segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A virgem entre os leões


Quando foram divulgadas as primeiras notícias sobre o caso da menina de 15 anos que passou um mês na cadeia entre três dezenas de animais predadores famintos, no Pará, o grau de indignação da sociedade foi proporcional ao ineditismo da situação. Imagine só: UMA garota numa cela entre homens, em UMA prisão de UMA cidade brasileira. A indignação foi notável, mas era proporcional a UM absurdo. E agora, quando já foram feitas mais três ou quatro denúncias de casos semelhantes? E agora, quando a “Folha” divulga que há abusos contra mulheres nas prisões em seis Estados – sem contar o Pará?
No episódio da adolescente de Abaetetuba, as “autoridades” “responsáveis” pelo descalabro destroçaram pelo menos três respeitáveis instituições, enquanto a menina vivia seu terror íntimo: o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Execução Penal e o instituto do bom senso – este último mais maleável que os outros dois, mas nem por isso menos merecedor de respeito.
Jamais um adolescente, especialmente do sexo feminino, poderia ficar na mesma cela que um adulto, especialmente do sexo masculino. Corromper essa postura – assim, na formulação simples em que ela está colocada – já bastaria para detonar a instituição da lógica, da cidadania e da civilização. Multiplicar esse poder de destruição pela quantidade de adultos na cela e pela quantidade de dias em que a adolescente esteve subjugada desconstrói tudo o que o gênero humano pensante tentou erguer, através de articulações legais como o ECA e a Lei de Execução. O que pensar se, em 2007, a despeito do Estatuto, da Lei de Execução, da Declaração dos Direitos Humanos, do bom senso, dos preceitos religiosos e outros dogmas legais e morais, as “autoridades” “responsáveis” oferecem aos predadores famintos a tenrura da carne adolescente?
O que parece mais espantoso é que o caso da “virgem entre os leões” não era um segredo guardado nas profundezas do cárcere: ela estava ali, visível através das grades a quem passasse pela rua. Mas a indignação dos vizinhos só despertou quando a indignação do resto do País se fez ouvir. Ninguém denunciou, ninguém cobrou providências ou exigiu interferência antes que Abaetetuba passasse a figurar no mapa diário da imprensa nacional.
Medo? De quê? A mim, parece que isso acontece apenas porque barbárie na pele dos outros é refresco. Ninguém se envolve, ninguém se compromete. Estará todo mundo pouco se lixando enquanto houver espaço para respirar, enquanto os respingos não atingirem sua família. Além disso, quantos não estavam certos de que ela simplesmente estava pagando por seus erros, sofrendo na carne por uma opção de vida que nenhum deles a obrigou a seguir?

4 comentários:

Betinho Hirtz disse...

Concordo em grau, gênero e grau com a tua opinião.
Quanto recebem estes caras dos Direiros Humanos, eh?
Apesar que hoje uma guria "sapeca" como ela, penso até que se vangloriá com suas amigas, como afirmando "agüentei" os vinte e "tô firme" !!!!
Mas independente da ignorância não podemos esquecer da ´bárbarie `
PARABÉNS AO TEU EGO !

Anônimo disse...

Não sei o que é pior: a situação da menina ou comentários desse tipo! Acorde, senhor Betinho: ela não estava se "divertindo" entre os homens, como o senhor pensa!

Suzana Sales Moura

Anônimo disse...

A visão machista de certas pessoas vai acabar fazendo com que o caso da adolescente de Abaetetuba acabe em pizza. Se o povo continuar pensando que ela estava ali porque queria - e podia até querer, porque não teve tempo de aprender o que é dignidade - o assunto vai morrer como têm morrido muitos escândalos, descalabros e absurdos que nos acostumamos a ver. A violência contra a mulher continua banalizada em certas cabeças, apesar dos esforços em contrário. a)Bernardo Krudell, estudante de direito

Anônimo disse...

De fato, é inacreditável que, em pleno século XXI tenhamos notícia de um acontecimento desse gênero, tão atroz, surreal até, com requintes de tortura medieval.
E ainda tem gente que imagina (pasmem) que essa jovem vítima irá se vangloriar. Meu Deus! Do que exatamente? Dos dias de tormento sem fim em que foi, sabe-se lá de quantos jeitos diferentes, barbarizada por trogloditas ávidos por “carne fresca”? Qualquer pessoa com dois neurônios sabe dos traumas irreparáveis impostos a essa menina “sapeca”.
Maria Augusta Probst
Advogada
Assistente Jurídica DETRAN/SC