segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Uma aventura no Rio


Recebo convite de Elisa Jung – aquela chinesinha que apresentava o Segredos da China na Globo, programete cujo término ainda continua sendo motivo de comemoração – para assistir ao pré-lançamento do filme Destino, ao qual ela empresta seu talento como atriz. Elisa conta que é a personagem principal da segunda parte do filme, cujo nome era para ser, inicialmente, O amor do outro lado do mundo, mas o que me chamou a atenção no convite foi o nome de outra integrante do elenco, que também funciona como produtora, a atriz Lucélia Santos.
Não foi entretanto a participação de Lucélia no filme em si, ou a associação de seu nome a uma produção que tem a China como palco, mas um passeio em meus arquivos de memória que a colocou como personagem em evidência dentro do convite gentilmente enviado por Elisa. É que eu me lembrei de que foi com ela, ainda em início de carreira, que eu vivi talvez minha primeira aventura como jornalista.
A aventura não foi exatamente – e infelizmente – com Lucélia, mas envolveu as circunstâncias em que se deu uma entrevista que fiz com ela, eu também em início de carreira, em 1978. Afinal, só pode ser chamado de aventura, ou porra-louquice, o fato de você viajar de São Paulo ao Rio tendo praticamente o dinheiro da passagem no bolso, sobreviver uma semana numa cidade estranha e ainda voltar para casa com o primeiro frila de uma profissão que, apesar de tudo, é capaz de provocar algumas lembranças boas.

Foi em novembro de 1978, durante o gozo de minhas primeiras férias como repórter da Folha – e essa informação inicial já serve para mostrar que tanto a Lucélia quanto eu já temos mais de 30 anos de carreira. Saí de São Paulo pré-pautado: tinha acertado com o competente Valdir Zwetsch, editor da revista adolescente Geração Pop, da Abril, que traria uma entrevista com Chico Buarque sobre os jovens e outra com o elenco do seriado Ciranda, Cirandinha, da Globo, também centrado nos jovens: Lucélia, Fábio Jr., Denise Bandeira e Jorge Fernando.
Tinha o telefone da casa de Chico, e a primeira coisa que fiz no Rio, logo depois de instalar-me num hotelzinho de quinta categoria próximo à praça Tiradentes, foi ligar para ele. Em vão: um problema no cabeamento na região da Gávea tornava impossível falar com o grande Chico Buarque de Holanda por telefone. A sorte – embora mais tarde veremos que isso de útil nada me trouxe – foi ter conseguido encontrar com ele na porta do Teatro Ginástico, onde Marieta Severo estrelava a peça Ópera do Malandro. Chico até se dispôs a uma entrevista, desde que encaixada entre as gravações do especial de final de ano que estava sendo produzido para a Bandeirantes, mas pediu que eu lhe telefonasse para marcar. Seu telefone, porém, continuou impraticável.

Paralelamente, consegui o telefone de Lucélia na sala de imprensa em frente à Globo, com uma repórter que cobria a emissora. A atriz morava numa cobertura da avenida Almirante Saddock de Sá, perto da lagoa Rodrigo de Freitas. Era casada com o maestro John Neschling. Lucélia foi um amor: atenciosa, depois de meia hora de entrevista, quis que o repórter a acompanhasse a uma apresentação sei lá de quem no Teatro Tablado. Sem um puto no bolso, o repórter deu um jeito de recusar, com o apoio tácito de Neschling – que, apesar da tentativa de mostrar-se simpático, nunca escondeu que não gostaria que o relacionamento se estendesse além daqueles 30 minutos de entrevista.
Aliás, esses 30 minutos com Lucélia Santos acabaram sendo meu único resultado vitorioso no Rio. Durante a semana que passei lá – ora almoçando, ora jantando, ora sem um nem outro (teve dia que passei com dois sonhos de padaria) – fui todos os dias à porta do Teatro Ginástico, na tentativa de encontrar-me novamente com Chico, já que o telefone só dava ocupado. E o que eu consegui, entretanto, foi somente encher o saco de Marieta Severo.
Todos os dias, quando ela estacionava sua Brasília azul – com o pára-lama dianteiro esquerdo ralado e o pára-choque sem a polaina – no subsolo do teatro, eu abria a porta do carro e ela descia com um sorridente, mas nem por isso menos incisivo, “você de novo?” Vale lembrar que Marieta mostrou-se bastante acessível e compreensiva e se dispôs a servir de ponte entre o entrevistador e o entrevistado. Até que ponto essa disposição foi sincera, não sei. Só sei que estou até hoje esperando pela entrevista.

Na volta a São Paulo, meu dinheiro foi suficiente para a passagem Rio-SP, para o ônibus da rodoviária até minha casa em Pirituba e para um croquete de carne numa das paradas do velho Cometão.
Minha permanência no Rio durante uma semana era tão improvável que fiquei sabendo, ao chegar, que a família tinha ligado para a polícia carioca, na tentativa de localizar meu cadáver. Fui recebido em casa com um monte de impropérios e de caras amarradas. A bronca pela porra-louquice da viagem era maior do que a alegria de me rever inteiro.
Mas houve a recompensa: a entrevista com Lucélia Santos foi publicada na edição de janeiro da Pop e rendeu um troquinho salvador.

9 comentários:

Bonassoli disse...

É como eu sempre digo: o Zanfra é O cara!

Anônimo disse...

ha ha.. Eu lembro disso!! E nos, os menores, sempre morrendo de inveja das aventuras suas, com bronca e tudo!
Perguntinha: A Elisa te mandou o convite mesmo sabendo o que voce escreveu da vozinha chata dela?

Voce tem copias de todas as suas entrevistas?

Beijao

Elisa disse...

Nossa, que aventura teve entre você e a Lucélia Santos hiem !! Pois é , ela vai estar lá no domingo, pena que você mora muito longe !

Ola, outra noticia para comemorar, eu não falo portugues no filme, minhapersonagem só fala inglês e chinês ! E eu não falo essas duas linguas com sotaque ! Viu que legal, vou te avisar quando for o lançamento oficial !!!

José Luiz Teixeira disse...

Pois é, hoje é tudo por e-mail, Zanfra. Não sei, não se é melhor ou pior. Que é bem mais fácil, isso lá é...

abs

Marco Antonio Zanfra disse...

Respondendo à Cíntia (a única anônima da relação): faz muito tempo que minhas únicas referências profissionais estão na memória. Deixei de manter um arquivo desde que saí da Folha a primeira vez, em 1984.

Anônimo disse...

Agora sou ex-anonima!

Errado! Tem que facilitar as coisas para o futuro e catalogar sua producao cultural!

Fabiano Marques disse...

Se não fosse o Neschling, o troquinho seria maior.

Francisco Castro disse...

Olá, gostei muito do seu blog.

Parabéns!

Um abraço

Anônimo disse...

Antes tarde do que nunca..
Mas ressuscitei das cinzas..

Bueno, quanto ao post, não sabia de tantas aventuras suas assim não...
Aliás, daria um belo filme com o título: Forrest Zanfra, o Contador de Histórias...
hahaahah...
E que sacanagem hein, te deixou esperando, e o pior, nem mandou você esperar sentado...
Hahaha...
Mas poxa, valeu e pena, ainda conseguiu a entrevista com a Lucélia.

Mas so pra terminar, 1978, nem imaginava que eu viria ao mundo, tá velhinho hein tio?
Kkkkk

Um abraço
André Campos