segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Lata de sardinha enferrujada


Descubro, depois de velho, que os robôs também morrem.
Não da forma como sucumbem hoje as engenhocas de alta tecnologia – por desgaste de processadores, softwares corrompidos, queima de microchips ou outra causa mortis mais complexa. Morrem simplesmente como morre um prosaico e frágil ser humano: com o coração parando de bater.
Pois morreu o robô da série Perdidos no Espaço, aquela lata de sardinha enferrujada que erguia as pequenas antenas como um cão alerta empertiga as orelhas e que tanta irritação causava ao Doutor Smith – a primeira essência de velhacaria que eu vim a conhecer, ainda na aurora da minha pré-adolescência.
O mais notável dessa minha descoberta é que foi a partir da morte do ator Bob May, na semana passada, que eu soube que era ele quem dava vida ao robô. Antes, mesmo reconhecendo que em meados da década de 60 não havia tecnologia que fornecesse inteligência e livre-arbítrio a um autômato, julgava que aquela figura em forma de barril de chope era um amontoado de transistores e engrenagens que se movia por controle remoto. Não deixa de ser triste saber dessa novidade apenas agora que a substância do robô se foi.
Dizem que Bob May foi escolhido para ser a alma do robô porque era o único no estúdio que cabia dentro da estrutura. Pela foto aí em cima, dá para ver que ele cabia, sim, mas que estava longe de ficar confortável. Imagino o trabalho que dava para entrar e sair. Talvez essa dificuldade explique o fato de que, nos intervalos das gravações, May continuasse dentro da fantasia, fumando seus cigarrinhos e dando a impressão, pela fumaça emanante, que o robô estava passando por uma das milhares de tentativas de sabotagem que enfrentou ao longo dos 83 capítulos da série.
Perdidos no Espaço esteve em cartaz entre 1965 e 1968. Recentemente, coisa de dois anos atrás, o canal pago FX ( ou Eféx) retomou a série (não sei se completa) e eu tive a oportunidade de rever alguns episódios. Claro que não foi a mesma coisa: naquele tempo eu fazia parte da missão, era tripulante do Júpiter II, ajudava a destruir monstros do espaço com as pistolas laser e era jogado de um lado para outro na nave colhida por tempestades cósmicas; hoje, se uso o controle remoto para aumentar o volume posso considerar essa como minha maior participação no enredo. Além disso, com a idade, meus limites de risco não me permitem mais enfrentar aventuras assim.
Mas a morte de Bob May acabou trazendo boas recordações, do tempo em que eu interagia com a Família Robinson como me era permitido interagir aos 12 anos de idade. A única tristeza ficou por conta de saber que, depois de ter resistido ao maquiavelismo do Doutor Zachary Smith e às centenas de ataques das mais horrendas criaturas do cosmo, o robô sucumbiu a meras complicações cardíacas.

23 comentários:

Anônimo disse...

Só discordo em uma coisa:A série foi muito além de 1968,já que, o anônimo que aqui vos escreve,nasceu em 1964,e,por mais progidiosa que seja a minha mémoria,com apenas quatro anos,não ia lembrar de tantos detalhes.Lembro-me também que quando o nobre jornalista permitia que a coisinha mais linda da família participasse da brincadeira,era sempre no papel do chatinho Will Robinson.Seria uma chata coincidência,ou uma punição para o eterno café com leite?

Rui Zanfra

Anônimo disse...

Só mais uma coisinha:Quando tiver alguma notícia sobre "Viagem ao fundo do mar",publique.Assim eu posso lavar mais roupa suja.

Rui Zanfra

Marco Antonio Zanfra disse...

É, temos de fazer alguns reparos:
1 - A série passou de 1965 a 1968 nos Estados Unidos; não me lembro exatamente do período de sua exibição no Brasil. Mas, se "a coisinha mais linda da família" se lembra de tantos detalhes, certamente avançamos na década de 70.
2 - Will Robinson não era chatinho. Era um geninho, e o maior amigo do robô.
Mas é uma simples questão de faixa etária: os menores na brincadeira têm fatalmente de fazer o papel dos menores na história.
E pode ter certeza de que, se quiséssemos puni-lo, você seria um monstro do espaço e morreria logo no começo da brincadeira.

fábio mello disse...

Marcão, you sanctimonius scatterbrain!

Marco Antonio Zanfra disse...

Cara, o scatterbrain eu até sei que é distraído, avoado etc., mas o outro eu não sei o significado. E não entendi o que você quis dizer, no global.

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
"Perigo,perigo,objeto não identificado se aproximando..." era mais ou menos assim,o velho robô da nave espacial da família Robson daquelas animadas tardes que o tempo nos deixou saudades do seriado 'Perdidos No Espaço'. Alguns atores do seriado em questão já se foram,o comandante da nave que não lembro o nome, só sei que mais tarde fez o papel de "O Zorro"; o Dr. Smith (o ator), também se foi,e agora o que eu não conhecia,a voz que dava vida ao robô, Bob May.São tempos áureos que essas emissoras de hoje, deveriam abrirem espaços para as crianças de antanho terem o privilégio de recordarem suas pré-adolescências, assistindo programas de seriados como este (Perdidos no Espaço);'A ilha dos birutas';'Viagem ao fundo do mar';'A marca do Zorro';'Rin-tin-tin';'Bonanza';'O homem do rifle'; 'O rebelde', enfim, são tantos, que com certeza alegreria aquela geração de outrora...

fábio mello disse...

"Carola"

"You sanctimonius scatterbrain" era o insulto preferido do dr. Smith quando ele queria enher o saco do robô.

O resto não carece de explicações. Se você não entendeu a brincadeira, paciência.

Marco Antonio Zanfra disse...

1 - Ricardo: na verdade, o Bob May apenas movimentava o robô; a voz (original) pertencia a Dick Tufeld.
2 - Fabião: não tive oportunidade de assistir ao seriado com som original e, portanto, nunca ouvi o velho Zach pronunciar essa ofensa. Tirando o "sua lata de sardinha enferrujada" e o "nada tema, com Smith não há problema", não tenho outras referências do vocabulário dele.

Anônimo disse...

Existem coisas que fazem parte da infância da gente, eu pertenco á uma época mais recente, uma época em que pronunciávamos "oh e agora, quem poderá e defender" na escola enquanto estávamos brincando.
Depois de um certo tempo decorrido, os seriados nos parcem ainda mais grotescos, mas ainda continuamos fãs deles.

Marcello Peres Zanfra

Anônimo disse...

O nome do ator que fazia o comandante John Robinson e,que mais tarde viera fazer o zorro, era Guy William(ou Willians).O geninho,Billy Mumy e a Penny,Angela Cartryght(não sei se é assim que se escreve).O dublador do Dr Smith era o mesmo ator que fazia aquele mendigo da "Praça da alegria".A dubladora da matriarca dos Robinson também dublara a Wilma dos Flintstones,e a "Bruxa do 71" do não muito mais recente "Chaves".Morreu,também,recentemente.
Rui Zanfra

Marco Antonio Zanfra disse...

1 - Marcello: na verdade, você pertence a uma época muuuuuito mais recente.
2 - Rui (pai do Marcello): a Penny é uma estrelinha meio apagada no universo hollywoodiano; mas em compensação a irmã dela - Verônica - dá de dez: participou de filmes como "As bruxas de Eastwick" e "Os invasores de corpos", além dos seriados "Law & Order" e "Arquivo X".
Quanto ao "chatinho" do Will Robinson, o Billy Mummy até banda de rock tem!

fábio mello disse...

O ator era Borges de Barros. Os dois se encontraram num programa da Hebe, se não me engano. Jonathan Harris, conta a lenda, disse que o brasileiro era o melhor dublador em todo o mundo que emprestava a voz ao dr. Smith.

Na internet tem uma série de sites que trazem diálogos no original, música tema, produtos para vender (réplicas em miniatura do robô, por exemplo).

Blog do Morani disse...

26/01/09

Meu caro Zanfra:

Da série em debate - PERDIDOS NO ESPAÇO - assisti somente até o segundo capítulo, mas o que realmente nos deu a impressão de ser coisa "séria", assim como "VIAGEM AO FUNDO DO MAR" E O "HOMEM DE SEIS MILHÕES DE DÓLARES", foram apenas os dois primeiros; depois degringolou para uma comédia em capítulos semanais, com situações absurdas como os encontros a outros seres humanos piratas e outras cosita mais! Minhas filhas e minha mulher assistiram a todos. Reservei-me o direito de ignorar. Não gostei, sinceramente, e hoje nem me traz saudades por não ter interagido aos filmes. Contudo, respeito os que o acompanharam em toda a série, mas o garotinho "Gênio" fez a alegria de minhas filhas crianças ainda, daí o meu respeito. Gostei muito da série "BONANZA". Quase todos se finaram; o primeiro foi o avantajado ator do queixo quadrado seguido pelos demais. O que me deixou saudades foi a época. A grade de programação dos poucos canais eram muito boas. Deixaram-me saudades os programas humorísticos da TV Rio e TV Tupi. Lembra: "Joga a chave meu amor, não chateia por favor..." (TV RIO). Foi época de apenas uma novela por noite. Depois a "praga" pegou e como pegou! Hoje, nos enchem a paciencia com quatro novelas, BBBs e seriados nacionais chatos com o fecho, aos sábados, do humorismo insosso da Globo. Haja Paciência! E ainda há quem compre aparelhos de TV do tamanho de uma parede para ver as porcarias em tamanho gigante!!!!

Blog do Morani disse...

Da série em debate - PERDIDOS NO ESPAÇO - assisti somente até o terceiro capítulo, mas o que realmente nos deu a impressão de ser coisa "séria", assim como "VIAGEM AO FUNDO DO MAR" E O "HOMEM DE SEIS MILHÕES DE DÓLARES", foram apenas os dois primeiros; depois degringolou para uma comédia em capítulos semanais, com situações absurdas como os encontros a outros seres humanos piratas e outras cosita mais! Minhas filhas e minha mulher assistiram a todos. Reservei-me o direito de ignorar. Não gostei, sinceramente, e hoje nem me traz saudades por não ter interagido aos filmes. Contudo, respeito os que o acompanharam em toda a série, mas o garotinho "Gênio" fez a alegria de minhas filhas crianças ainda, daí o meu respeito. Gostei muito da série "BONANZA". Quase todos se finaram; o primeiro foi o avantajado ator do queixo quadrado seguido pelos demais. O que me deixou saudades foi a época. A grade de programação dos poucos canais era muito boa. Deixaram-me saudades os programas humorísticos da TV Rio e TV Tupi. Lembra: "Joga a chave meu amor, não chateia por favor..." (TV RIO). Foi época de apenas uma novela por noite. Depois a "praga" pegou e como pegou! Hoje, nos enchem a paciencia com quatro novelas, BBBs e seriados nacionais chatos com o fecho, aos sábados, do humorismo insosso da Globo. Haja Paciência! E ainda há quem compre aparelhos de TV do tamanho de uma parede para ver as porcarias em tamanho gigante!!!!

Anônimo disse...

Prezado Jornalista.

Recordar é viver, o seu texto alem de me fazer recordar os bons tempos da televisão onde podiamos todos assistir juntos aos programas sem sustos , sem ver só violência, pornografia e sem precisar mudar de canal com vergonha, de como os personagens eram nobres. Até o sacana Dr Smith da serie ,era melhor do que os " Mocinhos" dos filmes de hoje.

Vico disse...

Não tive a felicidade de acompanhar os Perdidos no Espaço quando era adolescente porque minha adolescência está muito mais pra cá do que pra lá. Mas dei umas olhadinhas nesses repetecos do FX e achei muito engraçadas essas caracterizações dos alienígenas. Parece coisa de filme do Zé do Caixão. Mas achei o robô legal, ainda moderno mesmo tendo mais de 30 anos. Pena que ele morreu.

Fabiano Marques disse...

Não entendo lhufas (chongas)de séries ou filmes que estrelam criativamente esses montes de latas que produzem barulhos estranhos.
Agora, o texto está ótimo em Zanfra! Disso eu entendo um pouco.
abrasssss

Anônimo disse...

Não é incomum acontecer isso: uma pessoa morrer e só então você descobrir que ela estava viva. É até comum demais você ouvir, diante da morte de alguém: ué, mas ele já não tinha morrido?!? Para mim, isso faz parte de nosso cerne egoísta: não damos importância às pessoas até que elas virem notícia, normalmente notícia ruim. Garanto que muita gente nem sabia que esse ator era quem comandava o robô do filme. Por isso, ele não tinha qualquer importância para elas. Só adquiriu importância agora que morreu. E, na morte, nada mais importa?
Abs, Ione

José Luiz disse...

Zanfra, eu assistia Perdidos no Espaço, mas não era tão fá assim como vocês. Como sou um ou dois (ou três?) anos mais velho que você, o que eu curtia era Bonanza, Rin-tin-tin ( ainda é com hífen e com m?, ou nunca foi?), Lassie, O Zorro (o amigo do Tonto), Roy Rogers etc. Por, apesar de metido, não vou entrar nessa discussão dos especialistas, não.

abraço

Cintia disse...

Cheguei!! Voltei!!
Estava tentando lembrar se eu podia viajar na tua nave ou nao..
Lembro que a gente (eu, o Rui e a Aninha) brincavamos de "nave" num galinheiro que a vó Pema tinha, chique que só! Tinha dois andares e a gente entrava pela minuscula portinha e que nos levava ao 2nd andar, entao "navegava"... Quantos piolhinhos de galinha a gente deve ter pego!= (fora os cocôs)

Bonassoli disse...

Doutor, estás convocado para uma paradinha. Passa lá no blog e siga as demais instruções.

Marco Antonio Zanfra disse...

Bem-vinda (creio que ainda com hífen), prima! Pena não ter sido possível dizer isso pessoalmente, já que você não estendeu sua viagem a Florianópolis, mas é bom tê-la de volta ao blog: além de divertir-me com seus comentários bem-humorados (creio que ainda com hífen, também), suas lembranças sempre me remetem ao passado longínquo. Essa do galinheiro foi demais. Mas, se bem me lembro, vocês tinham de apelar para o galinheiro porque na minha nave não entravam, não!

Cintia disse...

Voce e que pensa!!
A gente virava invisivel e voce nao nos via.. haha