segunda-feira, 23 de março de 2009

Em vez de

Algumas recomendações que o papa Bento 16 divulgou na semana passada trouxeram-me à lembrança uma antiga piada, tão antiga quanto a pílula anticoncepcional, cujo contexto tem tudo a ver com a postura papal. Trata-se – a piada – daquela que revelava as propriedades miraculosas do uso de suco de laranja como método contraceptivo, com uma ressalva dramática, porém: o método não devia ser aplicado nem antes nem depois do, digamos, colóquio amoroso, mas “em vez de”.
Pois ao dizer que “a distribuição de camisinhas só piora o problema da Aids; é preciso estimular a abstinência sexual”, sua santidade traz para os dias atuais, com a solenidade que cabe a um pontífice, a tese do “em vez de” da antiga anedota. É algo que parece mais ou menos lógico: se não quer estar permeável a doenças sexualmente transmissíveis, fuja do sexo; se não quer morrer envenenado, não tome veneno; se não quer arriscar-se a uma gripe, não respire.
Aliás, não só à sonhada e até então inatingível cura da gripe pode ser aplicada a solução mágica do santo padre: já imaginou quantos males poderiam ser evitados se, antes de arriscar-se, submeter-se, imolar-se, usufruir-se ou conspurcar-se, as pessoas optassem por uma terceira via, uma negação completa das hipóteses disponíveis, para a escolha de uma alternativa aparentemente desconexa, tipo nenhuma das resposta anteriores?
A abstinência pode ser uma solução radical em muitos aspectos, desde que o suco de laranja não seja reservado como única alternativa: se ninguém entrar na água, por exemplo, será sensivelmente reduzida a incidência de afogamentos; se as pessoas desistirem de escovar os dentes e banhar-se, certamente a reserva hídrica na Terra terá uma sobrevida muito mais longa.
Mas, mesmo correndo o risco de parecer flertando com o moralismo, acho que Bento 16 não fica a dever sobre ter suas razões. Afinal, desde que foi comprovada a teoria do “lavou, tá novo!”, o sexo vem sendo praticado de uma forma um tanto contínua e indiscriminada na face do planeta. Se houvesse menos promiscuidade, é certo que a Aids não teria atingido os níveis que atingiu, e tanto não seria preciso estimular o uso de camisinhas quanto optar pela radicalização do suco de laranja.
Só acho que abstinência é uma palavra um tanto pesada e irreal. Moderação talvez soasse melhor. Mesmo porque, se a abstinência fosse uma condição menos inatingível, a própria igreja não estaria eivada de tantos escândalos sexuais.

25 comentários:

Carlos Martí disse...

Marco, às portas dos 53, não penso nem me abster, nem moderar. Bastante tenho com a redução drástica, inversamente proporcional aos anos cumpridos, e à que a vida tem-me submetido muito a contra-gosto.
Muito boa sua analogia com a ingestão veneno, com uma reserva, ainda não encontrei nenhum prazer em semelhante atividade o que, em si só, já me provoca o necessário desestímulo.
Agora, contra a inverossímil proposta de Ratzinger, os versos do poetinha: "que seja infinito, enquanto dure". Isso sim, com preservativo, hoje, nas cor, tamanho, grau de sensibilidade,fetiche ou diversão adicional que se possa imaginar.
Um abraço e a desfrutar.

Carlos Martí disse...

Com sua permissão, aproveito seu espaço para fazer publicidade do meu blog de (quase) ficção, em dois endereços alternativos:

http://www.afamiliamata.es.tl/

http://afamliamata.blogspot.com/

Ambos com o mesmo conteúdo.
Leiam, comentem, critiquem, corrijam.

Um abraço

Carlos Marti

José Luiz Teixeira disse...

O Ratzinger e seu grupo estão querendo cada vez mais sectarizar a igreja católica, restringindo-a aos mais puritanos e atrasados fiéis. Sabe por quê? Porque dessa forma, ainda que com menos fiéis e dízimos, eles se mantém no poder. Simples assim.

Marco Antonio Zanfra disse...

Carles, a publicidade de seu blog é redundante, porque "A família Mata" está listado à direita desta página, entre meus favoritos.

Cintia disse...

Só porque eles nao podem, nao querem deixar ninguem gozar a vida, com perdao do trocadilho..
E primo, voce está apregoando agora a "moderacao" só porque já se esbaldou na sua juventude, né..

Fabiano Marques disse...

Que moderação, que nada! Pare de ir à Igreja!

Anônimo disse...

É o Lula de Batina.Quanto mais os dois falam,mais erram.Só faltava ele disparar:"Os companheiros católicos devem ter MENAS vontade de transar".E quando no início de seu pontificado,diante de tantos escândalos de homossexualismo e pedofilia, exigiu que os candidatos a sacerdote,com tendências gays,deviam provar que há três anos não queimavam,digo,não tinham contato íntimos com outros do mesmo sexo?Existe ex-gay,ou meio grávida?Como comprovar a autenticidade da abstinência?

Rui Zanfra

Marco Antonio Zanfra disse...

Já ouviu falar no teste da farinha, Rui?

Blog do Morani disse...

24/03/09

Salve, Zanfra!

Os comentários de hoje, neste espaço, já preencheram todos os requisitos para as respostas de seus leitores de sempre, mas quero me juntar aos comentários de Carlos Marti e do também bastante apreciado
EscutaZé - José L. Teixeira. Em vista disso, torna-se totalmente inócuo qualquer comentário de minha parte. Só gostaria de saber se os textos da Familia Mata são exertos de alguma novela ou romance. Tomei a liberdade de lê-los. Ignoro se antes já foram editados outros. Então, fico sem saber se são ou não trechos de um provável futuro livro de memórias.
Gostei dos textos e de seu comentário crítico.
Abraços
Morani

Marco Antonio Zanfra disse...

Sobre "A família Mata", deixo a resposta para o considerado Carlos Enrique Marti Hernandez.

Carlos Martí disse...

Morani, o genro dos Mata já deixou um recadinho para vc lá na família Mata, espero que suficientemente elucidativa.

Çintia, o que vc acha de se unir à campanha internacional pela preservação da cedilha? Todos os idiomas cedilheiros por uma só causa!!!!!!!

Blog do Morani disse...

25/03/09

Usando com liberdade este espaço, oferecido pelo excelente Zanfra, declino meus sinceros agradecimentos, Sr. Marti, por sua atenção.

Cordialmente
Morani

Vico disse...

Tenho uma singela recomendação ao santo padre: cuide de seu galinheiro, evite que seus frangos saiam ciscando por aí, antes de controlar a ração dos outros.

Çintia disse...

Marti, eu Adoro a cedilha.. meu teclado nao tem, entao eu preciso ficar pescando cedilhas dos textos alheios para copiar e colar.. isso quando eu tenho tempo. Faço a mesma coisas com os acentos..
Agora o que me deixou muito triste foi terem descartado o trema! Adoro o trema, acho que da um charme assim meio gótico à nossa língua..(acabei de roubar a crase do seu texto).
Eu adorava ler Asterix - ainda adoro - pois eles usam as letras graficamente compatíveis à língua..

Agora vou assinar assim: Çintia.. Gostei!

Marco Antonio Zanfra disse...

É, tirarem o trema foi sacanagem. Agora, nunca mais trema em cima de linguiça...

Carlos Martí disse...

Çintia, imagino que se você configurar seu sistema para ter a opção de mudar o teclado, disporá do "ç", feito isso é "só" localizar a tecla ou combinação delas. Quando você fizer isso, prometo, mando uma "ç" especialmente desenhada e vc cola na tal tecla. Se for o computador do trabalho, melhor. Assim fica patente e público o direito a ser "cedilhófono" (relativo a idiomas de fala com cedilha incluída, como o português, o francês ou o catalão). Viva a cedilha!!!!!!!

P.Ç.: Já fiz muito isso de caçar acentos e crases em textos alheios para colar no meu.

P.S.: Prefiro maionese em cima da linguiça.

Çintia disse...

Adoro Catalan!!
"que volen aquesta gent que truquen de matinada"
Ainda vou conseguir falar.. por enquanto apenas canto :)
Mas maionese na linguiça, meu caro Carlos, nao dá!

Carlos Martí disse...

De matinada han trucat, són al replà de l'escala;
la mare quan surt a obrir porta la bata posada.
«Què volen aquesta gent que truquen de matinada?»
«El seu fill, que no és aquí?» «N'és adormit a la cambra.
Què li volen al meu fill?» El fill mig es desvetllava.
«Què volen aquesta gent que truquen de matinada?»
La mare ben poc en sap, de totes les esperances del seu fill estudiant, que ben compromès n'estava.
«Què volen aquesta gent que truquen de matinada?»
Dies fa que parla poc i cada nit s'agitava. Li venia un tremolor tement un truc a trenc d'alba.
«Què volen aquesta gent que truquen de matinada?»
Encara no ben despert ja sent viva la trucada, i es llança pel finestral, a l'asfalt d'una volada. «Què volen aquesta gent que truquen de matinada?»
Els que truquen resten muts, menys un d'ells, potser el que mana, que s'inclina pel finestral.
Darrere xiscla la mare.
«Què volen aquesta gent que truquen de matinada?»
De matinada han trucat, la llei una hora assenyala.
Ara l'estudiant és mort, és mort d'un truc a trenc d'alba.
«Què volen aquesta gent que truquen de matinada?»
(Lluís Serrahima)


Ou como diria Julinho "Buarque" da Adelaide:

Acorda amor
Tem genta já no vão da escada
Se correr o bicho pega
Se fica não sei não
Que aflição nñao sei não
Era a dura
Numa muito escura viatura


¡¡¡¡¡Visca Catalunya, un dels dos pobles més combatius d´açi!!!!!!
(Carlos Martí)

Çintia disse...

Genial! Nunca tinha feito a relaçao entre as duas musicas! Praticamente a mesma situacao, com a diferença que "Acorda Amor" é meio tragicomica, enquanto a "que volen.." é tragica. Tenho essa musica com a Maria Del Mar Bonet e com a Meritxell Naranjo, uma jovem cantora catala - que conheci pessoalmente quando estive em Barcelona.
Amo Lluis Llach, Serrat, Roger Mas, y otros mas..

Essa lingua e muito linda!
Mas fiquei frustrada pois procurava revistas em catalao pelas bancas de jornais da cidade e encontrei muito pouco!

Carlos Martí disse...

Isso deve ter sido faz mutio tempo, suponho. Agora, o difícil é encontrar alguma publicação que não seja em català nas ruas de Barcelona.

Carlos Martí disse...

Você esqueceu de Raymon, valenciano com alma catalã, como eu.

Carlos Martí disse...

Entrevista con la madre del niño que nació seleccionado genéticamente para salvar a su hermano:

http://www.cadenaser.com/sociedad/audios/entrevista-madre-nino-nacio-seleccionado-geneticamente-salvar-hermano/csrcsrpor/20090327csrcsrsoc_1/Aes/

Çintia disse...

CArlos, estive em Barcelona em Abril/08, e talvez pela cara de gringo do meu marido, nao ouvi ninguem falando em catalao, tampouco consegui revistas nessa lingua. O que consegui comprar foi uma "Sapiens" cujo tema do numero era "Els morts oblidats- tota la informacio sobre les fosses comunes a Catalunya" - com um booklet contendo nomes dos mortos por Franco e respectiva locacao funeraria. Triste..
NAo conheco o Raymon e nao consegui achar nada no I-Tunes ou Last.fm. Quer dizer, vieram uns nomes compostos, mas nao sei se ele estava entre esses nomes.

Çintia disse...

Explicando melhor a cara de gringo do meu marido.. so falavam em Espanhol com a gente..

Carlos Martí disse...

Desculpe, o correto é Raimon, cuja canção "Al vent" foi um dos iconos da resistência nos tempos de ditadura:

http://www.youtube.com/watch?v=AbK1L7SynU8