segunda-feira, 17 de março de 2008

Lenda urbana em perigo


O nível de insegurança que ronda a população está ultrapassando o limite do tolerável: nem as lendas urbanas têm mais garantia de que podem sair às ruas, para cumprir seu papel meio nebuloso dentro do imaginário popular, sem o risco de serem atingidas pela onda de violência.
Pois foi o quase linchamento de uma “lenda urbana” o que aconteceu semana passada, em Manaus. Uma multidão tentou invadir a delegacia do bairro Novo Israel para justiçar uma loura – que havia sido presa por suspeita de tráfico de drogas – só porque ela correspondia à descrição da “lenda” que andava pela boca do povo: loura, ocupando um carro preto, que percorria a cidade em companhia de um homem, pegando crianças para “roubar-lhes” os órgãos. Foi por pouco.
É claro que a imprensa teve culpa nessa tentativa de linchamento: a assessoria da Polícia Civil informou que as pessoas foram "incitadas" por programas policiais da televisão local, que, no início do ano, começaram a divulgar informações sobre um suposto esquema de tráfico de órgãos em Manaus, comandado por uma mulher loura que dirigia um carro preto pela cidade e arrancava os órgãos de crianças. Imagine-se quantas pessoas não foram “inoculadas” por esse noticiário.
Foi-se o tempo em que as lendas urbanas eram alimentadas unicamente no contato pessoal, de boca em boca. Quando eu era criança, corria na escola a aterradora história da loura com chumaços de algodão enfiados nas narinas que aparecia para assombrar os meninos nos banheiros – e que deve ter deixado muito marmanjo com cistite ou qualquer outra seqüela urinária, por segurar durante muito tempo o xixi dentro da bexiga. Depois, bem mais tarde, o “Notícias Populares” tratou de explorar e alimentar a lenda do “Bebê Diabo”, um pequeno monstro que povoava os telhados do ABC paulista. Em ambos os casos, não deixava de ocorrer um exemplo de histeria coletiva, mas era uma histeria muito mais personalizada do que é hoje.
Com a “imprensa marronzista” televisiva e com a internet, ficou muito mais fácil alimentar as lendas, embora seja uma alimentação quase parenteral, meio subliminar. Nada mais é pessoal, tipo fofoca de vizinho. Hoje, você sabe que ouviu – mas não sabe onde – que um ninho de cobras foi encontrado numa piscina de bolinhas (num parque infantil ou no McDonalds?), que uma mulher foi picada por uma seringa com sangue infectado pelo HIV (na areia da praia ou numa poltrona de cinema?) e que uma loura num carro preto anda por aí catando crianças para roubar órgãos (em Manaus ou em São Paulo?). Ganhou a impessoalidade, perderam as lendas.
A essa altura, desencorajada pela concorrência desleal, minha loura com algodão no nariz já abandonou os banheiros.

11 comentários:

Anônimo disse...

Impressionante como essas coisas crescem e ganham forca na histeria coletiva. O absurdo ganha veracidade e desperta a furia incontrolavel, irracional..
Muito interessante, mas como nasce uma lenda urbana? Existe uma empresa com funcionarios pensando qual a maluquice que vamos lancar pela internete hoje?..

Anônimo disse...

E tudo "bem funcamentado", com explicacoes "cientificas" que facilmente engana os leigos..
E a proposito, a sua loura com chumacos visitava os banheiros femininos tambem, viu?
E o Homem-do Saco, sera que ele ainda existe?

Marco Antonio Zanfra disse...

O "homem do saco" é a mais antiga das lendas urbanas, acho. Talvez tenha vindo para o Brasil há 200 anos, acompanhando a Família Real.

José Luiz disse...

Pois é meu caro Zanfra, já tive muito medo dessa loura com algodão no nariz...essa lenda corria aqui do outro lado do rio, também.

Fabiano Marques disse...

Essa história de lenda urbana pode ser perigosa mesmo, ainda mais quando cai nas mãos de jornalistas.
Mas, o incentivo à aversão a elas sempre ocorreu.
Não pensem que sou noveleiro, fiz até uma pequena enquete com algumas pessoas para seguir o raciocínio, mas, quem lembra do Cadeirudo, da novela Roque Santeiro, ou do atual Sufocador, da telenovela (sic) Duas Caras?
Nas tramas, quando encontrados, essas lendas levam fumo mesmo.
Agora, coitado do Homem do Saco. Há 200 anos é?
Imagine como deve estar a saúde desse senhor. No Brasil, andando de cidade em cidade, com essas rodovias sem acostamento, sem ter um SUS que sustente a saúde dele.
Talvez o fome zero tenha dado um upgrade no corpinho do velhinho para que ele encha o saco de crianças mal criadas.
Vou sugerir um cartão corporativo para que ele contrate um subalterno para carregar o maufadado saco.
abrassssss

Fabiano Marques disse...

Nas tramas, quando encontradAS....

Desculpem. É que estou correndo...por isso tropecei. heheheh

Anônimo disse...

Pois e, Fabiano.. Na condicao em que pais se encontra, nem mesmo as lendas urbanas conseguem sobreviver. Que dirao os pobres reais, velhinhos, sub-empregados, trabalhadores que aguentam cada uma pra conseguir mais uma dia de sobrevida!
Agora, Fabiano, uma perguntinha tecnica: como voce conseguiu escrever um post tao grande de uma tacada so?? Sempre tenho que dividir em dois, tres posts..

Fabiano Marques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabiano Marques disse...

Vixxx, não sei como consegui. Acho que é porque sou assinante do blogspot. Tenta fazer o cadastro do gmail para ver se rola.

Anônimo disse...

Mas Zanfra..

Já pensou que glória conseguir capturar uma lenda urbana e fazer justiça com as próprias mãos? O povo, que já adora uma historinha dessas, só espera uma oportunidade para pousar de herói, ao conseguir liquidar uma criatura tão odiosa. Ainda mais quando encorajado pela mídia. Alguns, decerto, já estão se vendo na TV, em rede nacional... ah, os quinze minutos de fama...
De minha parte, lembro-me do ET de Varginha, do Chupa-Cabra, e da notícia de que os hamburguers do Mac Donald’s são feitos com carne minhoca.
Ah, e também que quando se perde uma coisa é preciso amarrar o pé de uma cadeira (ou rezar para “São Longuinho” e dar três pulinhos, é isso?), ou quando se quer que a visita vá embora, coloca-se uma vassoura de cabeça para baixo atrás da porta. Não sei se essas últimas se encaixam como lendas urbanas; acho que são meras simpatias. Mas me foram transmitidas à moda antiga, em tom de fofoca de alcova, como se fossem informações privilegiadíssimas. Ah isso foram!
Abraços!!

Maria Augusta Probst

Bonassoli disse...

O ET de Varginha ninguém provou se era ou deixava de ser. Mas que algo estranhíssimo ocorreu naquela cidade, disso não há dúvidas. Caso contrário, por qual motivo os militares simplesmente se negam a sequer comentar o assunto?

E, convenhamos, mesmo que nada tenha ocorrido, a história é muito legal. :)