segunda-feira, 2 de março de 2009

O país do sol poente

Parece meio contrassenso, mas a Globo resolveu emplacar um correspondente fixo no Japão logo agora que a chamada geração dekasségui parece estar chegando ao fim. E foi justamente com foco no ocaso desse período de himanshita meushivacas gordas, numa tradução complacente comigo mesmo – que a emissora inaugurou sua nova sucursal.
O que o repórter Roberto Kovalick mostrou em sua estreia foram cenas tristes de trabalhadores desempregados, de famílias passando fome, morando em abrigos e dependendo da solidariedade de outros brasileiros para ter um prato de comida. Foram cenas de – outro contrassenso – brasileiros que saíram do Brasil em busca de dinheiro para ajudar os parentes que ficaram no Brasil e que agora estão dependendo da ajuda dos parentes que ficaram no Brasil para conseguir dinheiro e comprar a passagem de volta.
De dez anos para cá, o Japão de deixou de ser o eldorado que atraiu mais de 300 mil brasileiros desde o final dos anos 80: as horas extras (zanguiô) foram sendo sumprimidas, as vagas de emprego foram escasseando e os trabalhadores estrangeiros ficaram cada vez mais recorrendo aos arubaito, os bicos sazonais e nem sempre garantidos.
Agora, com a explosão da crise mundial, parece-me que o Japão tomou a decisão que se lhe afigurou mais coerente: se o desemprego é inevitável, relaxa e põe para fora primeiro os estrangeiros. A tentativa de preservar as colocações para os trabalhadores locais é, acho, mais do que válida. Os demais que se virem, nessa luta nacionalista para refrear o desemprego.
O problema é que a situação dos brasileiros, segundo mostrou a Globo, chegou a um ponto onde é inevitável levantar duas questões cruciais. A primeira é: onde estão as empreiteiras, que fazem de tudo para exportar os trabalhadores – a preços exorbitantes, é bom que se lembre – nessa hora em que o calo aperta? Tirar um trabalhador de sua casa, prometendo-lhe a redenção financeira, e não oferecer um mínimo de conforto e garantia quando a crise o sufoca não lembra algo como trabalho escravo? Principalmente porque, mesmo com a situação claramente desfavorável como está, eles continuam arregimentando pobres coitados para passar fome no Exterior.
Outra questão que acho necessário levantar é uma modesta análise baseada em parâmetros pessoais: como é que alguém sai do Brasil para juntar dinheiro, passa mais de dez anos trabalhando num país estrangeiro e não consegue guardar um mínimo que lhe garanta a passagem de volta, ou ao menos um prato de comida? É claro que não posso julgar as pessoas por mim, mesmo porque os tempos agora são outros, mas quando estive no Japão, entre 1996 e 1997, voltei com dinheiro suficiente para, pelo menos, comprar minha casinha em Florianópolis. Não era muito, claro, mas se for comparar a esse pessoal que agora não tem o que comer...
Os tempos são outros, como eu já disse aí em cima, mas o princípio deve ser o mesmo: se você vai ao Japão para trabalhar e guardar dinheiro, você tem, no mínimo, de guardar dinheiro. Esqueça a vida social, esqueça as noitadas, esqueça os luxos que o salário maior torna possíveis. Leve uma vida monástica – ou “de Tio Patinhas”, como me criticava meu ex-cunhado – porque você P-R-E-C-I-S-A guardar dinheiro. Você foi lá para isso, cacete!
Se é para gastar tudo o que ganha, fique no Brasil: pelo menos você não precisa arranjar mais de mil dólares para pagar a passagem de volta.

20 comentários:

Anônimo disse...

Na minha opinião as pessoas que vão trabalhar no estrangeiro, não vão para ficar rico e voltar, mas fazem trabalhos lá que aqui não fariam.
Um rapaz universitario, da classe media alta, aqui não aceitaria ser entregador de pizza, e nos Estados Unidos faz isso com orgulho. Eles servem mesas nos restaurante, lavam pratos, passeiam com cachorros .
Eu não deixaria a minha patria por nenhum dinheiro do mundo, e quem vai embora do Brasil, é porque não merece .

Anônimo disse...

Concordo em gênero e número com os esclarecimentos do anônimo. Tenho exemplos em minha família. Nora e neto(este pelo menos economizou) que já estiveram no exterior e trabalharam em restaurantes, lavando pratos, hoje, são incapazes de lavar o prato em que comem.C'est La Vie

Anônimo disse...

Pois eu já penso que as pessoas que vão trabalhar no exterior almejam sim, ao menos via de regra, fazer um “pé-de-meia” (caiu o hífen desta, Zanfra?). Não digo nem que pensem em ficar ricos e depois voltar. Mas seja para ajudar família, seja para dar um “upgrade” nas finanças, acho que essa é mesmo a intenção da maioria. Ah, e é claro que são remunerados em dólares, libras, yenes,...não em reais! Existe ao menos uma perspectiva de tornar as economias mais polpudas, com mais rapidez! Talvez seja exatamente por isso que se sujeitam a ofícios que aqui não exerceriam de jeito nenhum. Aliás, não vejo nada de errado com os tipos de atividades que fazem lá...o problema é que a nossa cultura não permite que também as façam aqui, como salientou o segundo anônimo. Então, caro Zanfra, tenho que concordar com Vossa “Insolência”. Qual a lógica em ir para o exterior, trabalhar duro em terra estranha e, depois de anos, não ter “nadica de nada” economizado, a ponto de não ter nem para comer? Já ouvi falar em “carpe diem”, mas isso realmente não dá para entender!
Abraços. Guta.

Florianópolis - SC disse...
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Fabiano Marques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabiano Marques disse...

Olá, hoje o comentário pode se valer da fartura de argumentos.
O primeiro anônimo lembra muito o discurso do Luiz Carlos Prates, da CBN Diário e da RBSTV.
Nunca lavei prato por dinheiro, ou por fata de, e não vejo problema nisso, seja no Brasil, no Paraguai, ou na Itália. Se bem que passar o pãozinho naqueles molhos seria sensacional antes de meter a esponja na porcelana.
Pois bem, e se executasse tal função, aqui ou lá, seria uma opção ou uma necessidade. Quem faz, que não se queixe das rugas nos dedos. E quem não faz que não meta o dedo onde não é chamado.
O segundo anônimo, que se despede em francês, visite a nora ou o neto, que siga um conselho.
Peça um jantar preparado por eles. Coma e beba. Peça sobremesa. Por fim, exija um cafezinho, despeça-se e vá embora.
Ah! Recuse louças e talheres descartáveis. Assim, terão que fazer a faxina. Caso contrário, que paguem uma diarista com o dinheiro do netinho. Afinal, dinheiro ganho é dinheiro que nasce para circular, movimentar a economia.
Esse meu último raciocínio vai de encontro com o seu, caro Zanfra, e com o da Guta. Se vai trabalhar feito bicho, tem que ter uma causa. Pensar só na curtição pode ser perigoso. Tenho bons exemplos de festeiros que se deram bem, muito bem, mas, são casos raros.
Guta. Pé-de-meia continua com o hífem porque são palavras que, juntas, formam uma nova palavrinha.
Tenham uma boa semana.
abrasssssssssssssssss

Fabiano Marques disse...

Seguinte:
Tem uma frase errada. Eu quis dizer "e siga um conselho" no caso da nora e do neto.

No final, coloquei um M no hífen. Foi uma gaphezinha.

abrasss

Blog do Morani disse...

Terça-feira, 3/03/09

Prezado Jornalista Zanfra:


Declino os meus mais sinceros agradecimentos por suas palavras a respeito do meu comentário sobre os castigos na infância. O nosso, na década de 40, foi mais doce que o necessário, como você pode avaliar. Mas, até os dias atuais, não se descobriu o “assaltante diabético” ao doce reservado ao meu falecido pai.

A questão levantada pelo preclaro jornalista sobre a situação da geração dekasségui – brasileiros com ascendência japonesa – lotada no País do Sol (hoje) Poente, tem um cunho quase de tragédia se levarmos em conta as muitas esperanças levadas nas bagagens por ela para realizar um “pé de meia” no país do arigatô.

Como o nosso país há muitos anos tem carência de absorver mão-de-obra, que a cada ano é lançada no mercado de trabalho, a saída para esses brasileiros nipônicos foi a de buscar novos horizontes onde se acreditava ser o Eldorado asiático. E assim agiram pela excelência do mercado de trabalho japonês. Nós vimos acontecer o mesmo a outros concidadãos que partiram para os EUA – eu mesmo tinha emprego garantido em Elizabeth, New Jersey, no ano de 1964 – Inglaterra, França, Portugal e Espanha. O Velho Mundo está lotado por brasileiros sem quaisquer ascendências européias e o mesmo acontecendo nos Estados Unidos e Canadá. Em quais lugares no mundo não existem brasileiros?

Cabem às nossas autoridades os esforços ingentes a acomodação de nossos profissionais aqui mesmo dentro dos limites do nosso território com políticas de cunho sociais mais contundentes com menos corrupção, menos impostos e mais seriedade no trato às coisas públicas, sem confundir o que é do Estado e o que é do Povo.

Abraços.

Anônimo disse...

Quando a crise se aprofunda e a água bate nas nádegas os japoneses não têm muita escolha e agem como o mineirinho questionado sobre que achava de NUDEZ:"É bão,pruque é mió nudeis qui nu nosso"(copiryght MAZ.

Rui

José Luiz disse...

É, Zanfra, realmente não dá para entender. Aqui o pessoal estaria bem melhor, por incrível que pareça.

Vico disse...

Ah, vem cá: vai dizer que tu também não ficou boquiaberto com as coisas boas que o Japão tinha e não quis comprar tudo? Se você vai passar um tempo ralando numa terra estranha, não vai querer um pouco de mordomia, um som melhor, uma TV de plasma, um carrinho da hora? Tu vai lá só pra se esfolar? Tu é louco?

Cintia disse...

Como expatriada que sou ha mais de 12 anos, vejo claramente o seguinte: Primeiro, desculpem, mas o brasileiro tem um sentimento de inferioridade que só! Acham que só eles trabalham em restaurante, de entregador de pizza, essas coisas "humilhantes".. Errado! Aqui nos Estados Unidos qualquer um exerce essas funcoes. Ate mesmo a garotada da classe mais alta.. Quando saem de casa, trabalham nesses para garantirem o comeco da independencia, e nem passa pela cabeca deles de ser um emprego "menor". Isso, como ja falei, e coisa de brasileiro;
Segundo, essas funcoes aqi sao muito melhor remuneradas aqui do que seriam no Brasil, portanto sem comparacao por esse lado tambem;
Terceiro, nem todo mundo que vem de fora "lava pratos". Eu mesma quando cheguei, trabalhei um ano numa fabrica, apertando parafuso, embalando, o que pintasse. Esta certo que ODIEI, mas só sai quando encontrei outro emprego, ja numa empresa de porte e num escritorio.
Por fim, ha tambem o aspecto legal: precisa-se de uma autorizacao da imigracao para se trabalhar. Portante, a alguem ilegal so resta mesmo trabalhos que nem mesmo o americano redem saido de casa quer..

Anônimo disse...

Prezado Zanfra
No meu entendimento,tudo depende da conscientizaçao de e da cabeça de quem vai fazer a tarefa lá fora.A maioria, quando começa a ganhar dinheiro só pensa em consumir coisas absolutamente desnecessárias pois começam a se sentir ricos. Meus tres filhos estiveram,um ainda está,mas em Tókio, no Japao. Minha filha foi por dois meses e meio,durante as férias da faculdade.Pagou a viagem, sua preocupaçao maior,lá, era com a alimentaçao. Conclusao - conseguiu voltar com dinheiro suficiente para sua manutençao *passeios,baladas)durante o ultimo ano de faculdade.Cada um é cada um.

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
Primeiramente,se não fosse essa nossa malgrada política,o brasileiro não precisaria se aventurar fora do seu país.Na terra brasilis tem de tudo para o sustento dos seus moradores. O problema é que a nossa sociedade se espelha sempre na pseudo imagem do "primeiro mundo" que atualmente se encontra em crise financeira gerada pela negligência da marco economia dos senhores "cosmopolitas" que invadem territórios alheios, sugam riquezas natas e deixam um povo incauto na miséria (África, a exemplo do Sudão onde o petróleo e diamante são disputados pelos EUA e China, financiando governos corruptos para sobrepor barreiras, impedindo a população de usufruir de seus próprios recursos).Isso também aconteceu e continua acontecendo conosco, vítimas da colonização.O Brasil é um imenso território de terras fertéis cuja maioria é agricultável e apenas 40% do solo é aparoveitado para o plantio, redundando, como se percebe,a desigualdade social, grassando sobre todos os pontos do território.O fato de o brasileiro "arriscar" a vida lá fora é devido à péssima gestão pública de uma elite, ou melhor, oligopólio detentor do poder que impinge ao povo que a situação econômica irá melhorar a longo prazo, coisa que é puro absurdo, em se tratando de um único problema que nos aflige, A POLÍTICA DE COOPERAÇÃO MÚTUA.

Carlos Martí disse...

Nem toda a motivação é financeira. Quando deixei o Brasil, tem já 13 anos, estava ganhando dinheiro como nunca, era dono de uma empresa sólida e com certo renome e prestígio. Mas meu filho mais velho tinha só doze anos e já tinha assaltado 3 vezes. Nenhuma das caríssimas escolas particulares que meus filhos freqüentaram tinha o nível que eu considerava mínimo para complementar a educação que eles recebiam em casa. Deixei minha casa de 200 metros para morar num daqueles velhíssimos apartamento que a gente vê nos filmes do neo-realismo. Fui obrigado a começar tudo de novo, sobretudo por que, graças à intervençao da família da minha mulher "demos de presente" nossa casa de Sao Paulo e praticamente perdemos tudo. Zanfra, você tem razão: dedicamos todos estes anos no exílio a guardar tudo aquilo de valioso que recebemos. Estudamos como loucos, nas escolas e em cada esquina, tentando entender e aprendendo como pensam outras pessoas, como cada um deles entendia de uma forma distinta,tudo aquilo que a TV Globo insistia em nos fez pensar que só uma tinha forma. Cada questão social, política, econômica, filosófica ou tecnológica, acostumei-me a observar desde pelo menos 3 pontos de vista. Por isso considero, multipliquie meu patrimônio por 3 e virei milionário.
Um abraço
Carlos Marti

Carlos Martí disse...

Cintia, não por preconceito, mas por observação, também percebi um certo complexo de inferioridade dos brasileiros por aqui. Chegam imigrantes das mais diversas nacionalidades e são claras suas desvantagens sociais, econômicas e laborais que enfrentam, se comparados aos nativos. Certas pessoas, de determinadas nacionalidades preferem passar desapercebidos durante as fases em que se veem compelidos ao sacrifício pessoal e familiar. Outros, mostram certa prepotência que, interpreto, não passa de mero mecanismo de defesa, temerosos de serem humilhados para a que, temem, não estão preparados. Logo quando mudamos para cá, presenciei uma cena corriqueira, mas significativa. é costume local,chegar aos comerciais e repartiçoes públicas, perguntar quem é o último e avisar que é o seguinte, sem a necessidade de permanecer cativos de uma fila. Assim, os mais velhos podem esperar sentados, tranquilos de que tem o seu turno garantido. Pois eu etava numa loja que fazia fotocopias, atolada de gente, chegou uma mulher, e com expressão competitiva e agressiva, foi-se enfiando e quando teve a oportunidade fez seu pedido. Os outros clientes reclamaram e tentaram explicar o procedimento usual. Louca da vida, a tal senhora não reconheceu sua equivocação e começou a gritar e xingar dizendo coisas como "eu sou brasileira e...". Foi a primeira mas não a última vez que vi um brasileiro fazer coisas assim, como se todo mundo tivesse que estar sempre à disposição. Não pretendo dizer que os brasileiros em geral guiam sua conduta através de atitudes como essa, mas estou convencido de que esse é o comportamento habitual de uma faixa social mimada e alienada, "educada" sob a filosofia do privilégio social e da servidão que costuma submeter um indivíduo ao seu semelhante.

Carlos Martí disse...

ERRATA, ERRATA, ERRATA!!!!!!
Nossa, lendo meu primeiro comentário, percebi que escrevi que meu filho tinha assaltado 3 vezes, quando na verdade eu queria dizer que ele tina SIDO ASSALTADO 3 vezes. a coisa era grave, mas nem tanto.

Marco Antonio Zanfra disse...

Alvíssaras! Eis que ressurge, depois de vários meses na muda, nosso amigo Espanhol. E ressurge em grande estilo, diga-se: com um texto impecável - tirando essa de o filho ter virado assaltante - um ponto de vista respeitabilíssimo e uma visão panorâmica que nos deixa boquiabertos. Tais pessoas deviam marcar o ponto regular e obrigatoriamente no espaço de comentários do blog. Fazem falta.

Carlos Martí disse...

Obrigado, Marco. Sigamos empenhados na preservação desse espécime em altíssimo risco de extinção: a pluaralidade de pensamento.
Abraço
Carlos Marti

Cintia disse...

Pois sim, Carlos, seu exemplo e perfeito para o que eu tambem vejo: as coisas normais, que se aplicam a todo o grupo, na visao do brasieliro acontece só para ele e por ele ser brasileiro. Lógico que nao somos todos assim, mas ja vi muitos casos como o que voce contou.
Acho que isso e heranca colonialista, sei la...