terça-feira, 26 de junho de 2007

Falta de valores

O Jornal Nacional de ontem fez um confronto das opiniões de dois pais envolvidos no caso dos estudantes que espancaram a doméstica no Rio: de um lado, o pai da vítima diz que os agressores agiram assim por falta de limites impostos pela família, por excesso de “mordomias” (palavra dele); de outro, o pai de um dos rapazes diz que os pais não têm culpa e que “não é justo” que os rapazes – “que trabalham e estudam” – fiquem presos.
Na opinião dele, o que seria justo, então? Quatro rapazes teoricamente bem formados, bem alimentados, bem vestidos, sem problemas financeiros e, segundo a polícia, sem estarem sob efeito de álcool ou drogas, agridem gratuitamente uma pobre trabalhadora (supostamente por terem-na confundido com uma prostituta; mas e daí se fosse?), roubam-lhe dinheiro e o telefone celular, deixam-na no meio da rua cheia de fraturas, e não é justo que eles fiquem presos?
A postura desse pai mostra bem o que falta aos estudantes, porque falta a ele: valores. E, por isso, além da indignação pela agressão covarde, ele nos deixa indignados por pensar assim e falar ao microfone como se isso fosse a coisa mais natural do mundo – porque ele acredita que seja assim. O que ele acharia justo para punir o filho pelo que fez? Um fim de semana sem ir para a balada, de castigo? A cruel e impiedosa proibição de Papai Noel trazer-lhe um carro novo no Natal? O corte de sua sobremesa durante um mês, porque é muito feito bater nas pessoas, mesmo que sejam pobres?
Não há punição que consiga desfazer o nó na garganta causado pela indignação, especialmente se considerarmos que a punição, se houver, será simbólica. Mas, o que é pior, não há punição que consiga reverter esse quadro. Por não haver disponível o manancial familiar, onde beber do caldo de valores morais e éticos tão necessário para sustentar a civilização?

2 comentários:

Fabio Jose disse...

Não vi sinceridade nas palavras dos pais dos quadrilheiros. Devem acreditar que foi apenas uma brincadeirinha de mau gosto.

Marco Antonio Zanfra disse...

O problema é esse, Fabião: havia sinceridade. Para o pai, o que o filho fez não foi nada. O filhinho para poderia ficar com "bandidos" porque, na opinião do pai, não é um bandido. Apesar de tudo, da crueldade, da covardia, da truculência gratuita com pessoas indefesas e infinitas vezes mais fracas, o pai acredita, como você mesmo diz, que foi "uma brincadeirinha", "coisas de juventude".