segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Periferia e violência

Suponhamos que você esteja em busca de apartamento para alugar. Quer um de dois quartos, com pelo menos 60 metros quadrados de área. Procura um corretor fictício, que faz um rápido estudo de suas preferências:
— Você quer morar num bairro onde, a cada 15 moradores, um é assassinado, ou prefere uma área um pouco mais tranqüila, onde a morte de um habitante só ocorre a cada 2.115 homicídios na cidade?
Como está mais do que provado que você não é besta – pois, entre outras razões menores, está lendo este prestigioso blog – é claro que vai escolher a segunda opção. Você sabe que, quando chegar seu dia, não há estatística que o sustente, mas não custa nada não dar mole para o azar.
E aí o corretor vai jogar a segunda pergunta:
— Você quer bancar um aluguel de até R$ 400 por mês ou está disposto a ingressar na zona dos três dígitos?
Mais uma vez, seu instinto de preservação vai falar mais alto e, como nem quem tem dinheiro abre mão do sagrado direito de mantê-lo guardado, por que com você seria diferente? É óbvio que a escolha recairá sobre o valor mais baixo, mais de acordo com suas pretensões de assalariado.
Nosso corretor fictício, então, vai soltar um sorrisinho de viés – daqueles precedidos de um humpf! desdenhoso – e mostrar que, entre morar e morar, ou um ou outro:
— Mas, meu amiguinho, você quer morar em Moema e pagar aluguel do Grajaú!?!

Nem sei se a diferença entre os aluguéis de Moema e Grajaú está bem representada na proposta do corretor fictício. Fiz os cálculos em cima de números colhidos no site do Secovi, com preços do aluguel por metro quadrado em outubro de 2007. Não acompanho a cotação imobiliária em São Paulo, mas não acredito que você arrume um apartomentozinho furreca em Moema por menos de R$ 1,5 mil.
Mas a questão nem é essa: são os números da violência. Esses números apresentados aí em cima são reais, e constam de um levantamento feito pelo Pro-Aim (Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo). Esse mesmo levantamento indica que, quando uma pessoa é morta em Moema, outras 130 já o foram no Grajaú. Isso comprova o que todo mundo já sabia: a violência tem relação direta com a miséria.
Solução? Baixar o preço do aluguel de Moema, para possibilitar que a periferia alce vôo às áreas socialmente menos deterioradas, ou trabalhar pela diminuição da desigualdade? É claro que esta segunda alternativa é a única viável, mas o resultado me parece tão distante, tão utópico, tão lento... que desanima. Não há solução a curto prazo, embora a necessidade seja de uma solução a curtíssimo prazo.
São Paulo continua crescendo, inchando em suas abas. Incrementando a pobreza, superpopulando Grajaú e outros extremos. Uma bola de neve. Como deter esse inchaço sem ferir direitos constitucionais? Como diminuir a desigualdade antes da completa pane social?
Cara, isso é assunto para uma segunda-feira?

4 comentários:

Anônimo disse...

Zanfra, a resposta para o problema pode estar nessa informação do Drauzio Varella à Folha de ontem:

"As mulheres analfabetas têm em média 4,4 filhos. Na penitenciária feminina a coisa mais difícil é encontrar uma moça de 25 anos que não tenha três ou quatro. Aos 30 anos, algumas chegam a sete ou oito”, destaca. “De cada 100 crianças, no Brasil, só 11% são das classes A e B. Praticamente a metade, 47%, são da classe E, com renda per capita abaixo de R$ 75 por mês. Existe violência maior do que condenar os mais pobres a se encherem de filhos, que não conseguirão sustentar?”.
Concordo com ele.

abs
josé luiz teixeira

PS: para postar um assunto sério assim numa segunda-feira como esta, você só pode ser corintiano. Acertei?

Keila disse...

É assustador o número apontado pelo Pro-Aim.
Acredito que a violência nasce em decorrência de vários problemas sociais, como a miséria, a pobreza, a má distribuição de renda e o desemprego.
Enquanto tais problemas não se resolverem, a violência continuará crescendo no Brasil.

Anônimo disse...

Infelizmente, as castas menos favorecidas da população são as que mais procriam, e o corolário maior desse fenômeno social, como todos sabemos, é o incremento de cidadãos com escolaridade insuficiente, por conta da péssima qualidade do ensino público no Brasil. E a falta de educação formal, para além da pobreza, é a grande causadora das mazelas sociais. A solução mais óbvia, não obstante verdadeiramente utópica, seria elevar a qualidade das escolas públicas. Já a curto prazo, caro Zanfra...Quem sabe uma campanha séria e comprometida de controle da natalidade?

Maria Augusta Probst

Anônimo disse...

Tem razão o blogueiro: a falta de perspectiva desanima. Talvez a opção de um controle consciente da natalidade seja o caminho: o que não dá é gente sem condições de sobrevivência pondo filho no mundo, quando a única coisa que eles têm para dividir é a fome.

- Chalaça -