segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O pequeno órfão


Gostaria de saber o que estava sentindo, além de fome, o pequeno filhote de baleia que, na semana passada, em águas australianas, confundiu um iate com a mãe desaparecida e insinuou-se intuitivamente sob seu casco, tentando mamar. Confundir o corpo da mãe com um barco, por mais cômica que pareça a situação – digna de desenho animado – deve representar o desespero de um pobre ser desamparado, que, mais do que somente alimentar-se, queria achar junto ao iate a proteção de alguém que deveria estar ali para orientar os primeiros movimentos de suas nadadeiras.
Deve ter sido com base na pressuposição de que esse desespero não deveria continuar que os agentes ambientais que monitoravam o pequeno órfão decidiram sacrificá-lo. “O filhote de baleia foi sacrificado de forma tranqüila e humana. Foi um momento triste, mas foi como se ele tivesse ido dormir”, minimizou um porta-voz.
Pois é: eutanásia com a vida alheia é sempre a melhor forma de evitar a perturbação que o sofrimento do outro nos provoca. A morte é uma opção mais econômica, em todos os sentidos. Seria mais oneroso procurar uma forma, por paranormal que fosse, de confirmar se a baleiazinha não queria continuar vivendo e se a morte era mesmo a única solução viável. Nem sei se chegaram a pensar com seriedade na opção de alimentá-lo até que ele se tornasse auto-suficiente.
Lembro-me de um filme de Sidney Pollack, que assisti há quase 30 anos, em que uma mulher à beira de seus limites optou pela morte como forma de pôr fim ao sofrimento. O título do filme no Brasil era A Noite dos Desesperados (They Shoot Horses, Don’t They?, no original) e contava o drama de pessoas que participavam de uma maratona de dança, na tentativa de salvar-se dos estragos da Grande Depressão americana com o prêmio entregue ao casal que permanecesse em pé depois que todos os outros houvessem sucumbido ao bailado massacrante.
O filme começa com uma cena de cavalos correndo, um deles caindo e quebrando a perna, seguindo-se do sacrifício do animal com um tiro. O garoto que presencia a cena da morte do animal transforma-se mais tarde num dos participantes da noite dos desesperados do título, Robert (Michael Sarrazin), e é ele quem dá o tiro de misericórdia em sua parceira, Glória (Jane Fonda), a pedido dela. Ao ser preso, Robert justifica o que fez com lógica simples e com a imagem que guardara da infância: “Mas eles não matam cavalos?”
Repito contudo que foi Glória quem escolheu morrer. Ao pequeno cetáceo órfão não foi dado o direito de escolha. Se o pobre coitado tivesse nascido com o formato de um lindo ursinho branco, provavelmente seria adotado pelo mundo todo e receberia o carinhoso nome de Knut; como nasceu bem maior e num universo – o oceano Índico – onde não há creches ou orfanatos, o pessoal achou melhor cortar o mal pela raiz, com o eufêmico argumento de que se pretendia antecipar o fim de seu sofrimento. Temos de convir que é muito mais complicado cuidar de um trambolho daqueles do que de um fofo ursinho branco. “Foi como se ele tivesse ido dormir” é só uma expressão para diminuir o sentimento de culpa.

17 comentários:

Lílian disse...

Concordo contigo Zanfra! Concordo também com a eutanásia, desde que o ser vivo possa optar por esta escolha e, no mundo animal, há também a escolha por morrer, embora o instinto em geral seja de sobrevivência. E as ONGs de proteção, se pronunciaram?

Fabiano Marques disse...

Concordo que parece cruel, mas, na verdade, não me comove. Claro, eu não faria isso ou pensaria dessa maneira se perguntado sobre o destino da baleia.
Agora, vou ter que ser cruel.
Bem que as matilhas de cães abandonados nas ruas e que NUNCA são recolhidos e bem cuidados pelo poder público municipal poderiam ir dormir mais cedo.
Assim como os donos de cachorros que deixam as sujeiras nas calçadas, parques e praias da cidade. Se todos fossem dar um cochilozinho, seriam beeem úteis.

lilian disse...

Fabiano, escrevo como alguem que perdeu seu cao (ha duas semanas) e nao por falta de cuidados... ele deve estar vagando pela cidade de criciuma e se alguem desavisado encontrá-lo terá vontade de matá-lo (pelo tamanho ele certamente assusta). Concordo que é necessário controle de natalidade, mas matar... crueldade mesmo.
abraço

Fabiano Marques disse...

O bom seria Lilian, se você tivesse garantias de que a prefeitura da cidade iria recolher seu cão e que você o encontraria num centro de zoonoses alimentado e bem cuidado.
Infelizmente as tais secretarias do bem estar animal nada, ou quase nada, fazem. É uma vergonha!

Vico disse...

Então, não seria melhor fazer "ir dormir mais cedo" os caras que mandam nesses centros de controle de zoonoses?

lilian disse...

risos... neste sentido concordo com voce sim Fabiano. Quando perdi o cao fiquei feliz ao saber que na cidade havia um projeto de centro de controle de zoonoses, mas na verdade nao está funcionando. Da vontade mesmo de "adormecer" - para usar o eufemismo - os "prometedores".
Zanfra, ta aí... esta semana participei tres vezes, só pra fazer crescer o numero de comentários!
abraços

Marco Antonio Zanfra disse...

Este espaço não é cumulativo. Ter participado três vezes, fique sabendo, não lhe dará o direito de ficar três semanas ausente.

Fabiano Marques disse...

Constatação: Temos que arrumar um mega dormitório para agentes públicos em geral.
Mudando de assunto, notícia do dia no mundo das baleias.
Hoje, em Imbituba, no sul do Estado, 20 baleias passeavam juntas pela praia.
Deve ter sido sensacional. As imagens estarão daqui a pouco no RBSNotícias.

Anônimo disse...

Desculpe a demora.. tanto trabalho!!
Nao li muito sobre a baleiazinha, mas nao entendi a urgencia em "po-la para dormir".. Lindo eufemismo! Pensei que ela estava ferida ou ja em estado critico, mas nao!! Bem, a desculpa foi justamente essa de nao deixar chegar nesse estado..
Eutanasia... faz sentido, mas eu que nao queria ser a mao que desliga o aparelho de ninguem...

Anônimo disse...

Quanto aos caes e gatos, como gatofila vos digo: adotei meu gato (a Mayara conheceu)de um abrigo aqui nos USA que recolhe, trata, castra os animais abandonados e maltratados e depois de reabilita=los ajuda a encontrar um novo lar para eles. Fui voluntaria por um tempo e é a coisa mais impressionante ver o carinho que os bichinhos tem por aqueles que os bem tratam..

Marco Antonio Zanfra disse...

Minha anônima prima Cíntia, quando ainda morava no Brasil, tinha uma gata enorme, gorda, peluda, chamada Maria, que era a representação animal do "dolce far niente": ela passava o dia deitada no peitoril da janela, de frente para a rua, fazendo, com a língua, tratamento de beleza para os pêlos sedosos. Quando não estava se alisando, a Maria estava no meio da rua, esfregando-se carinhosamente nas pernas alheias. Um dia, ela estava na janela e tinha acabado de tomar seu banho de língua quando eu cometi a heresia de acariciar, com essa minha mão conspurcada sabe-se por quais microorganismos, seus pêlos recém-limpos. Nunca vou esquecer a cara com que ela me olhou: mais ou menos como se dissesse "putaqueopariu, vou ter que me limpar tudo de novo!!!"

Anônimo disse...

haha.. Ah minha MAria... Maria Callas erao nome completo.. Tao lindinha e teve um fim muito triste, que nao quero lembrar aqui ... As vezes so encosto a ponta do meu dedo no Flea (meu gato atual) e é suficiente pra ele repetir o que a Maria fez contigo :))
Cintia

Marco Antonio Zanfra disse...

Esse seu gato canta numa banda chamada Cat Hot Chilli Peppers?

Kim disse...

Voce esta certo! Ao contrario do que muita gente pensa, o Nome Flea nao foi uma homenagem as pulgas, mas sim ao baixista do Chilli Peppers.
Os entendidos dizem que os gatos gostam dos sons em "iiii", e acho que estao certos, pois ele atende muito bem ao nome.. vem voando de onde estiver.. se nao estiver dormindo, bem dito!
Cintia

Débora disse...

"Foi como se ele estivesse ido dormir!" Triste FIM.
Mesmo sendo da área da saúde, vendo sofrimento, dor e angustia, não consigo aceitar a eutanásia. Pobre filhote, quanto medo.
Mas quantas coisas sacrificamos, achando que seria melhor...Qtos sonhos, quantas expectativas.
Tadinho do filhote!
Beijos
Noiva do André (ele ainda não me sacrificou...hehe)

Anônimo disse...

Mudou a foto , por que?

Anônimo disse...

Nossa...
Um pouco triste este post hein...
Mas..
Tenho certeza que nenhum animal, por mais irracional que seja, tenha a capacidade de fazer algo que vá lhe tirar a vida...
E também ninguem tem esse direito (de matar alguem, ou desligar aparelhos para que vá dormir mais cedo), o unico que pode fazer isso é Deus.
Um abraço.
André
(Noivo da Débora, e que nunca irá sacrificar ela, aliás, não sei não..Heheehh)