segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Festa na tribo


Os índios terenas de uma aldeia urbana em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, resolveram escolher seu cacique por voto direto. Os maiores de 16 anos armaram-se de cédulas de papel e, dos 277 votos depositados na urna, 134 indicaram o nome da índia Enir da Silva Bezerra, de 53 anos, para o cargo. A tribo agrega 135 famílias e será pela primeira vez chefiada por uma mulher.
“Se fosse há dez anos, eu não venceria a eleição, porque a mulher, na cultura indígena, precisa cuidar da casa, dos filhos. Quem decidia os assuntos da comunidade eram os homens, mas isso começa a mudar”, avaliou a nova morubixaba.
Enir, mãe de oito filhos, não é a primeira cacique mulher – ela própria conhece duas, ambas do Mato Grosso – e também não é a primeira escolhida por voto direto. Até que ponto sua indicação para chefiar a aldeia Marçal de Souza representa um avanço na participação da mulher na vida pública brasileira é uma incógnita. Numa pesquisa bancada pela Folha Online, 72% dos internautas consultados consideraram que a eleição de uma índia para ocupar o posto de cacique significa uma “redução do preconceito em relação ao sexo feminino”. Será mesmo?
Desde 1996, a mulher tem sua participação na vida política praticamente como uma coisa impositiva: com o estabelecimento de quotas – primeiro 20% e depois 30% - os partidos se viram obrigados a compor as chapas majoritárias com a presença feminina. Foi, sim, um grande avanço. Mas não sei até que ponto a resposta tem sido satisfatória.
Não entendo: se “mulher vota em mulher” – como apregoam as ladainhas das candidatas a cargos eletivos – por que a Câmara não é composta em sua maioria por mulheres? Segundo levantamento do TSE no início de 2008, as mulheres representavam mais da metade do eleitorado brasileiro: de 127,4 milhões de eleitores, 65,9 milhões (51,7%) eram mulheres.
Transpondo esse percentual para o Congresso, e valendo a premissa de que “mulher vota em mulher”, deveríamos ter pelo menos 265 deputadas eleitas. Mas temos apenas 46 – ou pouco menos de 9% dos 513 deputados que compõem a Câmara. No Senado, a coisa é um pouco melhor: elas são dez (12,34%) entre os 81 senadores.
Trazendo o exemplo para mais perto do nosso pequeno quintal – Florianópolis – as eleições municipais deste ano mostraram que, entre os 235 candidatos a vereador, havia apenas 43 mulheres (18,29%), abaixo portanto da quota imposta por lei. O detalhe complementar é que nenhuma delas conseguiu eleger-se: a mais bem votada atingiu a vigésima-primeira colocação, mas apenas os 16 primeiros foram eleitos.
Numa lista de 130 países, o Brasil é o 110º colocado quando a referência é a participação da mulher na vida pública, de acordo com dados da União Interparlamentar. Será que isso representa apenas o preconceito em relação ao "papel da mulher"? Se for, a eleição de uma cacique do sexo feminino pode dar uma chacoalhada nas cabeças conservadoras? Se não for preconceito, o que falta para as mulheres ocuparem na política a fatia que proporcionalmente represente sua grandeza?

13 comentários:

Anônimo disse...

Acho que as mulheres governam mais nos bastidadores... nao há aind auma tradição de "palco" para as mulheres.
Vamos ver se voce me identifica. abs

Marco Antonio Zanfra disse...

Quem será? A Lílian não é porque ela não escreveria "bastidadores"...

cintia disse...

Ainda bem que nem toda mulher vota em mulher... senao teriamos que aguentar aqui a Sara Palin por 4 anos..

Marco Antonio Zanfra disse...

Tem razão, prima. Eu não tinha pensado nisso.

Vico disse...

É muito machismo arraigado para mudar assim tão facilmente. Acredito que, um dia, as mulheres vão ocupar o lugar delas na política. Vai ainda demorar um pouco, mas elas chegam lá.

Mary Kazue Zanfra disse...

Penso que nesse caso, um dos maiores empecilhos à efetivação da igualdade de gênero, são as próprias mulheres. Um dos instrumentos de reprodução do nosso modo de vida é a educação, e este, na maioria das vezes e na maior parte do tempo é executado pelas mulheres. Desta forma, seria interessante que as mulheres reconhecessem que a dominação masculina é um fato, e que ao reproduzirmos valores patriarcais e machistas aos nossos filhos, estamos colaborando para o fortalecimento dessa situação. Este reconhecimento, não significa que concordemos com essa situação, mas sim, para que ela não seja naturalizada, banalizada e nem reduzida à uma “guerra dos sexos”. Afinal de contas, além da dupla exploração no trabalho (assalariada e em casa), da opressão social, assédio moral e sexual, são as mulheres que estão sendo assassinadas. Alguns especialistas estão chamando de “generocídio”, por se tratar de crime de ódio contra uma categoria específica: as mulheres. Enfim, poderia ficar horas argumentando, mas esse não é o espaço adequado, só queria deixar registrado que a “coisa é séria”, e fazer reflexões a respeito das próprias atitudes, é também um caminho para a mudança.
Abçs a todos e todas,
Mary

Marco Antonio Zanfra disse...

Acrescentando e exemplificando, com a conivência da autora acima: a mãe repassa aos filhos que menina brinca de boneca e ajuda na arrumação da casa; menino vai para a rua, que lugar de menino é na rua. Se ela disser o contrário, quem é que vai aceitar? Acho que vai demorar muito tempo até que a "célula-mater" da família possa ter autonomia de escolher o que vai ensinar a cada um dos filhos.

Anônimo disse...

Prezado Jornalista

Hoje ninguém mais quer ser o que é, e pelo que os jornais noticiam, não sei se as crianças e os jovens hoje são mais felizes do que as do seculo passado, e tambem não sei se as mulheres realizadas que estão a frente de grandes empreendimentos chefes de grandes negocios, são mais felizes que nossas bisavós que só obedeciam ordens dos maridos e eram consideradas relativamente incapazes, e nem podiam votar.
Realmente nesse caso não sei o que dizer.
Um grande abraço
Maria Gilka.

Anônimo disse...

Prezado Jornalista.

Haverá um perfil completo?
O perfil mostra apenas uma orelha, meio nariz, um olho . Picasso referindo-se a arte egipcia da antiguidade ,disse que ela era mais moderna do que tudo que os artistas estavam fazendo na sua época. Nos murais encontrados ,as figuras egipcias estão representadas de perfil com a marcha parada , isto é um dos pés está sempre na frente , e no rosto de pefil o olho que aparece está desenhado de frente.O olho de peril não mostra o olhar tão bem como quando visto de frente, entretanto o nariz de peril é mais caracteristico do que se visto de frente. A policia ficha as pessoas tirando um retrato de frente e o outro de perfil.
Um grande abraço
Maria gilka.

Marco Antonio Zanfra disse...

Muito interessante essa do perfil. De repente, talvez fosse melhor se nós tivéssemos nascido com a cara de uma pintura egípcia. Não é muito bonitinho, mas o ser humano se acostuma a tudo.

Ricardo Câmara disse...

Prezado Jornalista Zanfra;
A mulher evoluiu muito no decorrer desses séculos. Aquela imagem de "prendas-domésticas", parir e criar filhos, foi sepultado no passado da subserviência ao marido austero. Hoje o ser feminino de belas curvas e "frágil", alçou um alto vôo pelas suas conquistas igualitárias junto ao seu parceiro do sexo oposto, o homem.Ocupando algumas posições sociais, embora admite-se ainda algumas restrições, pois na seara das forças armadas as patentes de alto escalão aos poucos, gradativamente, estão sendo reconhecida, haja vista a promoção de Ann E. Dunwoody para general de quatro estrelas, o último maior posto militar do exército dos Estados Unidos, enquanto aqui no Brasil entre forças-armadas e auxiliares (policias militares),percebe-se o limite imposto as meninas de fardas.A mulher é capacitada para desempenhar as mesmas funções sociais do homem como também demonstra resistência física, força -vide as competições nos jogos olímpicos-contudo,caras e delicadas donzelas, jamais se abdiquem de sua feminilidade. Um grande beijo...

Anônimo disse...

Prezado Jornalista.
Com tudo que a mulher parece ter alcançado ,depois de tanta luta para se igualar ao homem ela continua sendo o segundo sexo. Garanto que se fosse um homem que tivesse chamado a atenção para o que você escreveu " Perfil Completo" na certa faria você refletir e até discutir sobre a expressão. Como foi uma mulher você não prestou atenção e fez uma graça, isso quer dizer, que faça a mulher o que fizer ela sempre vai ser dependente do homem, mesmo que não seja financeiramente. Penso que o mundo seria mais feliz se ficasse " Cada macaco no seu galho"
A pintura e o desenho são a representação de uma ideia, é a comunicação não verbal. Picasso dizia que:" a pintura é uma mentira que conta uma verdade" foi por isso que eu o citei.
Na verdade eu queria discutir se existe " perfil completo" ou se em tão poucas linhas ( como no desenho de peril) pode-se apenas traçar o perfil de uma pessoa.
Agradeço sua atenção
Um grande abraço
Maria Gilka.

Cintia disse...

De tanto a gente falar, acabamos por reforcar ainda mais as diferencas. Coisas de consciente coletivo.. Aqui nos USA, as empresas se gabam de promover a diversidade e inclusao, criando grupos de asiaticos, grupos de negros, grupos de hispanicos.. que ao meu ver so faz criar um monte de ilhas..se a gente parar de se rotular deste ou daquele grupo e passar a agir como parte de um so, talvez as coisas comecem a mudar.. E o humor e um dos melhores veiculos para nos enxergarmos a propria desgraca :)