segunda-feira, 25 de maio de 2009

Morrer esbanjando saúde

Chega uma certa idade e a gente começa a rever com um pouco mais de critério e sabedoria nossos limites e tolerâncias. Coincide com a época em que aceitamos finalmente que a morte é inevitável, que não dá para escapar, mas que podemos retardar um pouco o momento de nos defrontarmos com nós mesmos. Ninguém fica para semente, sabemos disso, mas vai que, nesses meses a mais que conquistamos de sobrevida, um louco aí não descobre o elixir da eterna juventude...
E então passamos a dosar com parcimônia o sal e os condimentos, reduzimos o álcool e o fumo, passamos a fazer caminhadas diárias, exageramos no consumo de frutas e verduras, passamos a ouvir com mais carinho dicas de saúde, procuramos dormir cedo e acordar cedo... E, é claro, passamos a fazer exames periódicos, para avaliar o desempenho integral do mecanismo.
Colesterol HDL, creatinina, glicose, colesterol LDL, triglicerídios, hemograma, antígeno prostático... exame de sangue em jejum, despreza o primeiro jato de urina, eletrocardiograma de esteira... toque retal, eritrócitos, leucócitos, linfócitos, hemoglobina... Tudo testado cuidadosamente para ver se você está lá, tudo em cima, tudo dentro dos limites toleráveis... Com um pouco de sorte, um bom metabolismo e alguns cuidados básicos, você pode ter mais de cinquenta e ser um verdadeiro garotão...
Mas aí você está em casa, sente-se mal, dói o peito, respira com dificuldade, a família chama socorro e, menos de uma hora depois, pimba!, você está morto. Estava com tudo em cima, um meninão na flor da idade, esbanjando disposição e invejável índice de triglicerídios, mas está morto. Morreu gozando da mais perfeita saúde, como comparou certa vez a jornalista Rachel Melamet. Pois é.
Aconteceu semana passada com o Zé Rodrix, recém-submetido a um check-up, que indicou que estava tudo bem com ele. Aconteceu com minha irmã, que tinha combinado comprar uns discos de pizza depois da consulta dentária, mas tombou na rua antes mesmo de entrar no dentista. Aconteceu com a própria Rachel Melamet, levada por um infarto aos cinquenta e poucos anos.
Pois é. O sistema todo pode estar operando na maior das normalidades, dentro dos parâmetros aceitáveis de bom funcionamento, mas, se a central de processamento vascular parar, meu amigo, um abraço... Não adianta a carta de apresentação fornecida por laboratório clínico se a maquininha deixa de bater, assim sem mais... Mal comparando, seu carro pode ter acabado de passar por uma revisão completa, mas, se lhe queima o rotor – uma pecinha de R$ 15 que distribui as faíscas às velas – não há certificado de garantia que o faça sair do lugar.
O coração é uma peça como outra qualquer, acho, que pode funcionar sem qualquer solavanco durante décadas, ou sofrer uma pane inexplicável e levar seu proprietário para as cucuias mais cedo. Creio que seu funcionamento é mais sujeito a surpresas do que a regras de comportamento, e isto explicaria por que pessoas absolutamente desregradas estão por aí, beirando o centenário. De modo que ter um comportamento monacal, embora seja opção de cada um, não garante a sobrevida de ninguém, enquanto se espera que um louco aí descubra o elixir da eterna juventude.
No meu caso, por exemplo, que acabei de passar por uma bateria de exames e descobri que estou um garotão, quem pode ter certeza de que continuarei enfiando este blog na goela de vocês na próxima segunda-feira?

24 comentários:

disse...

Quando chega a hora, não há choro, vela ou check-up que dêem jeito!

Blog do Morani disse...

25/05/09

Antes de mais nada, praza o céu que na próxima segunda-feira estejamos com o seu blog na telinha do pc, e que nós, seus leitores, igualmente possamos acessar a internet para ler seus comentários.
Você se submeteu a exames recentemente? Tem razão ao dizer que isto nada significa (não desejando ser pessimista), ou garanta uma sobrevida mais longa.
Pessoas com idades acima dos quarentas, beirando os cinquenta, são mais sujeitas a esse tipo de morte súbita. Assim foi com minha irmã gêmea em 1984. Meu senhorio aos 90 anos sofreu um violento enfarte do miocárdio. Eu o coloquei em meu carro e voei ao hospital. Lá o deixei. Dois dias depois ele já estava de volta, sem qualquer tipo de sequela cardíaca. Ele me declarou: "Seu Mario o meu enfarte foi violento. Eu só o aguentei por causa da minha idade". Isto foi-lhe dito pelo médico que o atendeu. Presentemente, chegou aos 96 anos! Eu, aos 74 anos, cardíaco e renal crônico, passo quinzenalmente por baterias de exames -TAP (Semanal),hemograma e todos aqueles citados por você, além do PSA, para acompanhamento de hiperplasia prostática. Provavelmente passarei por biopsia no próximo dia 01/06.
E vamos que vamos, que essas coisas não dão em pau ou ferro.
Abraços

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
Levando-se em consideração "a boa alimentação" dos dias atuais regado à hormônio (carne animal);vegetais com dosagens de agrotóxicos exacerbadamente;solos contaminados por produtos químicos que envenenam o lençol freático de água potável que consumimos; o ar poluido, a camada de ozônio aberta feita uma porteira que facilita a passagem dos raios solares, diminuindo a filtração destes,não há fórmula nenhuma de rejuvenecimento que venha dos beneficiar, nós, simples terráqueos que insistimos sobrevier num planeta o qual está sendo destruído a cada dia pelo "progresso" do homem ante a natureza.O estado salutar do nosso sistema biológico,medido através de diagnósticos eletrônicos, não passa de um efeito placebo no sentido de nos iludirmos com a esperança de vida que temos à frente.

Regina Andrade disse...

Engraçado o texto, mas estou fazendo isso mesmo, médicos, alimentação balanceada e exercícios físicos...vamos ver até onde eu vou! Mas ainda como você mencionou: o coração. Ah...o coração. Se não tiver tudo em ordem ( o que é dificíl) - corpo, mente e espírito....nada feito!

Rogério Furtado disse...

Boa, Zanfra!

Eliz disse...

Oi Zanfra,

O seu comentário me fez lembrar de uma frase que eu li outro dia, e já que a única certeza da vida é a morte:"É mais fácil suportar a morte sem pensar nela, do que suportar o pensamento da morte sem morrer".Não sei quem é autor, mas prefiro não pensar muito neste tema trágico que é a morte.

Clovis Lima disse...

É Zafra, não tem jeito. E a agente só para pensar nisso quando um Zé Rodrix da vida vai para o lado de lá. Tenho 38 (menino ainda), até antes de meu filho nascer, jogaca uma pelada, caminhava, etc. Agora só ando de carro ou moto, fico muito tempo na frente do computador... Opa! Vou encerrar por aqui e tratar de fazer uma caminhada. Até segunda (espero!).

Vico disse...

Até concordo com a Má: quando chega a hora, não tem jeito. Mas que essa hora poderia chegar tarde, beeeem tarde...

Anônimo disse...

Prezado Zanfra
Excelente matéria. Mas em meu modesto entendimento, para termos o coração bem saudável, é preciso que estejamos acima de tudo, bem equilibrados espiritualmente. O próprio nome - coração - já sugere muita oração e por tabela chegamos ao espírito e ao seu equilibrio. Quase empapucei neste fim de semana por causa da pressão ...altíssima. Mas felizmente estou aqui e posso dizer não a vocês...mas aos que estão ao meu redor....vocês vão ter de me aturar. Mas a coisa é séria viu.Temos que tratar com carinho nosso coração.
bjão
sonia carotta

Cintia disse...

Me veio a memoria o Toquinho cantando "Sem medo":

"Chega um belo dia de qualquer semana,
Alguém bate na porta, é um telegrama.
Ela está chamando, é um telegrama, ela está chamando.
Pra uns ela vem cedo, pra outros vem tarde.
É que, cedo ou tarde, ela vem de repente.
Chega pro covarde, chega pro valente,
Só que ninguém gosta de ir na frente
Mas atravesse a morte sem medo."

Pois é, ninguem quer ir na frente..

serafim disse...

Caro Zanfra

Como vc bem disse: podemos estar com tudo em cima mas se o motorzinho ratear, babau.Faço o exame preventivo há muitos anos e segundo o homem de branco as minhas taxas estão melhores que as do Banco Central.O unico problema é que fumo feito um gambá, se é que gamba fuma,portanto sujeito a chuvas e trovoadas. Vê se pode, quebrei a mão jogando volei adaptado na terceira idade.Por isso, amigo, aproveite enquanto é tempo pois o amanhã à ELE pertence.
Falando nisso já que vc não é muito chegado a um banho de mar, apezar de morar perto da praia,vá molhar pelo menos os pés e refrescar a cabeça para um novo assunto na próxima segunda. Garanto que faz bem prá pele e prá mente.
um abraço

Carlos Martí disse...

Quem é ELE?

Carlos Martí disse...

Marco, prova de que uma vida natural é passo decisivo caminho da longevidade, são os velhinhos que povoam os mais ermos "pueblecitos" da Itália, Espanha ou Grécia e ali permanecem durante toda sua vida e que, não raramente, costumam alcançar idades centenárias. Uma vida à base da dieta mediterrânea, caminhando pelos montes, respirando ar puro e alheios aos conflitos e à competitividade das urbes poderia ser o seu segredo. Claro que é tudo uma questão de probabilidade e que nada é seguro, mas que tais estatísticas entre essa parcela da população me dão razão, isso dão. Só uma coisa não consigo entender, se a prática habitual do sexo tem efeito vasodilatador e está entre as recomendações para uma vida saudável e prolongada, será uma lenda urbana a fama de que os camponeses da Europa ocidental não são freqüentes nesse quesito?

Marco Antonio Zanfra disse...

Ou eles são os tradicionais come quieto?

Carlos Martí disse...

É possível, mas a explicação também poderia ser a razão de vermos as cabras saltitando alegres pelo monte.

Cintia disse...

Ha! As cabras tambem tem vida longa?
Bem, so se nao forem comidas.. no sentido literal, claro..

Marco Antonio Zanfra disse...

Tenho cá minhas dúvidas: as cabras saltam de alegria ou estão tentando fugir, morro acima, à lascívia campônia?

Cintia disse...

Bem.. acho que elas saltam morro acima, estao fugindo; se saltam morro abaixo, estao procurando...

Anônimo disse...

Dizem que quanto mais se pensa na morte menos se vive. Então pra que esquentar a cabeça? Ela vem, com certeza, quando menos se espera. Ficar pensando nela tira sua alegria de viver. Ninguém vai embora antes da hora, mas morre em vida se ficar encucando com isso.

Gennara Vitti disse...

Os espíritas têm a teoria da evolução espiritual para nossa estadia terrena. Quando morre uma criança, por exemplo, isso indica que ela já cumpriu seu estágio evolutivo e por isso conquistou o descanso eterno (uma premiação) mais cedo. As pessoas longevas, pelo contrário, são aquelas que "ainda têm muito o que aprender" (ou evoluir). Quando morrem várias pessoas num só evento, são pessoas evoluídas que foram colocadas juntas para que se cumprisse a premiação. Na teoria espírita, então, só morreremos cedo se tivermos cumprido nossa missão na Terra, e as paradas cardíacas, os incêndios, os acidentes de trânsito etc. são apenas instrumentos para que se cumpra esse destino.
Eu, particularmente, espero que meu espírito tenha ainda um longo caminho a percorrer até conseguir a "premiação", pois não tenho a mínima vocação para o descanso eterno.
Abraços a todos.

Cintia disse...

Ja fui espirita, agora nao sei nem se sou alguma coisa.. mas o que nao entendo na teoria espirita e o seguinte: No comecinho do mundo, eram apenas alguns poucos espiritios, agora sao bilhoes.. entao, minha pergunta e: de onde veem os espiritos novos, eles nascem? Me parece que tem mais almas nascendo do que indo para o descanso eterno, entao de onde elas vem? Como sera que o espiritismo explica isso?

Gennara disse...

Ih, Cíntia, não faço a mínima ideia! Eu apenas li alguma coisa sobre isso, não sou teórica do espiritismo. Mas a pergunta é bem pertinente: nestes séculos e séculos todos, já não teria se esgotado o estoque de almas com necessidade de evolução? Ou elas são "fabricadas" com defeito, justamente para movimentar a máquina evolutiva?

Jacinto Antonio disse...

Zanfra.
Acredito que ter a certeza de saúde perfeita pode nos tranquilizar a ponto de crer que a morte só acontecerá de for de surpresa, como o que aconteceu com o Zé Rodrix e sua irmã. Na contrapartida, uma vida desregrada pode com muito mais certeza encurtar a passagem por aqui, além de torná-la menos agradável (referenciando os incômodos com tratamentos e privações, sem falar do comportamento desregrado no trânsito).
Prefiro ficar com a primeira opção.

Anônimo disse...

Prezado Zanfra

Infelizmente, creio eu, a turista italiana não era para ficar nas profundezas do oceano,mas, por outro lado tinha que fazer "sua passagem".Seus corpo deveria ficar em terra para ser reconhecida antes das formalidades que vem depois.E isso deveria acontecer no dia certo.A explicação do porquê penso assim,seria muito longa,mas são anos e anos de estudos,observações e um olhar
espiritualista dos acontecimentos.
sonia carotta