segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Eros e Tânatos


Quem assistiu a O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima – talvez o primeiro filme erótico explícito a passar em circuito comercial, e isso em 1980 – surpreendeu-se, quase ao final, com a cena da castração do personagem Kichizo, devidamente providenciada por sua amante Sada, como forma de tê-lo apenas para si.
Foi uma cena sangrenta, reconheço, que provocou reações entre revoltadas e nauseabundas da platéia. Lembro-me de gente que saiu da sala de projeção para vomitar no banheiro, mas não é improvável que alguns tenham vomitado antes mesmo de conseguir chegar aos sanitários, embora o escurinho do cinema, felizmente, não tenha permitido a visão da cena.
Sanguinolência à parte, a penectomia era, acho, a consequência natural do domínio que Sada passara a exercer sobre o antes dominador Kichizo, durante o tempo em que ambos entregaram-se sem limites ao prazer. Sada sempre tomou as rédeas – chegou a conduzir o amante puxando-o pelo pênis, transformado em cabresto – e manteve-se literalmente por cima: tanto que um dos diligentes representantes da censura, que manteve o filme por quatro anos na gaveta, chegou a classificá-la de “anormal” justamente por subverter a postura de ficar por baixo do homem.
Kichizo, dominado e entregue aos caprichos da possessiva Sada, chegou a permitir seu próprio estrangulamento – como fórmula para buscar o aumento do prazer sexual – pouco antes de sucumbir à emasculação. Apesar de todo o simbolismo do filme, a castração propriamente dita não foi simbólica: Sada decepou mesmo o pênis do amante e saiu enlouquecida pelas ruas, levando nas mãos o ensanguentado símbolo de seu poder, sua dominação e sua posse.
O Império dos Sentidos foi rodado em 1976, mas, ao que consta, baseou-se numa história real, acontecida 40 anos antes. Tido como símbolo de poder e glória masculinos, o falo extirpado apresenta o contraponto do derruimento desse poder e glória, representando o fim da subjugação pela “derrubada do poder”. Simbolicamente, a essência do homem é concentrada em seu pênis, e, menos simbolicamente porém, entende-se a desvirilização como a forma de tomar para si, somente para si, essa essência.
Claro, porém, que uma rosa tirada à roseira tende a murchar. E é claro que um pênis extirpado não terá condições de cumprir as funções para as quais foi projetado. Sada, enlouquecida, e mesmo a mulher real que inspirou o filme, talvez não tenham pesado as consequências de seu extremismo, porque não queriam punir ou vingar-se do jugo, mas apenas capturar a essência de seu homem. E isso é diferente do caso ocorrido agora na Austrália, onde a intenção da mulher de 44 anos que lançou um líquido inflamável sobre o membro viril do marido e ateou fogo era justamente castigá-lo por uma suposta – e não comprovada - infidelidade. "Eu só queria queimar o pênis dele porque ele pertence a mim e a ninguém mais”, defendeu-se a mulher.
O homem morreu. A mulher está presa e será submetida a avaliação psiquiátrica. Por pouco, o incêndio provocado na casa pela punição ao marido não matou também os três filhos do casal.

8 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Jornalista.
Com tanta vida lá fóra, você foi dessenterrar um defunto que já era horrivel na sua época.
Se é para escrever sobre o passado por que não comentar a mini serie da Globo sobre a cantora Maysa?
Eu prefiro o presente.; Gostaria de saber a sua opinião sobre a "Folha" ter publicado umna reportagem de pagina inteira denegrindo a figura de um medico famoso, com acusações gravissimas de 9 entre as milhares de suas pacientes , sendo que o nome das acusadoras não foram publicados só a do medico. Apenas o nome de uma enfermeira que foi demitida com sua foto apareceu na pagina do jornal.
Se existe um inquerito que corre sigilosamente o tal segredo de justiça, justamente para não se cometer uma injustiça como foi o caso da Escola Base, um jornal com a importância da Folha deveria ter mais cautela e não publicar indícios e suspeitas antes de serem provados o fatos.
Não vá me xingar, por eu discordar de você e sair do assunto dessa semana, um grande abraço
Maria Gilka.

Anônimo disse...

Oi Zanfra.
Acho interesssante o assunto, porém fico temeroso em mexer com uma coisa que faz tanto tempo que aconteceu. Acredito que dependendo da repercussão do comentário nos dias atuais possa assumir, alguns desdobramentos podem surgir e fugir ao nosso controle.
O fato é que as mulheres são muito sugestionáveis. E quem tem p... tem medo. ("não mexe com quem tá quieto").

Um abraço,

Jacinto.

Frank Maia disse...

Tava curtindo a filosofada sobre a tomada do poder do falo e fui ler os comentários...alguém se ofendeu, foi isso?

Marco Antonio Zanfra disse...

Alguém sempre se ofende. Freud já explicava. Parece que era uma tal de inveja...

Vico disse...

Pô, e precisa cortar por causa de inveja!?!

Blog do Morani disse...

13/01/09

Caro Zanfra:

Assisti, sim a esse filme. À época achei muita violência a usada por Sada, que era incorrigívelmente viciada em cópula. O que li acima, tem sua razão de ser: num mundo violento como o nosso é bem capaz uma mulher, que tenha porventura tomado conhecimento de seu comentário, usar do mesmo gesto para cometer vingança ou seja lá que motivos tenha para perpetrar o ato que levou realmente muitos a vomitarem.
Gostei de seu comentário e de ter ido ao passado trazendo à tona o primeiro filme erótico do cinema japones. Não vi nada demais a sua abordagem, após tantos anos. Isso demonstra a sua abrangência em matéria de assuntos que marcaram época. Abraços.
Morani

Anônimo disse...

Em minha opinião, a abordagem do filme quis ressaltar que pela primeira vez a mulher aparece dominadora ao estar por cima numa relação. Daí a cortar o objeto sexual do parceiro já é algo doentio,porque afinal ela estava no papel "da outra". Sem querer ser sádica.....a mulher original não tinha nada com isso e foi totalmente prejudicasa...owww dó.

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
A cena aberrante desse filme inescrupuloso e sadomasoquista vai de encontro à obra prima de Deus que fez o homem,a mulher e os animais se completarem em um ato de amor através do sexo.A má informação divulgada através de filmes e revistas pornográficas sobre o relacionamento sexual,geralmente afeta a mente de um adolescente que está em formação e conseqüentemente (com o trema) se tornará um adulto desinformado e com uma mente doentia no formato de Sada e Kichizo.Infelizmente, esse tipo de descompasso comportamental é patente no cotidiano de algumas pessoas,é só verificar as notícias impressas, televisivas e radiofônicas de crimes passionais regado às taras.