sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pertinho do inferno

Estamos entrando em setembro. Mais 116 dias e chegamos ao Natal. E esse é o prazo para, segundo os cálculos do presidente chileno Sebastián Piñera, os 33 mineiros soterrados a 700 metros de profundidade na mina San José voltarem à superfície, vivos e bem.
Vivos e bem?
Quem sobreviver 140 dias sem ver ou ser tocado pela luz do sol há de sair do buraco pelo menos com complexo de minhoca. Se não tiver o complexo, é bom que pelo menos assuma a forma física do citado anelídeo, já que o túnel que está sendo alargado para o resgate terá o diâmetro de apenas 66 centímetros. Uma barriguinha de chope não passa.
Mas, ironias à parte, gostaria que meus poucos e aeróbios leitores tentassem colocar-se na situação deles: o que significa a 33 homens estarem confinados num espaço de 25 metros quadrados, a 700 metros de profundidade, com uma temperatura entre 32 e 36 graus, em ambiente com alto índice de umidade, ar rarefeito e impregnado de poeira, sem banheiro e cujo único contato com a superfície e a vida real se dá através de um tubo com oito centímetro de circunferência?
Isso sem contar que a mais otimista das notícias que chegam a eles é de que seu resgate deve acontecer somente dentro de um período mínimo de três meses. Sem banho, sem ar, sem sol, com água e alimentos racionados. E sujeitos a variáveis de comportamento que certamente vão tornar seus dias imprevisíveis e quem sabe intoleráveis.
Não quero ser pessimista, mas será que eles conseguem? Não sei de meus leitores, mas sinto uma certa agonia – e até fisicamente uma falta de ar – quando imagino a situação daqueles homens. Eu, que tenho quase um surto claustrofóbico ao me imaginar dentro de um tomógrafo computadorizado, não faço a mínima ideia de como me comportaria lá dentro. A gente sabe por experiência que basta ter notícia de que vai faltar água para que nossa sede pareça urgente e irrefreável. Imagine esse efeito psicológico multiplicado por 33 homens e por 140 dias.
O que sobreviverem serão herois só pelo fato de sobreviverem.

15 comentários:

Gleydson disse...

Meu Deus! Já fiquei agoniado também só de pensar. CREDO!

Carlos Martí disse...

Pela proximidade da situação gostaria de comentar as circunstâncias desse grupo de mineiros chilenos e a aparente normalidade com que seus patrícios enfrentam-nas, para surpresa de outra parte do planeta. Primeiro, lembrar que a capacidade animal de adaptação é nata, maior do que imaginamos, alguns mais preparados que outros, para enfrentar situações execpcionalmente adversas. Entre os homens, muitos buscam novos límites por diversão, outros, necessitam alcançá-los para o seu sustento. Outra história bem diferente, é o ser social e as consequências que experiências como essa possam causar-lhe. De todos modos, em algumas regiões do mundo, a mineiração subterrânea é a única forma de sobrevivência (ou, em vários sentidos, de infravivência) e profissões como essa, que passam de gerações a geração, acabam desenvolvendo tipos socialmente especiais, próprios de uma vida no buraco, entre rochas, em meio à penumbra e umidade. Insalubre, mas digna e admirada, essa é a origem, por exemplo, do artilheiro e campeão da última copa do Mundo de Futebol, o asturiano David Villa, como tantos outras famílias da "Asturias, patria querida", filho e neto de mineiros. É isso que eu mais admiro nessa equipe de futebol, amostragem de uma geração ganhadora, descendente de humildes trabalhadores e que encontraram um caminho trilhado e muito mais fácil. Demonstram que sabem valorizar aquilo que receberam. São inteligentes e humildes e, assim espero, sigam seus filhos e netos, mesmo desconhecendo as lições da dura vida da Espanha profunda.

Carlos Martí disse...

Dedico o comentário, mais que nada, à, as vezes, deslumbrada e ingênua classe média brasileira, inigualável na busca de sendas na selva financeira, mas desconhecedora de tantas e tantas realidades que, sempre, poderiam ser enriquecedoras.

Marco Antonio Zanfra disse...

Você disse que viria ao Brasil, veio, e parece que já foi embora... e nem trocamos uma palavra durante esse período!

Serafim disse...

Caro Zanfra

O que leva um homem a trabalhar à 700 metros de profundidade?Quem pagará os traumas que, com certeza, os sobreviventes carregarão por um bom tempo?
Torço e rezo para que saiam vivos dessa situação catastrófica em que se encontram para que tenham o melhor Natal de suas vidas.
Abraços

Carlos Martí disse...

Que leva um homem a trabalhar a 200 metros de altura? Que leva um homem a enfrentar ondas gigantescas para pescar? Que leva um homem a traficar com órgãos? Que leva um homem a traficar com seres humanos? Que leva um homem a explorar outros homens? Que leva um homem a trabalhar numa indústria de tabaco? Que leva um homem a costurar bolas de futebol em troca de um prato de comida? Que leva um homem a enganar compatriotas com ilusões de uma vida nova? Que leva um homem a acreditar cegamente em outro homem? Que leva um homem a fechar os olhos a tantas realidades? Que leva um homem a esconder-se diariamente atrás da trama de uma telenovela? Que leva um homem a conformar-se com uma única versão dos fatos? Razões não faltam.

Carlos Martí disse...

Marco, “mea culpa”, que atenuo pelos intermináveis e traumáticos tramites de um inventário, um casamento de filho e uma festa surpresa do 50º aniversário da companheira. I beg your perdon, sir.

Carlos Martí disse...

perdão, pardon.

Marco Antonio Zanfra disse...

Não tenho outra alternativa se não perdoá-lo, caro amigo hexacampeão, com perdon ou pardon.

cilmar machado disse...

Toda essa angústia e solidariedade que manifestamos têm raízes talvez muito mais profundas que os 700 metros que nos separam dos mineiros chilenos. Se atentarmos bem, também o povo brasileiro sofre de igual problema. Basta observar a nossa Saúde, notadamente no atendimento hospitalar, procedimentos e internações onde o povo experimenta igual tempo de socorro (3 a 4meses) para ser atendido em suas necessidades mais prementes. O que se falar da demora na realização de cirurgias em nossos hospitais? Será que o paciente agüentará tanta demora sem que não venha a óbito?
O que mais desanima é que, mesmo num ano eleitoral em que estamos vivendo, os principais candidatos à Presidência, abordam o tema de forma superficial e não definitiva. Um propala a necessidade de instalação das chamadas AMES (Atendimento Médico Especializado), preocupando-se com o atacado quando o problema de saúde do brasileiro é mais no varejo, ou seja, de pronto atendimento sem frescuras. Também na saúde, São Paulo apresenta uma realidade bem diferente dos demais Estados brasileiros. Não adianta querer calçar os sapatos antes das meias. A outra candidata acha que o problema é financeiro. Como se já não bastasse a onerosa carga tributária a que estamos sujeitos, acena como solução o ressurgimento do malfadado Imposto do Cheque. Valha-nos Deus!

Débora Rosa disse...

Hoje quando saí do hospital e entrei em um ônibus lotado, acabei resmungando. Diferentes cheiros, pouco espaço, diferentes vidas. Não sei o que seria de mim há 700 mentros de profundidade, sem a luz do sol.
Acho que acabamos nos adaptando a tudo o que a vida nos obriga.
Boa sorte para essas 33 vidas.
Bjo
Sua afilhada, Débora

Marco Antonio Zanfra disse...

Pois eu tenho certeza, Débora, que aqueles 33 mineiros dariam tudo para estar nesse ônibus lotado de que você se queixou...

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
Demorei nessa resposta, meditando nas profundidades das palavras difíceis de se expressar quando se pensa por algum momento, na empatia que me leva a tal situação.Manter-se calmo diante das circunstâncias subterrânea num círculo de paredes barrentas, aspirando sílica (óxido de silício), causando a silicose,petrificando os pulmões que a partir daí,pode-se considerar um indivíduo enfermo pelo resto da vida,levando à morte.Esses pobres e explorados mineiros a 700mts do solo, espera-se que tenham os equipamentos adequados para se protegerem das nocivas substâncias químicas e tão logo retornem aos seus lares com todos os direitos trabalhistas que lhes são de praxe.Que a OIT ( Organização Internacional do Trabalho)seja peremptória quanto a esse direito humanitário.

Anônimo disse...

Prezado Zanfra
No meu modo de pensar, a situação pregada pela vida a esses 33 mineiros isoalados nos 700m de profundidade, cria uma relação de solidariedade muito acima do que podemos imaginar. O único premio que os aguarda é saírem vivos de lá e voltarem para suas familias, o que sinceramente espero que aconteça.Afinal, não estão participando de nemhum reallyty show, desses besteróis que vemos na TV e que se concorre a premios materiais. Alí é a luta pela vida,simplesmente e nada mais merecido do que ganhar essa competição.
bjusssssssss
sonia carotta

Marco Antonio Zanfra disse...

Grande, Sônia! Fiquei comovido com o que você escreveu!