segunda-feira, 27 de outubro de 2008

No banco dos réus


O juiz Marion Polky, do condado de Douglas, em Nebraska (Estados Unidos), negou-se a dar prosseguimento a processo que o senador Ernie Chambers interpôs contra Deus, na tentativa de, por força de mandado judicial, impedi-Lo de continuar castigando os pobres humanos com terremotos, furacões e enchentes. O magistrado considerou o processo inviável, sob a principal alegação de que o Acusado não tem domicílio conhecido.
Ora, ora, ora... pois eu acho que essa decisão só serve para confirmar, mais uma vez, a máxima de que a Justiça só existe para punir pretos, pobres e prostitutas. Como assim, não tem domicílio conhecido, se o próprio departamento de marketing do Réu vive apregoando que Ele está em todo lugar? Para intimá-Lo a defender-se num provável crime de responsabilidade, bastaria citá-Lo em praça pública, num edital que poderia ser colado a qualquer poste. Onipresença tem suas vantagens e suas desvantagens.
Seria mais crível que o juiz alegasse incompetência da justiça estadual para obrigar o Senhor a evitar raios, trovoadas e vendavais para aliviar Seu destempero nos dias em que levanta com o pé esquerdo. A parte litigante que se julgasse prejudicada que recorresse a outra instância. No Brasil, por exemplo, nós temos o STF, cujo nome Supremo deve servir justamente para casos assim. Nos Estados Unidos, não sei.
Mas o senador Chambers – que na foto ao alto fica com um quê de João Batista, graças à aura emprestada por um ventilador – acabou negando que sua intenção fosse efetivamente proibir o Criador de provocar cataclismos. Ele alegou que queria apenas mostrar que qualquer pessoa pode impetrar uma ação judicial contra quem quer que seja – incluindo Deus – sob qualquer alegação.
Se era isso que queria, tudo bem, conseguiu. Mas nós, que seguimos insatisfeitos com os rumos que a Humanidade está tomando, poderíamos aproveitar o gancho fornecido pelo senador para cobrar d’Ele a responsabilidade por certas atitudes intempestivas tomadas nos, digamos, últimos 20 anos. Precisava, por exemplo, provocar as tsunami que varreram o Sul da Ásia em 2004 e deixaram um rastro de mais de 285 mil mortes?
E o terremoto na China em maio deste ano? É certo que os chineses são a maior população do Globo, mas precisava aliviá-los em 80 mil viventes de uma só vez? E os 35 mil mortos do terremoto na Cidade do México em 1985? E os 1.500 mortos do furacão Katrina? A que serviram as imolações desses milhares de inocentes, a não ser para o desabafo de sabe-se lá que Ira Divina?
Tem mais: além dos aguaceiros, ventanias e tremores, podemos cobrar explicações para as milhares de vítimas da chamada “guerra santa” travada em Seu nome – ou de Seu condinome Ala, também conhecido como “Alá/Alá/Alá, meu bom Alá!”. Só nos atentados contra as Torres Gêmeas, em 2001, foram seis mil. Se formos contar, um a um, todos os carros-bomba e todos os homens-bomba que vêm sendo detonados desde o início dos conflitos no Oriente Médio...
Então, Senhor, propomos um acordo: será que não é hora de dar um breque, antes que resolvamos levá-Lo de verdade à barra dos tribunais?

10 comentários:

fábio mello disse...

Se fosse aqui, o Gilmar Mendes garantiria o habeas corpus.

Cintia disse...

Aqui nos EUA existe a Supreme Court, mas nao sei se é a instancia das acoes divinas..Tinha tambem o conjusto das Supremes (Diana Ross), mas ja faz muito que se acabou..
Agora esse Senador querendo chamar atencao gastando o dinheiro publico desse jeito? Ah.. Tenha SANTA paciencia!!

Vibo disse...

Se um processo assim voltar a ser aberto, Deus pode fazer o que muitos bandidos de filme americano pensam em fazer: fugir para o Brasil. Aqui, na terra da impunidade, ele não iria ser molestado.

Anônimo disse...

Concordo com a Cíntia: ele não tem nada de mais construtivo a fazer do que ficar enchendo a justiça com processos ridículos?

Méri

Breno Reston disse...

Como estudante de Direito, comecei a calcular as indenizações que seriam cobradas de Referido Senhor, caso as vítimas de catástrofes resolvessem acioná-lo, e concluí que Ele levaria uma Eternidade para quitá-las.

Fabiano Marques disse...

hahaha
excelente texto.
Tal qual o comentário do Fabio Mello sobre o G Mendes.
Agora, os números do controle populacional são corretos. Senão chega uma hora isso aqui tá saindo pelo ladrão. hehehehe
abrassss

Cintia disse...

Quanto mais eu penso, mais me pergunto: quem é realmente nosso Deus? Ele é o do Velho Testamento ou do Novo? To comecando a achar que a ideia de bondade e candura nao corresponde aos atos.. Nesse caso, a acao movica pelo senhor da foto nao e tao descadiba assim.. Uma das melhores passagens literarias que ja li foi quando Jesus teve um encontro no meio do mar, entre espessa nevoa para encobri-los, com Deus e o Diabo, no livro do Saramago "O Evangelho Segundo Jesus Cristo".. Achei demais!

Marco Antonio Zanfra disse...

Dizem os metafísicos que cada um tem o seu Deus. O meu tem uma característica toda própria: não é terceirizado.

Carlos Martí disse...

Destinatário não encontrado.

lilian disse...

EM TEMPO: Zanfra, fiquei irritada com a petulancia do senador ai dito. Ora essas, nao quero defender Deus, mas os norte americanos ja se perguntaram qual a sua contribuição em cataclismas? Fala sério, quanta besteira e falta do que fazer! Se acham os próprios Deuses mesmo...