segunda-feira, 16 de março de 2009

Admirável Mundo Novo 2

Os meus poucos, mas seletos e fiéis leitores, devem lembrar-se de que recentemente – em 20 de outubro, para ser exato – citei aqui, sob o título “Admirável Mundo Novo”, a história do bebê Javier, que foi gerado na Espanha, a partir de seleção genética, com a missão de salvar a vida do irmão, Andrés, acometido por uma enfermidade congênita incurável.
Pois bem: volto ao tema para anunciar que o ciclo salvador, iniciado com a escolha do embrião que estivesse livre da patologia conata a ser derrubada, acabou de fechar-se. Com a transfusão de sangue do cordão umbilical do recém-nascido, a anemia hereditária que condenava Andrés a seguidas transfusões foi superada, e a “missão” do bebê selecionado geneticamente foi cumprida pouco mais de cinco meses após seu nascimento, quando os médicos falavam em quatro ou cinco anos para isso.
Claro que falar em “missão” deixa a idéia de que o pequeno Javier simplesmente cumpriu o objetivo para o qual foi criado e que, portanto, sua existência não é mais justificada, mas felizmente não funciona assim. Não chego a duvidar de que num futuro terrivelmente remoto a seleção genética tenha “missões-fim” e os bebês sejam gerados de forma descartável para funções específicas, mas por enquanto ainda somos seres humanos e os bebês são apenas bebês, destinados a tornarem-se cidadãos logo mais.
Vale lembrar, porém, a ressalva feita pela psicóloga Lílian Schulze a respeito de possíveis seqüelas psicológicas que possam perseguir Javier. Afinal, ele foi gerado com o objetivo salvador – acho que não dá para fugir da palavra “missão” – e isso pode pesar futuramente em sua estrutura emocional.
Ainda mais que os espanhóis o apelidaram – carinhosamente, é claro – de “bebê remédio”. Imagine-o, com a personalidade em formação, saber que foi gerado como um remédio, com a finalidade única de salvar uma vida. Claro que ele pode ufanar-se pela amplitude de seu destino, mas claro também que pode julgar-se indesejado, rejeitado, caso não houvesse uma “missão” que justificasse sua gestação. Mas, pensando bem, esse é um assunto secundário, que foge do tema que eu quis originalmente abordar: o admirável mundo novo, que busca, através da ciência, livrar o ser humano das imperfeições, das moléstias incuráveis, das deformidades, das limitações, dos males, da morte prematura. Javier é exemplo de que o homem pode aprimorar-se, fugir do destino que alguns crêem indefectível e buscar o círculo periférico mais próximo da perfeição.
Creio que os espanhóis tenham enfrentado forte resistência, principalmente religiosa, para chegarem ao “milagre” de Andrés e Javier. Compreensível, mas não totalmente aceitável: no dia em que a religião flexibilizar seus dogmas – e esperamos que eles o façam o mais breve possível – a humanidade estará mais próxima de procurar configurar-se à imagem e semelhança de Deus.

12 comentários:

Mário Monjardim Filho disse...

Feliz, felississimo o seu comentário sobre o "bebê remédio". Espero que a igreja limite-se a tratar da fé e não ficar se impondo à ciência,atrapalhando o seu desenvvolvimento e suas conquistas para o bem da humanidade.

disse...

Excelente post!

Cintia disse...

Sera que a selecao natural tera que se aprimorar, se adaptar, driblar a ciencia para que continue exercendo seu poder?
Quanto ao "Bebe-Remédio", ao meu ver essa é mais uma razao para que ele seja amado por todos.
Beijos

Anônimo disse...

Prezado Zanfra
Penso que o Senhor do Universo e nossa Mãe Natureza mandaram Javier para concretizar nossa fé em "Tudo posso Naquele que me fortalece" e "Amai-vos uns aos outros como a ti mesmo", que chega ao final de sua matéria - "a humanidade mais próxima à imagem e semelhança de Deus"-.Você disse tudo sobre o tema e fez essa maravilhosa matéria. Espero que Javier seja criado como uma criança normal,"missionária",sim,desde sua concepção.Que não seja super hiper protegido que não seria legal também.
Me arrepiou a idéia de bebê descartável,embora a midia nos mostre casos horríveis...jogados no lago,na lixeira...enfim.
Mas Javier veio para salvar e a sua missão estará,com certeza,bem supervisionada por Deus.

Vico disse...

Acho que você deu o tom: nada como o homem buscar "configurar-se à imagem e semelhança de Deus" para sossegar o facho dos católicos radicais.

Lílian disse...

Olá Zanfra! Como vai??? Fiquei surpresa em descobrir que ainda sou citada em seu blog. Que honra! mas me deparei com um blog de cara nova. Como é que é isso???? vc tem dois? com mesmo endereço... ai socorro, quero me atualizar :-)
abração

Lilian disse...

Agora, quanto ao conteúdo do blog... me desculpem, mas continuo achando injusto a missao do pequenino... prefiro acreditar que seus pais tiveram uma "motivação a mais" para planejar sua chegada... que, de lucro, ajudou o irmaozinho.

Carlos Martí disse...

Se para muita gente ainda parece insuficiente motivação o amor de irmão - mesmo que inconsciente - para que o pequeno Javi venha ao mundo, muito mais difícil será convencê-los com argumentos racionais. Se já não me surpreende a subjetividade dos argumentos creacionistas, inesperado parece-me o pragmatismo de psicólogos ao esgrimir possíveis seqüelas por alguém crescer sentindo-se muito ou pouco valorizado por ter sido produto de uma gravidez escolhida a dedo. Quem diria que um dia estaríamos discutindo a gravidez desejada. Coisas da moral vigente.
Desculpem, mas sou incapaz de entender qual é o verdadeiro problema que possa exisitir em querer salvar vidas, principalmente considerando-se que não se põe em risco outras, como no caso dos doadores em vida. Sobretudo, o risco de ufanar-se também é mais do que provável e, se bem que este doador decide por si mesmo, algo a que não está capacitado Javier que, em compensação, terá a oportunidade de receber progressiva e paralelamente à sua educação, toda a informação desprovida de preconceito, sobre uma nova capacidade humana de salvar vidas. Algo do que acredito serão capazes de passar aos filhos, pais tão corajosos e destemidos como inovadores, tão capazes de amar Andrés como Javier. Nunca é demais lembrar que o trabalho dos pais não finaliza com a concepção, encomendada ou não.
Suponho que deveríamos nos esforçar em enxergar um pouquinho mais além, sabedores de que a concepção deste e dos muitos javieres que virão não só tratam de inaugurar o mundo novo do I+D, mas esperamos, seja o início de uma nova sociedade em que sejamos capazes de discutir casos como este, não à luz de crendices ou ideologias do obscurantismo e superstição, mas da tolerância e solidariedade. Lembro que as forças propagadoras do conservadorismo já se esforçaram, ao longo da história, por bloquear a união entre homossexuais, o aborto em casos de gravidez não desejada ou uso de métodos anticoncepcionais, estes, alvo da intolerância do “ideólogo” Ratzinger, durante sua visita esta semana a uma África cuja população segue sendo dizimada vítima do HIV e em que 90% dos habitantes sexualmente ativos segue sem fazer uso dos preservativos. Se tudo isso não fosse suficiente para desacreditá-los, podiamos recordar ainda a resistência histórica por reconhecer os direitos da mulher como votante ou como trabalhadora, ou em reconhecer que a terra é redonda, que gira ou que não é o centro do universo. Questões que hoje nos parecem risíveis, mas que, em dado momento foram alvo de dúvidas e de argumentos outrora tão irrefutáveis como os que hoje julgam a decisão de ter um filho para salvar outro. Porque é tão difícil aceitar uma processo de depuração biológica para uma sociedade que legitima a crueldade da seleção social como forma de privilegiar uns e preterir outros?

Carlos Martí disse...

Marco, em todas as entrevistas que a mãe de Andrés e Javier concedeu aos meios audiovisuais, ela preocupou-se, mesmo não perguntada, em sublinhar que já estava nos planos dela e do marido ter um segundo filho, como se defendendo da acusação de procriação. Se o futuro der alguma razão a aqueles que falam em conseqüencias psicológicas para Javi, deveriamos nos sentir responsáveis toda a sociedade, pela pressão que exercemos sobre a que deveria ser hoje a mais feliz das famílias.

Marco Antonio Zanfra disse...

Lílian: não entendi essa de dois blogs no mesmo endereço; estou repetindo o "Fala, Zanfra!", integralmente, no espaço de blogs do Terra - para uma eventual mudança, se for necessária - mas o blog "matriz" continua sendo este do Blogger.
Carles: palavras sábias, ponderadas, dignas de uma profunda reflexão. Só não entendo como, com todo esse cabedal, você consegue torcer para o Corinthians!

Carlos Martí disse...

Também me sinto incapaz de explicar.

Zélia Pinheiro disse...

Zanfra e Carlos, O legal deste espaço é a rapidez com que conseguimos passar de um assunto sério pra uma gozação tipo"como você consegue tocer para o corinthians".Ora Zanfra, nem tudo é perfeito, ele parece alguém muito especial, mas tem um defeito né? rsrsrsrsrs. Agora é sério: como as autoridades ainda ficam encabuladas com a pressão da igreja? adorei a postura do cirurgião do Recife(excomungado) que não se encabula mais com a pressão e vai à missa e comunga tranquilo. Afinal qdº é que vamos agir baseados na ética e livre de pressão? Qdº é que de fato seremos um Estado laico? a igreja não solta o osso mesmo!!!!!!!!!!!!!
Bjs, Zélia