segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Juramento de hipócritas


Reconheço que o assunto já é um tanto requentado, mas não vou conseguir dormir se não der o meu pitaco no caso desses 14 estudantes de Medicina de Londrina que encontraram uma forma um tanto, digamos, exacerbada de comemorar o final do curso: invadindo bêbados os corredores do Hospital Universitário e perturbando os doentes que, naquelas condições, o que menos precisavam era de uma demonstração de selvageria, deslocada e fora de hora.
Tenho acompanhado o caso pelos jornais, li que eles conseguiram colar grau graças à intervenção da Justiça, mas não percebi em nenhum texto se houve ou não constrangimento dos formandos na hora de declamar o “juramento de Hipócrates” na cerimônia de formatura. Fico imaginando se nenhum deles gaguejou na hora de dizer “... em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário...” Eu teria ficado vermelho. E olha que não sou exatamente um grande exemplo de pudor.
Pelo que entendi do noticiário, os ditos “médicos” julgaram-se injustiçados com a recusa da reitoria da Universidade Estadual de Londrina em permitir sua formatura. Para eles, ao que parece, foi perfeitamente normal promover algazarra despropositada num ambiente que abrigava seres humanos abatidos física e moralmente. E que estavam ali justamente confiando na promessa de amparo, lenitivo e esperança que os promotores da balbúrdia, pelo menos teoricamente, representavam.
São uns incompreendidos, pois.
Longe de mim pretender carregar na severidade do julgamento, mas acho que faltou aos 14 estudantes um pouco do sentimento de humanidade que deve correr nas veias de alguém que se prepara para servir como esperança de alívio ao sofrimento humano. Acho que é um sentimento intrínseco, inato a alguém que pretenda ser médico. Como alguém pode julgar-se com vocação para a medicina se não consegue demonstrar um mínimo de respeito à dor alheia?
Será que é porque quem procura um hospital universitário geralmente é pobre? Será que a vocação desses “médicos” restringe-se a cuidar dos males da classe média para cima, a atender em consultórios muito bem montados em bairros nobres da cidade – e não em corredores cinzentos, mal iluminados e tristes, alcançados pelo Sistema Único de Saúde? Será que a intensidade da missão de aliviar a dor humana é medida de acordo com a conta bancária do doente?
Se for por aí, acho que eles fizeram o juramento errado. Caber-lhes-ia o “de hipócritas...”

11 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Marco antonio
inicialmente gostaria de desejar a você e a toda sua familia um Feliz natal e um ano novo com muita saúde, paz e amor.
O que está faltando atualmente é Alteridade, que quer dizer tratar o outro como você quer ser tratado.
Recentemente na polêmica sobre a 28 Bienal de São Paulo, os jornalistas não pouparam xingamentos ao curador, a diretoria e a instituição Bienal. O pior é que jornalistas ignorantes sobre arte usaram o prestigio do espaço na mídia para destilarem o seu ódio, ofendendo e demonstrando toda sua arrogância .
" É necessário cuidar da ética para não anestesiarmos a nossa consciência e começarmos a achar que tudo é normal".( Mário Sergio Cortella- Qual é a tua obra?)
A criança começa batendo na baba,na mãe , no pai, e todos acham " engraçadinho" na empregada , depois na escola bate na professora, e por aí vai.
Parabéns a você que não passou a mão na cabeça de desordeiros , como fizeram seus colegas no caso do jornalista que atirou os sapatos e da moça que pichou dentro do prédio da 28 Bienal de São Paulo.
Um grande abraço
Maria gilka.
Ps- visite o site www.arbasp. com br e deixe um comentário

Cintia disse...

Ja fiz muita coisa estupida na minha mocidade, e sei que quando jovens nao temos muita "medida".. Mas esses formandos ja deveriam estar um pouco mais amadurecidos, e com um senso de responsabilidade digno da profissao que abraçaram. Mas com os valores invertidos, sao eles os injustiçados, pobrezinhos! Dai muitos de nos caimos na armadilha de "pesar" o delito e acabamos por repetir a estupida frase: ".. em vez de pegar verdadeiros criminosos, perdem tempo com coisa pequena"..
E assim se consolida nossa sociedade baseada na conveniência..

José Luiz Teixeira disse...

Zanfra, os formandos de Medicina são realmente desmedidos. Lembra do jovem chinês afogado na piscina do Caoc, aqui em São Paulo? E de outras violências cometidas em diversas universidades do Brasil? Acho que para ser médico é preciso ser um pouco louco, desmedido, se não, eles não aguentam a barra.

Feliz Natal e um ano novo "bestseller".

Anônimo disse...

caro amigo, não vai comentar o que esta acontecendo com os praças/lei 254?

Fabiano Marques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabiano Marques disse...

Muito pertinente o assunto.
Outro dia conversava com um médico "das antigas".
Daqueles que têm (ou "tem" com a nova regra) um sentimento humanitário.
O dito profissional se queixava dizendo que não vê nos novos médicos aquela vontade, aquela vocação que se tinha antigamente.
Prova disso é que a maioria, segundo ele, procura especializações que tragam rendimentos muito lucrativos.
Disse-me o médico que ninguém mais entra para a medicina para atender o povo, para cair no PS e cuidar de pacientes em estado grave.
Querem apenas o jaleco para atender quem possa pagá-los bem... muito bem.
Não que isso seja um erro. É o capitalismo. É preciso atender, sim, as madames que precisam de seios novos para contrastarem com suas caras detonadas e reformadas pelo botóx, ou queiram tratar a miopia com raio laser (que tbm é puramente estético de acordo com a VISÃO da classe).
Vai explicar isso aos miopes! Piada brasileira! Vou poupar os portugueses.
Retomando o raciocínio lá do início. É o fim.
Imagine se um monte de advogados fazendo isso num Fórum. Cadeia. Não tenha dúvida.
Outra cena: Diáconos invadindo uma catedral, cheios de vinho na cabeça. Excomunhão no ato.
Esses formandos de Londrina são uns bundões.
Deveriam ter pego os rojões que soltaram na frente do Hospital Universitário e transformado em supositório para eles mesmos, como automedicação. Afinal, eles são habilitados para isso.

Marco Antonio Zanfra disse...

Dramático e radical, Fabiano...

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
Encaixa-se muito bem o revés de Hipócrates pelo Hipócratas conforme afirmas nesse texto. Há muito tempo que esse juramento?(de Hipócrates) foi às favas por essa nova geração de esculápios. Foi-se o tempo em que tais profissionais da medicina exerciam com méritos a sua função com humanismo.Os tempo de hoje, percebe-se um certo mercenarismo em torno da profissão (a mais procurada: estética)onde corpos são lapidados a bistuti por uma vasta quantia em "benefício" do subjetivismo alheio que não quer admitir o transcurso do tempo e se envaidece pelos estiramentos da cutis.O vandalismo praticado por esses estudantes revela o futuro agonizante dos pacientes que se submeterem aos "cuidados" desses magarefes do acaso!

Anônimo disse...

Prezado Zanfra,
Infelizmente há profissionais e profissionais, mas na área da saúde, como bem diz o Dr.José Eduardo Siqueira, diretor(ou ex)da faculdade de Medicina de Londrina ,que com certeza esses elementos o conhecem:"ao primeiro requesito pra alguém entrar num curso na área de saúde é gostar de gente e sentir compaixão pela dor do outro".Infelizmente essa lição eles não aprenderam e perderam uma excelente oportunidade e quem sabe no futuro haverão de agir como um neuro-cirurgião de Goiânia conversando num sábado descontraidamente num clube da cidade com um amigo e fez o seguinte comentário em alto e bom som:"...amanhã estarei de plantão na unidade tal, tomara que chegue umas cabeças quebradas que eu estou precisando ganhar um bom dinheiro neste restante de mes...".sou moradora desta cidade e morro de medo de cair na mão deste DOUTOR!

Anônimo disse...

Que bom que, de vez em quando a gente le alguma coisa sobre os "Doutores sem Fronteira" e da um alivio danado saber que ainda existe gente que se da ao proximo..

Vico disse...

O melhor, todos concordamos, é não precisar de médicos. Por isso, não abusem durante as Festas. A todos os companheiros do blog, Feliz Natal e um Brilhante Ano Novo!