segunda-feira, 20 de julho de 2009

A redenção da boca suja

Eles certamente nunca ouviram falar de mim, e suas intenções parecem ser muito mais nobres do que alguma que eu porventura tivesse, mas, para todos os efeitos, um grupo de cientistas do Reino Unido acaba de endossar uma tese que defendo há largos anos: a que consagra um grande e às vezes insubstituível valor profilático, anestésico e exorcismático ao palavrão.
O estudo deles ainda não é tão completo quanto minha teoria – já que se limita ao efeito psicossomático de um sonoro impropério no ato de enfrentar a dor – mas eles ainda vão chegar lá: vão descobrir que soltar o verbo desestressa, libera adrenalina, canaliza agressividade em excesso, desopila fígados, espanta tubarões, desentope artérias, previne acidentes vasculares de qualquer espécie e aumenta a longevidade. Que o diga Derci Gonçalves, que passou dos cem anos abrindo a boca nem sempre para distribuir gentilezas.
Tem efeitos colaterais, claro: ouvidos especialmente sensíveis, por exemplo, hão de sentir-se conspurcados pelo repertório chulo que compõe a terapia do palavrão. Mas há de ficar em evidência que, para se evitar males maiores – como infartos, aneurismas e tromboses – algumas subscetibilidades precisam ser feridas e alguns pudores precisam ser desvendados. Tudo pelo bem da humanidade.
Como eu dizia, porém, os estudos dos cientistas britânicos atestaram por enquanto apenas o poder analgésico do palavrão – ou, na verdade, a capacidade maior de suportar a dor de quem enfrenta a algia com a boca que mamãe mandaria lavar imediatamente. As 64 pessoas envolvidas no experimento conseguiram manter suas mãos mergulhadas numa bacia com água gelada por dois minutos, em média, antecipando com uma bela palavra de baixo calão o ato de mergulho, mas não conseguiram passar de um minuto e quinze quando a expressão utilizada era, digamos, menos cabeluda.
A capacidade maior de resistir à dor usando como escudo um belo palavrão é algo que a gente sabia faz tempo – ou alguém ainda dá uma topada com o dedinho do pé na quina da cama e recita “Os Luzíadas”? – mas agora os efeitos dessas imprecações ganharam caráter científico. Por isso, ficou menos politicamente incorreto soltar a boca em algumas circunstâncias.
Ainda que os estudiosos alertem que o uso abusivo do palavrão pode tirar dele o efeito lenitivo, acredito que ninguém se utiliza do chulo gratuitamente. Há uma expressão latina para definir essa circunstância: ex abundanctia enim cordis os loquitur, ou “a boca fala do que está cheio o coração”. Se o coração está cheio de coisa feia, fazer o quê?

Peço desculpas por me estender menos do que o habitual no tema da semana, mas hoje é um dia especial: mais um ciclo da vida se completa e Mariana, minha filha mais velha, casa-se nesta segunda-feira.

22 comentários:

disse...

hahaha! A pesquisa só veio realmente comprovar o que todo mundo sente!

Parabéns pelo casório de sua filha! ;)

Cintia disse...

E nao so para aliviar dores, serve o palavrao!
P..Q..P..!! A Mariana se casa hoje???

Beijao ao todos!

cilmar machado disse...

Sinto-me justificado e até mesmo gratificado pelos muitos P.Q.P. que já proferi em minha vida, mas a constatação científica inglesa não é novidade para nós, brasileiros. Basta assistir a uma partida de futebol, participando da torcida, corintiana de preferência... rs rs rs
Só espero que seu futuro genro não se utilize dessa técnica em seus futuros contatos com o sogrinho... rs rs rs
Felicidades à filhinha querida...

Rui Fernando Veríssimo disse...

Se me permite,gostaria de acrescentar:PALAVRÕES TAMBÉM SÃO IMPORTANTES
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.
É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.
"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéiade muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?
No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!", assim como o "Absolutamente Não" já soam sem nenhuma credibilidade. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Libera-te, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo: "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Caetano Veloso.
Por sua vez, o "porra nenhuma" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.
!

José Luiz Teixeira disse...

P*x#Q$p@#$!?!

Anônimo disse...

Prezado Zanfra

Que felicidade saber desses estudos em prol do benéfico efeito que nos dá soltar um palavraõ, não aqueles constituídos de muitas sílabas rsrsrs Gostei muito da complementação feita pelo Rui Veríssimo. É isso...realmente desopilar o fígado,no meu caso, é o mais constante.Só que solto apenas quando estou distraída,agora, vou poder me liberar mais rsrsrsrs
Parabéns à sua filha e muitas felicidades ao casal

sonia carotta

Kafka disse...

O palavrão tem efeito curativo porque se baseia no falso cognato da força. As pessoas se sentem falsamente mais fortes quando esbravejam, quando chutam algum objeto inanimado, quando batem uma porta. É o refúgio dos covardes: não há como não sentir-se melhor quando se descarrega a frustração em algo que não tem a capacidade de reagir. Se você tem vontade de esganar alguém mas lhe falta coragem, solte um palavrão - o efeito está aquém do ideal, mas é o bastante para o covarde que você é. As pessoas com a boca mais suja são as mais covardes, mas não perdem por esperar: uns bons tapas na cara acabam com o poder curativo de qualquer palavrão.

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;

Se realmente tal tese tivesse sentido, as pessoas estressadas procurariam, propositadamente, toparem numa pedra qualquer ou meio fio na rua para extravasarem o léxico pornográfico desde o mais obsceno palavrão até o chingamento de corno, proferido para o vizinho impertinente que a maioria sempre encontra esse tipo de pessoa nos arrabaldes das cidades. Quantas topadas sofri, lesionando o dedão do pé em carne-viva ou até mesmo jogando futebol quando o adversário entra duro nas canelas do atacante e este chama o camarada dos piores adjetivos criado no momento que redunda num briga, geralmente, deixando sequelas que todas às vezes que o agente lesionado olha para o estigma recebido, as ânsias de vingança pairam em torno de sua mente, aguardando a próxima oportunidade para contra-atacar, embora não lhe restitua o membro perdido caso tenha acontecido. Como se pode observar, não houve nenhuma melhora subjetiva em torno de extrapolar a obscenidade, somente prejuízo para si. O que falta a esses intelectuais da ciência é tino que eles perderam há muito tempo pelo fato de tornarem público uma proposição dessa natureza

Blog do Morani disse...

23/07/09

Reporto-me ao seu comentário do dia 20 p.passado. Palavra como não sabia existir o "Dia do Amigo". Acabo de responder ao meu amigo Gimenez, de São Paulo, que o dia do "Amigo" são todos os dias aos quais nos unimos em pensamentos, como um grande elo de uma forte corrente; quando damos nosso testemunho de solidariedade, em momentos de grandes dificuldades; quando "fechamos pra valer", mergulhando de cabeça aos mesmos sentimentos e ofertando nosso "ombro amigo".
Mas esse não foi o principal mote de seu comentário no dia do "Amigo". Foram as expressões chulas que "excretamos" do fundo de nossas almas sofridas ao toparmos com os dedos numa pedra ou a um pé de mesa; ao falsearmos o passo em uma rua irregular ou quando levamos um "banho" de água suja, que se empoça depois de uma forte chuva, como me aconteceu, à passagem de um veículo. Eu sempre fui um estressado contumaz, em casa; via de regra, era-o também em qualquer lugar: numa fila de ônibus, em São Paulo, em uma agência bancária, onde as filas se tornaram instituiçao enervante e etc.,etc. Ora, em determinado momento de minha vida estive na lâmina de mais uma depressão. Procurei ajuda na pessoa de um médico homeopata. Fez-me falar tudo sobre as minhas reações. Confessei-lhe que brigava até mesmo comigo, com minha sombra, com as minhas dificiências, com minha capacidade de deixar objetos caírem-me das mãos. Além de xingar muito todos os palavrões sabidos por mim, ainda estendia o meu péssimo humor aos que se encontravam à minha volta. Sabe a que conclusão chegou o doutor Eduardo Massad, que me escutava pacientemente?
"Senhor Mario, se o senhor agisse de maneira contrária hoje não estaria aqui em meu consultório me relatando tudo isso. Continue assim, jogando fora o que lhe traz incômodos, ainda que o mundo todo venha abaixo".
Saí de lá feliz da vida, pois adoro exprobar "as pedras de tropeço" que me surgem à frente. Então, parabenizo o senhor Rui F. Veríssimo pelo seu comentário, todavia depois de estender-lhe meus respeitos por sua coragem em confessar que é um "adepto" veraz aos apêndices de alívio, que são os "palavrões" em determinados momentos. Amigos! Uní-vos às exprobações saudáveis, pois elas determinam realmente a longevidade e nos dão sabor de vitória sobre as menores contrariedades!

Marco Antonio Zanfra disse...

Esse seu médico é um gênio, Morani. Todos nós, os estressados em potencial, deveríamos ouvir dele essas palavras de encorajamento: ou solta um palavrão ou prepare-se para um acidente vascular cerebral mais cedo ou mais tarde (mais cedo que mais tarde).
E tenho certeza de que falo em nome de muitos: seja bem-vindo de volta ao espaço de comentários do blog!

Mariana Marcial de Almeida disse...

Compartilho integralmente desse texto. É como falo ao meu pai, tem coisas que precisam de um palavrão. Por exemplo, se ele me pede para fazer algo que eu não irei fazer de jeito algum, até eu explicar todos os motivos e me justificar, solto logo um "Nem fudendo" e pronto, assunto encerrado..rsrs! Fora a brincadeira, queria parabenizá-lo pelos ótimos textos e agradecer por colocar o Feito com Pimenta nos seus favoritos. Grande abraço!

Serafim disse...

Caro Zanfra

"CACETE", belo comentário.

Felicidades ao casal

Lílian disse...

Zanfra, falarei como "usuária" do palavrao e nao como psicóloga: P... é muito F... falar palavrao! Me sinto melhor... hehe

Vico disse...

Não querendo desmerecer a pesquisa dos nobres cientistas britânicos, quem precisa de justificativa para falar um bom palavrão? Ajuda a enfrentar a dor? Isso nós já sabíamos desde criancinhas, pois aquele choro ardido dos nenês é porque eles não sabem xingar.

Gennara disse...

... e se beijo essa tua boca imunda/tangida pelos impropérios/é porque quero que minh'alma funda/mantenha à tona os teus mistérios...
Não me lembro onde li isso, faz muito tempo, mas é isso: ainda que sutilmente, os palavrões podem ser poéticos.
E agora, sem sutileza: falar palavrão é bom pra c(***)!

Marco Antonio Zanfra disse...

Muito poético, Gennara. Pelo estilão - tipo "escarra nesta boca que te beija" - esses versos estão me parecendo de Augusto dos Anjos. Ou algum clone dele...

Cintia disse...

haha.. fiquei so imaginando os proximos versos.. o que rimaria com "quero que minha alma funda.."

Marco Antonio Zanfra disse...

Inunda... profunda... rubicunda... rotunda... fecunda...
Pô, não quebre o encanto poético, prima!

Anônimo disse...

Ah, mas já que estamos falando de palavrão acho que existe palavra mais adequada para rimar com a alma funda do poeta.

Eliz disse...

Este texto nos leva a um dilema: viver mais falando palavrão ou ficar extressado, sentir mais dor, mas se abster de falar palavrão e assim, garantir a nossa entrada no céu,já que falar palavrão nos torna pecadores, bla bla bla...... e agora o que fazer... talvez lavar a boca com sabão, e os ouvidos resolva... ou não.

Anônimo disse...

Caríssimo Zanfra.Apesar do pouco tempo, viciei nos seus escritos virtuais e, assim, peço ao amigo que mantenha o envio automático do seu blog. Não se avexe não, porque vcs tem mais fãs do que imagina, suponho eu. Abs.

Enéas disse...

Meu caro, quem escreveu esse post arriba foi eu, que esqueci de assinar.É que faltou colar a retranca. Abs