segunda-feira, 10 de março de 2008

Excursão ao Além


A morte é uma coisa que te atrai, mas você tem medo de encarar sozinho as etapas a percorrer até atingir esse estágio irreversível? O que pode ou não haver depois que a vida se dilui, a existência ou não de uma “passagem” e de um depois, desencoraja sua disposição de ser um “viajante” solitário?
Esse medo de morrer sozinho parece estar por trás de todos os pactos suicidas que, ao longo dos últimos três ou quatro anos, vêm sendo tramados pela internet. Tal qual uma excursão à Disneylândia, os adeptos do “tresloucado gesto” combinam local – exótico, de preferência – roupas e até a forma de iniciar o “passeio”, de mãozinhas dadas, rumo ao desconhecido.
Neste final de semana, mais um grupo desses turistas tenebrosos foi achado num bosque na cidade de Aomori, extremo norte da ilha de Honshu, no Japão. Eram cinco jovens de diferentes localidades japonesas, encontrados dentro de um carro cujas janelas tinham sido vedadas com fita adesiva e no interior do qual havia um forno de carvão vegetal. Gás carbônico na veia e por todos os poros.
A polícia acredita que as mortes tenham ocorrido há pelo menos um mês. Mas por que se preocupar? No Japão, estima-se que ocorram em média 30 mil suicídios por ano, alguns deles envolvendo dekasséguis brasileiros embalados pelo binômio desemprego/solidão. Se as mortes ocorrem individualmente ou em grupo, isso não muda em nada a funérea estatística.
Embora meus conhecimentos antropológicos limitem-se à simples capacidade de observação de um pobre repórter de passagem pelo Japão, achei os japoneses muito centrados em si próprios – ou, no máximo, alcançando uma pequena constelação a gravitar em torno de si. Um comportamento que encoraja o suicídio, pela omissão. Por isso, esses pobres infelizes que conseguiram pactuar o próprio desfecho até que tiveram sorte em conseguir quem os acompanhasse na jornada.

Um pouco de informação:
1 - Um quadro de Edouard Manet ilustra este texto.
2 - Quem tiver curiosidade de conhecer o “Guia do Suicídio” (em inglês) pode clicar aqui.

Para tornar o blog mais leve:
Pesquisa de uma universidade do Reino Unido concluiu que 57% dos internautas mudam de sexo quando participam de jogos on-line. Alguns, especialmente as mulheres, alegam que a troca de sexo virtual propicia-lhes mais vantagens nos jogos. Mas alguns admitiram ter “virado a casaca” como “experiência”, para “brincar com aspectos de seus personagens que não poderiam explorar na vida real”. Hum... interessante... muito interessante.
Por falar nisso, até hoje não consegui nenhuma explicação, que me convencesse, para o fato de alguns homens vestirem-se de mulher no Carnaval.

9 comentários:

fábio mello disse...

Tem uma comunidade no Orkut que publica o perfil das pessoas que morreram, mas não apagaram a página pessoal. A quantidade de suicidas brasileiros - normalmente adolescentes - é simplesmente impressionante. Chega às dezenas, por mês.

Anônimo disse...

Acredito que o suicídio, por si só, já é algo que levanta mil questionamentos. Suicídio envolvendo adolescentes, que tem a expectativa de toda uma vida pela frente, é mais instigante ainda. Penso que a grande questão prá essa moçada é justamente a expectativa de uma vida a construir que está sendo negada. No caso do Japão, um país que tem uma alta padronização e homogeneização, tende a não permitir mudanças. A perda da identidade também contribui. Em outras palavras, a criação é algo que é inerente e vital ao ser humano. E, o trabalho é o meio pelo qual isso ocorre. Que expectativas vc teria de vida, se este trabalho perdesse o sentido?
Ass. sujeito oculto

Marco Antonio Zanfra disse...

Quando minha amada "sujeito oculto" escreveu, esperava que ela fizesse menção aos casos de "ijime" (pronuncia-se "idjimê")no Japão: são casos principalmente de adolescentes rejeitados e desprezados pelo grupo que freqüentam, o que pode terminar - e muitas vezes termina - em suicídio. Já imaginou o que é, num país padronizado, ser excluído do padrão e execrado?

Anelize disse...

QUE HORROR...

Anônimo disse...

Mas.. engracado: a ideia que tenho dos jovens do Japao me traz duas imagens diferentes: O jovem certinho, talvez massacradopela padronizacao e cobranca, e o "avant-garde", o que lanca modas, o que se expressa e faz de tudo pra se diferenciar. Em qual desses grupos ha mais suicidas?
Cintia

fábio mello disse...

No final de semana, um rapaz de 25 anos se enforcou na minha cidade.

Marco Antonio Zanfra disse...

1 - É fácil de diferenciar, Cíntia: o japonês inovador, o que lança moda, está pouco se lixando para o padrão; o outro - o que tenta ser padronizado feito um radinho de pilhas e é marginalizado - é que acaba entrando em depressão e apagando as próprias luzes. Contribui muito para isso o posicionamento dos japoneses diante desse problema: para eles, cada um deve transpor as próprias barreiras e resolver as dificuldades da vida por sua própria conta.

Marco Antonio Zanfra disse...

2 - Imagine a cena: a partir de certa idade, os japonesinhos têm de ir à escola sozinhos, os pais não podem levá-los; aí, é comum você ver aquele grupo homogêneo - parecendo bonequinhos do Ultraman - caminhando pela rua de mãozinhas dadas, rumo à escola. Agora, imagine um japinha que não pode ser escoltado pelos pais e é rejeitado pelo grupo.

Anônimo disse...

Cruel! e ninguem consegue ser mais genuinamente cruel do que crianca, ne? Ai no Japao eles buscam o suicidio, sozinhos ou em grupo; aqui eles saem matando todos pela frente antes do suicidio, Tambem nao querem ir sozinhos.. Eu por enquanto vou ficando..