segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A cabra, a vaca, o cão


E eis-me aqui outra vez falando sobre animais, essas criaturas que vivem fazendo coisas surpreendentes, apesar da aparente simplicidade de sua estrutura cerebral. Já comentei neste despretensioso espaço sobre os elefantes que sabem somar, sobre o mainá que aprendeu a miar e sobre o filhote de baleia, abandonado e faminto, que tentou mamar no casco de um iate, entre outras histórias fantásticas protagonizadas pelos bichos.
Não sei se vocês compartilham comigo essa admiração pelos “irracionais”, mas me permito voltar ao tema, com três historinhas, uma delas decididamente triste, envolvendo esses seres tão fortes e tão indefesos:

1 – Na Nigéria, prenderam uma cabra.
Mas não era exatamente uma cabra, segundo os vigilantes de uma loja de carros importados que a levaram à polícia: era um assaltante que usou de magia negra para escapar da prisão.
A história: dois ladrões tentaram roubar um carro nessa loja, foram surpreendidos e perseguidos pelos vigias. Um deles conseguiu escapar; o outro transformou-se em cabra. Mas há de pagar pelo crime depois de se “destransformar”, já que a polícia – pelo sim, pelo não – resolveu manter o animal atrás das grades.
Eu só conhecia dois casos cientificamente comprovados de zoomorfismo, ou o contrário dele, o antropomorfismo: a licantropia, ou a transformação de homens em lobos ao impulso irresistível da lua cheia, e a história do do boto cor-de-rosa, que se transforma em homem para seduzir as donzelas que ousam desfilar sua donzelice às margens do Amazonas.
Caso de ladrão transformar-se em cabra era novidade.

2 – Vacas “personalizadas” produzem mais leite, segundo pesquisadores da Universidade de Newcastle, na Inglaterra. Fazendeiros que dão nomes às vacas, tratando-as como “membros da família”, obtêm um acréscimo na produção anual de até 285 litros de leite, apontou o estudo, que envolveu 516 produtores de todo o Reino Unido.
Podemos partir do seguinte princípio: já que conversar com plantas dá resultado, garantem os fitólogos, por que não daria com as vacas?
De minha parte, tenho uma experiência negativa, nessa de não conversar com as plantas: compramos uma muda de ponkan, cultivamo-la no quintal de casa e, na primeira florada, tivemos uma árvore surpreendemente carregada de limão bravo.
Vai que nossa mudinha estivesse, sei lá, com ligeira crise de identidade, e uma conversa sincera e carinhosa poderia muito bem ter resolvido...

3 – Vencemos o impasse quando conseguimos aceitar que nossa dor por não querer que ele se fosse era muitas vezes menor que o sofrimento dele com a doença. Com isso, Arthur – aquele carinha da foto lá em cima, no tempo em que ainda tinha forças e saúde para distribuir sua rabujice pela casa inteira – conseguiu, na calorenta tarde de sábado, nossa "autorização" para descansar. E se foi mansamente, acarinhado como uma criança posta a dormir depois de arder em febre durante muito tempo.
Pesou na decisão esta última semana, em que ele rompia o silêncio da madrugada ganindo de dor, e nos olhava com o olhar súplice de quem pede ajuda para não sofrer mais. Machuca o sentimento de impotência por não conseguir livrar do sofrimento um ser que está indefeso para lutar sozinho contra ele. Dói não poder fazer nada a não ser esperar inutilmente que uma força superior venha sabe lá de onde para aplacar a angústia de quem sofre.

Cavamos sua sepultura junto ao muro, debaixo de uma buganvília em cuja sombra ele buscava refúgio nas tardes quentes como esta em que se foi. Mesmo na estranha situação de estar dentro de um buraco, ele parecia dormir, com as patas recolhidas de encontro ao corpo. Depois de quase 11 anos conosco, ainda não deu para absorver totalmente sua ausência. Mas a certeza de que foi melhor tê-lo deixado ir vai preenchendo aos poucos esse vazio.

13 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Zanfra.
aproveitando que o seu comentario dessa semana é relacionado a animais vou fazer um teste de personalidade para quem se interessar.
Coloque na ordem de sua preferência estes animais: vaca, cavalo, porco, cão, tigre.
Coloque ao lado dessas palavras um adjetivo que você atribue a cada uma delas:
cão............................
gato.............................
café.............................
mar..............................
Faça uma relação com pessoas de sua amizade ou de sua familia com a seguintes cores
Amarelo...........................
laranja..........................
vermelho...........................
branco.............................
verde.............................
Na proxima semana deixarei neste blog o que significa cada palavra e gostaria de saber se o teste bate com a sua personalidade, se é verdadeiro ou não.
Um grande abraço
Maria Gilka.

Regina Andrade disse...

Bastante interessante o texto dos animais....eu não sabia do filhote de baleia que tentou mamar no casco do iate...que triste! mas ao mesmo tempo como pode ele ter imaginado sua mãe no casco? até que tem semelhanças...sinto pelo seu animal, também na casa de meus pais, já passamos por isso! abraços

Cintia disse...

Eu estava com medo de ler...devia ter seguido meus instintos..
Um animal merece muito respeito, e eu me sinto felizarda em poder conviver com um. Ha comunicacao, ha carinho e ha amor, por que nao.. O meu Flea preenche a casa com a presenca dele, me faz rir, me provoca, me faz companhia.. Ele so quer que o deixemos nos amar..
Fique bem no ceu dos cachorrinhos, Arthur..

Vico disse...

Se formos comparar com o sistema de prêmios e punições que a igreja católica reserva aos bons e aos pecadores, aos animais não deve nunca ser reservado sequer o purgatório, quanto mais o inferno. O Arthur, acho, deve estar sentado à direita do Grande Cachorrão, para compensar o sofrimento que, pelo que entendi, o acompanhou no final de sua vida.

Anônimo disse...

Querido Zanfra,
Compartilho a sua dor.Esses bichinhos são muito especiais mesmo.Vão chegando como quem não quer nada na nossa casa ,e quando menos se espera,são membros da família.Aquela parte da família que dorme fora de casa,e que,por vezes pede-se a um parente para olhá-los enquanto viaja-se(não estou falando de você).Dividem o dia a dia da gente durante anos,com seu amor incondicional,sua alegria e rabugice contagiantes,e as vezes,insuportáveis.Chegam até a dormir sobre o jornal enquanto o lemos no chão da sala.Conheci um que tinha o apelido de Roque (como referência ao ator Rock Hudson)tamanha era a sua habilidade com as fêmeas(não sei se o original também a tinha,aliás,duvido).Conheci o Arthur já em estado terminal,onde sobrava dedicação da família para tornar seus últimos dias menos dolorosos.A forma como você descreveu o desenlace do Arthur,comoveu-me sinceramente,chegando às lágrimas.Mas como o “que é de raça,caça”,e já dividimos alguns velórios,onde,apesar da dor,sobrava o humor,não podia deixar de fazer um comentário no “velório à distância”:Você devia ter dado a notícia sobre o falecimento do Arthur(Arthur Tsuchida Zanfra)de maneira menos dolorosa,por exemplo,assim:”A coleira do Artur caiu do telhado...”Abraço

Rui

Marco Antonio Zanfra disse...

Pois nada me tira da cabeça que, logo depois de partir, o espírito do Arthur foi até São Paulo dar adeus ao tio. Só isso explica o fato de você pedir notícias dele no dia em que ele se foi.
Outra coisa que não sai da minha cabeça: será que ele concordaria em ser sacrificado? Será que ele também achava melhor ser posto para dormir? Será que, quando a veterinária chegou e a Kátia começou a fazer carinho nele, o Arthur não pensou "ah, agora, sim, minha dor vai passar porque eu estou recebendo atendimento médico e muito, muito amor"? Será que ele esperava que, no meio daqueles afagos, ele receberia uma injeção que faria seu coração parar?
Todo mundo diz: foi melhor assim, ele estava sofrendo. A gente usa essas "desculpas" para aliviar a consciência pesada. Nós lhe demos muito amor? Sim, mas também lhe oferecemos a morte, sem direito a escolha.
Vai demorar para passar: eu choro cada vez que olho aquele monte de terra coberto com hortênsias ressequidas onde ele está enterrado. Um pouco é de tristeza, claro, mas um pouco também é por remorso.

Blog do Morani disse...

Caro Zanfra:

Por falar em morte de animais de estimação, e outros que não sendo nos merecem o mesmo respeito e compaixão.Tivemos em Passo Fundo, RS, um cão pastor que meus pais entregaram ao ordenança à nossa volta ao Rio de Janeiro. Isso se deu em 1939! Lembro dele, como se fosse hoje, correndo atrás do trem em que viajávamos. Parou por não aguentar mais vencer a velocidade empreendida pela composição. Semanas depois, o tal ordenança - Quevedo - escreveu para nos dizer que Belo, nosso cão pastor, morrera de saudades; não comia nem bebia, andando pelos cantos do terreiro até se ir. Outro - uma cadelinha de nome Violeta - teve que ser abatido a tiros por meu irmão. Tinha terrível câncer na genitalia e sofria muito. A automática 45 acabou com o seu sofrimento. Isso já foi em Natal, RN, em 1954. Meu mano não teve outra alternativa. O veterinário não estava preparado para a eutanásia animal. Era nosso amigo e amava Violeta tanto quanto nós. Nunca mais voltamos a ter cachorros ou quaisquer outros animais de estimação. Sinto muito pelo seu cão. Ele deve estar, sim, no seio do Cão Maior. Eles, os animais, também têm almas viventes e destino igual aos dos seres humanos: nascer, crescer, morrer e progredir sempre, mas jamais chegarão à condição humana. Prescindem a essa forma de vida, por serem amados como são,

Abraços
Morani

Marco Antonio Zanfra disse...

Obrigado, Morani. É sempre gratificante ter pessoas com essa lucidez e sensibilidade entre os participantes do blog.

Anônimo disse...

Sônia, esposa do Zé Luiz

Olá Marcos Zanfra, lamentei a perda de seu animal de estimação que após tantos anos acaba sendo membro da família. Dizem que aprendemos com a dor. Não concordo, a dor só serve para machucar mesmo e deixar marcas, devemos é aprender com a alegria e fazer de tudo para sermos mais felizes.

Abraços, Sônia.

Marco Antonio Zanfra disse...

Que surpresa, Sônia! Nem sabia que você acompanhava o blog! Obrigado por suas palavras carinhosas.

Ricardo Câmara disse...

Prezado Zanfra;
A pobre cabra não merecia um destino tão ultrajante em ceder o seu corpo caprino a um marginal inconsequente.Se existe um animal que se iguala com esse tipo de malandragem, seria o gato!Tal espécie só serve para dá prejuizo:suja os quintais e jardins alheios,danificam os telhados, fazem barulho de madrugada, só escolhem os melhores lugares para se acomodarem, enfim, não servem para nada!Que me desculpem os aficinados pelos famigerados felinos. Já o cão, esse sim merece respeito recíproco do seu dono.Também lamento pela perda irreparável do seu porque embora se tente criar um outro (cão),não substitui a ausência do primeiro.Já que foi uma morte natural, a conformação é aceita.Pior seria se se ele (O Arthur), tivesse sido assassinado por um vizinho desalmado que o evenenasse tal qual ocorreu com o "Barão" (nosso amado Pastor-Alemão raciado com lobo) que aquele maldito vizinho o matou. Desde o dia que o nosso amigo (Barão) se foi, nunca mais tivemos um outro animal a altura...

Marco Antonio Zanfra disse...

Eu não diria que a morte do Arthur foi exatamente "natural". Ela foi induzida; de uma maneira exógena (uma injeção de cloreto de potássio), nós "antecipamos" a naturalidade de sua morte. De qualquer forma, valeu pelo apoio, Ricardo.

Anônimo disse...

Resultado do teste de personalidade, se é que algum blogueiro se interessou.
Vaca- carreira
tigre- orgulho
ovelha-amor
cavalo-familia
porco-dinheiro

Cão- a propria personalidade
gato- a descrição do seu par
rato- a personalidade dos teus inimigos
café- como você vê o sexo
mar- como você vê a sua propria vida.

amarelo- alguem que nunca esqueceras
laranja- alguem que consideras um verdadeiro amigo
vermelho alguem que amas de verdade
branco- a tua alma gêmea
verde- alguem que lembraras até o fim da vida.
Não entendi muito o amarelo e o verde que parecem dizer a mesma coisa.

Será que este teste diz mesmo da personalidade?