numa postagem do meu Caótico: http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem/)

Inácio França

Marco Antonio Zanfra disse...

Fui lá ver, Inácio. Nem sabia dessa história. Aliás, nem sabia que o Miranda sabia da minha vaga - ou da falta dela, quando eu trabalhava lá!