segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Sol nascente


Nos quase dois anos em que vivi no Japão, posso dizer que, empiricamente, conheci um pouco do modus vivendi japonês, das nuanças de sua personalidade e de seu comportamento. Digo empiricamente porque baseio minhas conclusões apenas no hábito de observar que um repórter, mesmo deslocado geograficamente e fora de suas funções, não consegue abandonar.
Além disso, não acho que seja preciso pós-gradução em antropologia ou outra ciência do comportamento para definir o que todo mundo já sabe sobre os traços de conduta nipônicos: que eles são educados – às vezes irritantes de tão educados – metódicos, respeitadores das normas, workaholics etc. etc. etc. Ou seja, quase uma antítese das linhas gerais que definem o brasileiro médio.
Por isso mesmo, por esse contramolde de comportamento, a absorção da mão-de-obra brasileira no mercado de trabalho japonês, a partir do final dos anos 80, foi um pouco menos que traumática. A anomia que acompanhava os grupos de dekasséguis quase como uma característica inata e um carma provocou cismas, segregações, preconceitos. Os brasileiros eram malvistos em muitos lugares e culpavam a xenofobia japonesa por essa rejeição; o comportamento desregrado deles próprios, em sua opinião, não tinha a mínima influência nessa manifestação de intolerância.
Bastaram alguns anos, porém, para que as coisas se ajeitassem. Os brasileiros não mudaram seu comportamento. Os japoneses não mudaram seu comportamento. O que houve foi um acordo tácito de coexistência pacífica. Passaram a viver no mesmo espaço, por exemplo, o japonês que fica na calçada da avenida vazia esperando o sinal de pedestre abrir e o motorista brasileiro que passa o sinal fechado sem o menor sentimento de culpa.
É certo que o Japão nem sempre é uma ilha indevassável de tranquilidade. Ali também acontecem crimes grotescos, também há gangues de jovens que buscam na violência sua auto-afirmação. Há os malditos bosozoku, baderneiros barulhentos e violentos que já viraram até videogame. E, entre os crimes hediondos, lembro-me do caso de um garoto de 15 anos que matou outro, de 11, cortou-lhe a cabeça e abandonou o crânio na porta da escola, com um bilhete enfiado na boca. Quer dizer, não é pouca coisa: o instinto assassino dispensa nacionalidade.
Os brasileiros têm sua parcela de co-autoria no lado obscuro das páginas da história do Japão. A última notícia, nesse sentido, vem da província de Aichi, onde morei durante um ano e quatro meses. Ali, cinco brasileiros fora presos acusados de matar um conterrâneo a facadas, para roubar drogas e 200 mil ienes em dinheiro (merreca: pouco mais de 2 mil dólares). Um ponto para a polícia japonesa é que o crime foi cometido com o uso de faca: lá não é fácil, como aqui, conseguir arma de fogo.
Mas o lado criminoso auto-suficiente do Japão também se manifestou recentemente: uma mulher esquizofrênica manteve a filha em cativeiro durante oito anos, tentando evitar que ela sofresse na escola e em contato com o pai males que só sua cabeça esquizóide conseguia enxergar. A moça foi resgatada em estado de abandono, mal conseguindo caminhar e se comunicar. O pai estava denunciando a possibilidade de a mãe estar mantendo a filha presa desde 2005, mas a polícia local nada fez.
Ponto para a influência brasileira: com quem será que a polícia aprendeu a prevaricar?

13 comentários:

vico disse...

Por que desmerecer os brasileiros? Eles podem ser um pouco bagunçados, mas são trabalhadores. Prova disso é que esse pessoal que foi ao Japão atravessou o Pacífico para trabalhar. Um voto de louvor a eles, pois.

Marco Antonio Zanfra disse...

Não os chamei de preguiçosos ou vagabundos. Chamei-os de mal-educados, relapsos, dotados de personalidade caótica. Em resumo: prova de que a influência de gerações e gerações de imigrantes não conseguiram alterar o arcabouço original deixado pelos degredados dos tempos da colonização.

nádia costa disse...

Acho que é até covardia comparar. A formação do Brasil-colônia veio dos restos que sobravam da pátria-mãe, Portugal; os japoneses têm uma cultura milenar. É de se espantar que eles, com essa estrutura toda, tenham se abalado com o clima meio desgovernado que os brasileiros levaram na bagagem.

Anônimo disse...

Prezado Jornalista.
É muito dificil analisar condutas de seres humanos em civilizações e culturas diferentes. No Japão quando o primeiro ministro é denunciado por corrupção, ele comete suicidio, aqui, se a lei permitir que um ministro senador corrupto possa se candidatar a qualquer cargo publico escolhido pelo voto, certamente ele será o mais votado.Para justificar a vitoria do Kassab, ha um coro de vozes orquestrada pela mídia, que Marta é arrogante. O Serra deu dinheiro para a campanha do Kassab, e não contente mandou dinheiro também para o candidato de Minas, mas com mineiro é diferente ,e o candidato do Aecio ganhou.
Um grande abraço
Maria Gilka.

josé luiz disse...

Zanfra,concordo em gênero, número e grau com você. Os "brazucas" não são moles, não. Lembro de um guarda inglês, indignado, ao prender um brasileiro que estava vendendo maconha em Londres. A indignação era por ter descoberto que a maconha era "malhada".

Cintia disse...

Haha.. Quer queiram, quer nao, cada cultura tem seu traco caracteristico que sim, pode incomodar o outro! Ca nos EUA (Illinois), tem os mexicanos, indianos, chineses, poloneses, brasileiros, etc.. Mas confesso que meu santo nao bate bem com os indianos, em termos de conduta.. Mas, infelizmente os brasileiros nao tem boa fama no exterior, nao!

Cintia disse...

Ontem fui dormir feliz!
Os EUA me surpreenderam e me emocionei com as eleicoes! Finalmente estao crescendo e saindo da casca! Desculpe usar seu blog, é que estou muito contente!

Marco Antonio Zanfra disse...

Sinta-se à vontade para usar este nosso espaço, já que é para comemorar a vitória do Obama. Certamente você não encontraria tanta receptividade se quisesse se emocionar com a vitória daquele outro, que tem aquela mulher como vice.

Cintia disse...

Voce nao imagina o alivio que senti! E olha que para um pais como este, foi um feito e tanto!
Mas aquela senhora... agora aguenta, pois ela esta se sentindo a ultima coca-cola do deserto e ela voltara!

Marco Antonio Zanfra disse...

Ontem à noite, no Jornal Nacional, fiquei procurando uma bandeirinha do Brasil tremulando pelas mãos de minha querida prima entre os presentes no discurso do Obama em Chicago. Não sei se você não estava lá ou se a Globo não quis te mostrar. Pelo que calculo, deve dar para ir a pé de Aurora a Chicago. Você não foi mesmo?

cintia disse...

Nao fui... Aurora fica mais ou menos uma hora a oeste de Chicago, and os resultados sairiam por volta das onze horas.. Nao ia dar mesmo! Mas eu estava la em espirito!

lilian disse...

Continuando o comentario da Cintia, confesso que minha irritação com os norte americanos -demonstrada no ultimo blog - abrandou com este resultado das eleições...

Cintia disse...

Minha cara Lilian.. mas ainda ha aquele mar de gente que se sente "inspirado" por uma mulher como a Sara Palin, que prega a ignorancia, racismo, creacionismo e extremo conservadorismo, entre outras barbaridades..
Mas ja foi um comeco..