segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Evolução

Faça uma experiência: imobilize os braços ao longo do corpo e inicie uma caminhada de uns poucos metros. Conseguiu, embora pareça estranho andar feito um robô desregulado? Os braços não ficam tentando despregar-se de seu imobilismo para acompanhar o movimento do resto do corpo?
Pois continue experimentando: vá apertando o passo gradativamente, acelerando pouco a pouco, até atingir um ritmo próximo da corrida. Conseguiu de novo? Foi possível correr com os braços imobilizados sem atingir um estágio de locomoção próximo ao capotamento?
Se conseguiu, parabéns, sabemos que foi com grande esforço: conhecemos a importância do movimento dos braços para manter o equilíbrio do corpo durante as caminhadas, com menor ou maior velocidade. Sabemos, desde criancinhas, que só os zumbis e as múmias conseguem caminhar sem mover os braços, mesmo assim andando de um modo bastante estranho.
Pois os cientistas – ô, raça!, como diria Tutty Vasques – chegaram mais longe: descobriram que o movimento dos braços contribui não apenas para o equilíbrio, mas para a redução do consumo de energia. Utilizando-se de um modelo mecânico para analisar a dinâmica da caminhada, além de acompanhar a movimentação de dez voluntários humanos, eles concluíram que caminhar com os braços paralisados junto ao corpo requer um gasto metabólico 12% maior do que deixar que eles cumpram sua função cinética.
Inverter o movimento natural – mover o braço esquerdo com a perna esquerda, quando o que ocorre usualmente é o contrário – consome 26% mais de energia, segundo o mesmo estudo, porque os músculos precisam esforçar-se para manter a sincronia reversa. Eles descobriram, ainda, que – como o rotor de cauda de um helicóptero – o balanço dos braços faz um contraponto ao movimento giratório que a sucessão alternada de passos imprime ao corpo, impedindo que saiamos rodopiando por aí feito doidos.
Os cientistas chegaram a pensar que o movimento dos braços fosse herança do tempo em que a humanidade ainda não havia atingido a postura do homo erectus, quando ainda andava de quatro – e que, portanto, seu balangar não teria uma função específica – mas acabaram concluindo que, além de dar graça ao movimento do corpo como um todo (vide zumbis e múmias), os braços são responsáveis pela maior eficiência do caminhar. Não é espantoso?

Outra dos cientistas: pessoas como nós, que atingimos a meia idade matrimonialmente estáveis, temos nessa estabilidade um excelente aditivo para nossa saúde física e mental. Ao contrário, casos de separação ou viuvez provocam cicatrizes duráveis e dolorosas aos maiores de 40 anos.
Mais: os que ficam sozinhos depois de um rompimento são ainda menos saudáveis do que aqueles que procuram a recuperação num novo relacionamento. Mais ainda: os solteiros convictos, aqueles que nunca se casaram, mostraram uma condição de saúde melhor do que a das pessoas casadas com uma história de divórcio ou perda do cônjuge, ainda que inferiores aos de casamentos felizes.
Resumindo: bom mesmo é o “até que a morte nos separe”. Mas, se for para não ter um casamento estável – ainda que não seja possível descobrir a tempo que aquela princesa vai transformar-se numa bruxa mais cedo ou mais tarde – melhor morrer solteiro, mas com uma saúde invejável.

25 comentários:

Eliz disse...

Oi Zanfra,

Muito interessante o que estes cientistas descobrem, pois a evolução humana é hoje um dos principais temas dos debates científicos. A cada nova descoberta, novos rumos são tomados em relação a humanidade seja na área física quanto emocional. Você como sempre trouxe para o debate os dois campos do ser humano, adorei.
Ahaa hoje eu fui a primeira a comentar.

cintia disse...

Hmm.. sera que consigo caminhas na esteira movendo os bracos para consumir 26% mais de energia, e assim queimar mais calorias? Ou sera que vou me esttelar no chao?

Marco Antonio Zanfra disse...

Preste atenção, prima: não é só caminhar na esteira movendo os braços; é caminhar movendo os braços inversamente - ou seja, joga a perna direita para a frente junto com o braço direito, e vice-versa. É melhor nem tentar...

Cintia disse...

Entao!! Por isso que idsse que vou me estatelar.. minha coordenacao motora n ao e la das m elhores, e se eu for reinventar o "andar", vou quebrar alguns ossos..
Engracado..eu andava sem pensar ate hoje: agora vou ter que refletir no meu "andar"..

Jacinto Antonio disse...

Oi Zanfra,

Acho que a natureza se encarregou de fazer com que o balanço do braço nos ajude a economizar energia. Seria oportuno pesquisar sobre o balanço dos quadris para ver a que conclusão se pode chegar.
Com relação ao casamento fazer bem a saúde, acho também interessante fazer uma pesquisa sobre a participação da sogra e seus efeitos sobre a saúde do matrimônio.

Um forte abraço,
Jacinto.

Marco Antonio Zanfra disse...

A sogra, penso eu, pode ser comparada a um chá de boldo: é amargo, mas no mais das vezes acaba fazendo algum bem. Há exceções, claro, mas qualquer overdose acaba saindo no xixi.

Vico disse...

Bem lembrado, Jacinto: e aquele balanço dos quadris, aquela ondulação sensual, aquele requebro? Será que tem alguma coisa a ver com equilíbrio e eficiência da caminhada, ou é só para nos provocar, mesmo?

Blog do Morani disse...

04/08/09

Olhem só! Tanto o assunto postado e os comentários feitos, estão com sabor a um manjar delicioso.
Ainda bem que eu "exigi" receber semanalmente o blog do Zanfra.
Já tentei as duas maneiras de caminhar: ambos os braços colados ao corpo, e jogando cada um deles juntamente e ao mesmo tempo
das pernas. Não deu mesmo. Na primeira experiência, o corpo parecia iniciar o movimento de um peão; ao segundo, se assemelhava ao movimento robótico. Terrível!
O restante de seu texto, eu já experimentei uma segunda núpcia, e deu certo! Se a sogra do meu primeiro casamento era indiferente e parcial ao seu modo de tratar a filha, minha esposa, e as netas, minhas filhas, se transformando em quase bruxa, só tenho elogios à segunda, que se contrapos àquela piada:

"Sogra só é boa gelada e em cima de uma mesa". Você deve conhecer o dito.

Fechando: se não for como manda o ritual "... até que a Morte os separe", melhor mesmo é permanecer solteiro. Já experimentei a solidão de cinco anos só, cuidando de minha vida, após 15 anos casado. É ruim para a saúde.

Marco Antonio Zanfra disse...

Mas há casos, Morani, em que é muito pior para a saúde não estar sozinho. Já que falamos em ditos populares, "antes só do que mal acompanhado".

Serafim disse...

CARO ZANFRA

Já que os cientistas se metem em cada uma, seria bom analizarem porque as brasileiras requebram muito ao andar, principalmente a bunda.

Abraços

Marco Antonio Zanfra disse...

Alguma coisa contra, Serafim?

cilmar machado disse...

Serafim;
O que ABUNDA, não atrapalha...

Bom artigo Zanfra, especialmente sobre as sogras, que sempre foram as vilãs da história. Não falo mal da minha já há uns 09 anos, desde 2001, ano de sua morte, Que descanse em paz! Amém!...

Fabiano Marques disse...

Muito bom o texto.
Zanfra, mudei a cara dos polacos do Blog. Veja lá!!
abrassss

Marco Antonio Zanfra disse...

Pois é, o Fabiano demora mais de dois meses para atualizar o seu "diário virtual" - que é como o blog é definido nas palavras cruzadas - mas, quando o faz, não economiza classe, como nessa postagem em que lembra o aniversário da morte de Marilyn Monroe. Quem quiser conferir, é só clicar no link Blog do Fabiano, do lado direito desta nossa página.

Kafka disse...

Gostei dessa história de casamento longo, separação ou solteirice. Fazendo as contas, e considerando que é muito difícil você arrumar uma mulher para aturar (e para aturá-lo) pelo resto da vida, a melhor opção é mesmo ficar solteiro. Para qualquer surto de solidão no ocaso da vida, as bonecas infláveis estão cada vez mais sofisticadas.

Débora disse...

Olá querido Zanfra!!!

Adorei o texto, muito interessante! Levantei correndo, tropecei na cadeira e tentei andar como você disse...tropecei novamente! Ainda bem que o André não está em casa, mas quando ele chegar vou pedir pra fazer. Ajeitadinho do jeito que ele é, isso vai acabar em tombo...(ele ñ pode ler isso, não pode!!!)
Em relação ao casamento, é melhor eu deixar isso pra lá!!!hehe

Bjo
Débora (noiva do André)

Marco Antonio Zanfra disse...

Dependendo do andar em que vocês estão morando, quantos vizinhos de andares inferiores seriam diretamente afetados com um tombo do André?

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
O ser humano se move através das gorduras que armazena o combustivel para o seu deslocamento. Fomos costruído para extravasar as nossas energias que se renovam no copo d'água, na alimentação em geral, é um processo rotineiro até os finais dos dias da nossa existência. Os braços e pernas caminham com o movimento do corpo conforme a cadência.Existe tanta coisa importante no mundo científico para ser descoberto, e milhões de dollares são gastos em torno de pesquisas como essas para saber como economizar energia com os braços atados? Haja paciência !

Marco Antonio Zanfra disse...

Ué, mas se eles não fizerem essas pesquisas "inadiáveis", sobre que tipo de besteiras nós iremos comentar?

Carlos Martí disse...

Suponho que a sensação de estabilidade é parte de heranças culturais, da necessidade permanente de aceitação social e pouco tem a ver com questões fisiológicas, pelo menos de forma direta. Claro, que esse tipo de pressão social, na melhor das hipótesis, marginaliza e, na pior, gera frustração que, por sua vez, leva a estados depressivos, imprescindível condição para enfermar. Suponho que, ao fazermos parte de sociedades conservadoras, estamos sempre expostos à intolerância ao "fora de padrão", às forças que insistem em reenquadrar tudo aquilo que apresenta desvios.
Agora, estabilidade mesmo é ter a miraculosa capacidade de manter corpos de entre metro e meio e dois metros de altura sobre bases de pouco mais de vinte centímetros e, para dificultar, em constante movimento. Esquerda, direita, esquerda, direita, braços e pernas alternando-se numa marcha constante e uniforma para, quem sabe, conseguir burlar inevitáveis desequilíbrios e irremediaveis quedas.

Carlos Martí disse...

Vivemos tropeçando, caindo, levantando e sacudindo a poeira.

Marco Antonio Zanfra disse...

Supondo-se que também consideremos "fora do padrão" andar com as mãos paradas junto ao corpo, podemos crer que você abordou, num só comentário, os dois assuntos do blog, com ligeira propensão, pela precedência, à longevidade matrimonial e seus efeitos mais psicossociais do que físicos, certo?

Carlos Martí disse...

É possível, mas o mais provável é que os dois assuntos do post já estivessem metaforicamente relacionados, que eu só fiz ressaltar (estabilidade, caminhos tortuosos e inacreditáveis mecanismos de equilíbrio). Não sei se foi um velho palhaço, mestre da arte circense que disse que todos nós deveriamos aprendender as técnicas de cair em vez de viver sob o medo constante às quedas.
Poderia ser muito menos doloroso.

Anônimo disse...

Prezado Zanfra

Adorei saber do poder de queima das calorias, com os braços junto ao corpo, nos exercicios de caminhada....vou tentar na corrida..rsrsrsrsrsrsrsrsrs

sonia carotta

Marco Antonio Zanfra disse...

Bons tombos!!!